O uso de fogão a lenha contribui para a degradação do ambiente, para o aumento das emissões de carbono e para a destruição das florestas.

 

O povo do interior diz que feijão preparado em fogo de lenha é outra coisa. Eu, que entendo tanto de culinária quanto de física quântica, fico na dúvida se a diferença está no processo de cozimento ou nas linguiças e toucinhos que engrossam o caldo do feijão caipira.

Apesar da atmosfera acolhedora que o crepitar da lenha confere à cozinha, sua substituição pelo prosaico botijão de gás é generalizada. Encontro fogões a gás nas casas mais humildes dos quatro cantos do Brasil.

Se você acha que agora farei a apologia dos tempos em que a família se reunia à noite ao redor do fogo, está redondamente enganado.

Cerca de 3 bilhões das pessoas mais pobres do mundo ainda cozinham e se defendem do frio por meio da queima de biomassa: madeira, carvão e até esterco de gado. A mesma fumaça que encarde as paredes e escurece o teto de suas casas, infelizmente, invade o aparelho respiratório dos moradores causando 2 milhões de óbitos por ano.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) considera o fogão a lenha o fator ambiental responsável pelo maior número de mortes, no mundo inteiro. Morre mais gente como consequência desse tipo de poluição doméstica do que de malária (causadora de 800 mil mortes/ano).

Mulheres e crianças que vivem em pobreza extrema correm risco mais alto, porque ficam mais expostas – os homens tendem a passar menos tempo em casa.

 

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Nas crianças com menos de cinco anos de idade, a principal causa de morte é pneumonia aguda, seguida pelas complicações da asma. Nas mulheres, a mortalidade está associada à doença pulmonar obstrutivo-crônica – das quais o enfisema é a mais frequente -, à doença cardiovascular e ao câncer das vias respiratórias. Sem nunca haver acendido um cigarro, padecem dos mesmos flagelos que afligem os fumantes.

Ao lado das tragédias individuais, a queima doméstica de biomassa contribui para a degradação do ambiente, para o aumento das emissões de carbono e para a destruição das florestas.

No Peru, por exemplo, cerca de 10 milhões de habitantes vivem em casas pequenas e mal arejadas, dispersas pelas 70 mil comunidades da cordilheira dos Andes. A poluição no interior dessas habitações é 30  vezes mais intensa do que o limiar máximo estabelecido pela OMS. Mais de 40% das mulheres apresentam doença pulmonar obstrutiva e/ou problemas cardiovasculares. Como resultado da falta de saneamento e da alta prevalência de enfermidades respiratórias, um terço das crianças são desnutridas.

Um estudo do Banco Mundial recém-publicado sugeriu que melhorar a eficácia de fogões alimentados por combustível, teria impacto positivo na saúde humana e no ambiente dessas regiões.

Embora a implementação de programas para garantir o acesso a fogões de qualidade tenha sido tentada durante décadas, os resultados foram prejudicados pela falta de esclarecimento das populações, pelas dificuldades de produzir fogões bons e baratos e por problemas logísticos para atingir lugares remotos.

Para superar essas limitações, a Fundação das Nações Unidas acaba de criar uma parceria público-privada, batizada de “100 por 20”, que tem como objetivo distribuir cem milhões de fogões até o ano 2020, primeiro passo para a universalização.

Os Estados Unidos se comprometeram a contribuir com US$ 50 milhões para uma parceria que envolve 175 países, corporações, fundações e ONGs.

Fogões de qualidade que consomem pouco combustível, além de poluir menos, reduzem o tempo que as mulheres passam nos afazeres domésticos, aumentando a probabilidade de acesso à educação e ao trabalho fora de casa.

A estratégia do programa requer a criação de uma demanda de mercado, porque o fogão comprado pelo consumidor é mais valorizado do que aquele distribuído gratuitamente. Além de custar barato, ele deve respeitar a cultura local e levar em conta as sugestões das mulheres, para que sejam construídos de acordo com suas necessidades.

Apesar desses desafios, a possibilidade de aliviar o sofrimento e de salvar milhões de vidas por meio de uma intervenção de baixo custo, capaz de reduzir as emissões de carbono e a velocidade com que as florestas são devastadas, além de estimular o crescimento econômico, merece de fato um esforço global.