Muitas pessoas usam descongestionantes nasais sem ter consciência do risco à saúde que esses medicamentos podem causar.

 

Chega o inverno e, com ele, longos períodos de tempo seco e ar poluído. Principalmente nos grandes centros urbanos, a associação desses três elementos – frio, baixa umidade relativa do ar e poluição – transforma-se em campo fértil para a entrada de poluentes, fungos, vírus e bactérias no organismo. O primeiro órgão que reage a essas condições adversas é nosso nariz, estrutura anatômica dotada de múltiplas funções e complexo sistema de defesa.

Cabe ao nariz, por exemplo, filtrar o ar que respiramos para evitar que partículas de poeira e micro-organismos nocivos alcancem os alvéolos pulmonares. Isso só se torna possível, porque as cavidades nasais são revestidas por pequenos pelos e cílios microscópicos cobertos de muco, líquido pegajoso que ajuda a umedecer todo o sistema respiratório e a transportar elementos estranhos para fora do corpo.  E não para por aí. O nariz possui extensa cadeia de vasos sanguíneos que ajuda a aquecer o ar para que chegue na temperatura adequada aos pulmões.

 

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Não é exagero dizer, então, que é papel do nariz melhorar a qualidade do ar que respiramos. No entanto, certas condições inflamatórias, infecciosas, alérgicas ou mesmo anatômicas, como o desvio do septo e a presença de pólipos, podem interferir na passagem do fluxo de ar pelas narinas e provocar congestão nasal, ou seja, o popular nariz entupido. Na verdade, o entupimento do nariz é um mecanismo de defesa do organismo para impedir a entrada e o transporte de elementos nocivos para outros órgãos das vias aéreas.

O mecanismo é fisiológico.  Quando algum agente agressor atua como irritante, os vasos sanguíneos, que irrigam o nariz, dilatam, o volume de sangue aumenta e os cornetos (tecido esponjoso localizado nas paredes laterais da cavidade nasal) incham, obstruindo a passagem do ar, sinal de que o sistema imunológico está tentando livrar-se do agressor.

Congestão nasal não é doença. É sintoma. Resfriados comuns, gripes, rinites, sinusite, crises alérgicas, exposição prolongada ao ar condicionado, pólipos nasais, desvio de septo são condições que podem dificultar a passagem do ar pela cavidade nasal. Identificar a causa é fundamental para orientar o tratamento, quando necessário.

O fato é que a dificuldade para respirar traz bastante desconforto. Por isso, ao primeiro sinal de nariz entupido, é comum a pessoa recorrer ao uso dos descongestionantes nasais. Utilizados com critério, sob orientação médica e por prazo determinado (cinco dias, no máximo), eles proporcionam alívio quase que imediato, porque contêm substâncias vasoconstritoras (nafazolina, fenoxazolina, oximetatazolina, fenilefrina, pseudoefredina) em sua fórmula. Resultado: os vasos contraem, o fluxo de sangue diminui, o edema da mucosa regride, a produção de muco baixa e as pessoas voltam a respirar normalmente.

Dito assim, parece que esses remédios estão livres de efeitos adversos e por isso são vendidos livremente nas farmácias. Não é verdade. O uso contínuo dos descongestionantes nasais pode ter consequências graves no organismo.

O importante é manter a hidratação nasal. Nesse sentido, ajuda muito aplicar soro fisiológico nas narinas, várias vezes por dia, para manter a mucosa bem hidratada e livre de micro-organismos nocivos, usar umidificadores de ambientes e/ou tomar banho quente para que o vapor da água umedeça as vias respiratórias.

Uma delas é o efeito rebote. Embora a ação do medicamento seja rápida, a sensação de alívio é passageira.  Depois de algum tempo, o nariz volta a entupir, o que obriga a pessoa a ir diminuindo, progressivamente, o intervalo entre as aplicações a ponto de precisar ter sempre à mão um frasco do medicamento para poder respirar melhor.  Esse grau de dependência resulta num distúrbio chamado rinite medicamentosa ou vasomotora, cujo principal sintoma é o nariz entupido provocado por alterações na mucosa nasal que leva à perda da capacidade de contrair e dilatar os vasos sem “as gotinhas milagrosas”.

Outro problema é que a ação dos descongestionantes nasais não se restringe ao alívio do nariz entupido. Seu uso contínuo faz com que parte da substância vasoconstritora que entra na composição do medicamento seja absorvida pela mucosa, caia na corrente sanguínea e alcance o sistema cardiovascular, o que pode representar uma sobrecarga para o coração. Arritmia cardíaca, taquicardia, hipertensão arterial, trombose, tonturas e dor de cabeça são alguns dos sinais do efeito colateral dessas drogas em ógãos distantes. Vale também lembrar que muitos comprimidos indicados para alívio dos sintomas das gripes e resfriados possuem substâncias vasoconstritoras em sua fórmula que podem potencializar os efeitos indesejáveis da droga, incluindo a perda do olfato e perfuração do septo.

É importante destacar, ainda, que, nas crianças pequenas, o uso dos descongestionantes nasais pode ter consequências desastrosas, uma vez que pode provocar depressão do sistema cardiorrespiratório e levar à morte. E não há exagero nessa afirmação. Segundo dados fornecidos pelo Ceatox (Centro de Assistência Toxilógica do Hospital das Clínicas de São Paulo), depois dos anti-inflamatórios e dos analgésicos, os descongestionantes nasais são os medicamentos de venda livre que mais complicações graves podem apresentar.

É preciso ficar atento. Dias frios e secos, que dificultam a dispersão de gases poluentes, favorecem o aparecimento de problemas respiratórios e congestão nasal, pois aumentam o risco de edema (inchaço) da mucosa nasal, o que dificulta a respiração.

Por desconhecimento ou desinformação, nessas horas, muita gente recorre aos descongestionantes nasais, sem necessidade, para livrar-se do incômodo provocado pelo nariz entupido. Em grande parte dos casos, o tratamento da congestão nasal independe do uso desses medicamentos. O importante é manter a hidratação nasal. Nesse sentido, ajuda muito aplicar soro fisiológico nas narinas, várias vezes por dia, para manter a mucosa bem hidratada e livre de micro-organismos nocivos, usar umidificadores de ambientes e/ou tomar banho quente para que o vapor da água umedeça as vias respiratórias. Evitar a exposição ao ar-condicionado, que resseca o ar, e ingerir bastante líquido para ajudar a diluir o muco são outros cuidados que devem ser mantidos. Acima de tudo, é fundamental ficar longe da automedicação e procurar assistência médica se a congestão nasal for persistente, sugerir processos alérgicos, ou vier acompanhada de secreção densa e amarelada ou sangramento.