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Memória e imaginação | Artigo

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A memória serve não somente para armazenar experiências passadas, mas também para a projeção da imaginação.

 

Antes do nascimento da neurociência, muitos achavam que a memória não serviria apenas para armazenar experiências passadas, mas também para criar imagens de acontecimentos futuros.

Essas ideias ressurgiram em tempos mais modernos, quando o neurocientista Endel Tulving aventou a hipótese de que a habilidade de prever o futuro teve papel decisivo na evolução da memória, nos mamíferos.

Pesquisadores ingleses, liderados por Eleanor Maguire, acabam de publicar um trabalho na revista “Proceedings of the National Academy of Sciences”, demonstrando que os mesmos circuitos de neurônios ativados para lembrarmos do passado, são colocados em funcionamento para construirmos imagens do futuro.

Foram estudados cinco pacientes com amnésia, que haviam sofrido lesões no hipocampo, área do cérebro cuja integridade é crucial para a formação e armazenamento de memórias. Todos apresentavam muita dificuldade para formar novas memórias e para evocar acontecimentos ocorridos depois da instalação da enfermidade. Dez pessoas saudáveis com idades e níveis educacionais semelhantes aos dos pacientes serviram de grupo controle.

Os quinze participantes foram convidados a descrever diversas experiências da vida cotidiana: o encontro com um amigo, um passeio na praia, uma ida ao supermercado ou a um bar, etc.

Os membros do grupo controle fizeram descrições ricas em detalhes: as cores das prateleiras do supermercado, o cheiro dos bares, a disposição das garrafas no balcão, o barulho do mar, a brancura das ondas ao arrebentar, o prazer do calor da areia sob os pés.

 

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Os portadores de amnésia, apesar de entenderem as perguntas e responderem às solicitações com coerência, fizeram descrições bem mais pobres, com menos objetos, menos detalhes sensoriais, poucos pensamentos e emoções. As respostas indicaram que sua imaginação não era formada por cenas coerentes, mas por imagens fragmentadas.

Esses achados contradizem algumas ideias clássicas da Neurologia. Imaginava-se que o hipocampo teria a função de codificar novas memórias, criando um corpo de informações que seria posteriormente transferido para o córtex cerebral (a massa cinzenta que recobre o cérebro) para armazenamento definitivo. Segundo essa teoria, depois de uma memória estar devidamente ancorada no córtex, a integridade do hipocampo não seria mais necessária para mantê-la ou evocá-la.

Se assim fosse, os pacientes da doutora Eleanor Maguire, que apesar das lesões no hipocampo apresentavam córtex íntegro, deveriam ser capazes de evocar imagens vivas, ricas de detalhes, de suas experiências vividas antes do comprometimento do hipocampo.

Sua incapacidade de fazê-lo, no entanto, sugere que o hipocampo seja mais versátil do que se imaginava: é uma estrutura fundamental para programar reconstruções vivas do passado, construir cenas futuras e eventos imaginários.

Tais resultados estão em harmonia com uma observação recente de Donna Addis, da Universidade Harvard, que acaba de ser publicada na revista “Neuropsychologia”.

Um grupo de voluntários saudáveis foi submetido ao exame de ressonância magnética funcional (que permite mapear as regiões do cérebro que se encontram em funcionamento durante a realização de uma tarefa), enquanto evocavam memórias do passado e quando imaginavam experiências futuras. Em ambas as situações, o hipocampo foi ativado e os circuitos cerebrais que entravam em funcionamento eram os mesmos.

Se ficar demonstrado que o hipocampo é tão importante para a formação de novas memórias quanto para os vôos da imaginação, poderemos entender melhor a criatividade humana e a deterioração que ela sofre nos processos de demência que se instalam nos mais velhos.

O hipocampo é uma das primeiras regiões do cérebro a mostrar sinais de esgotamento na doença de Alzheimer e em outras demências. Essa perda funcional pode explicar por que a ideação de algumas pessoas mais velhas se torna progressivamente empobrecida, ao mesmo tempo em que a memória se esvai.

Referência: Science 315, 312 (2007)

Sobre o autor: Drauzio Varella

Drauzio Varella é médico cancerologista e escritor. Foi um dos pioneiros no tratamento da aids no Brasil. Entre seus livros de maior sucesso estão Estação Carandiru, Por um Fio e O Médico Doente.