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Commotio cordis | Artigo

atletas se chocam em campo. Essa é uma das causas do commotio cordis

Commotio cordis é causada pelo impacto de um objeto contra o tórax, que leva à morte súbita

 

 

Commotio cordis é a morte súbita por arritmia cardíaca provocada pelo impacto de um objeto contra o lado esquerdo do tórax, sem haver fratura de costelas ou do esterno e sem ferir diretamente o coração.

É uma condição que não pode ser confundida com contusões cardíacas resultantes de acidentes em que os ossos da parede torácica perfuram o miocárdio.

 

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Em latim, commotio cordis pode ser traduzido como agitação do coração. As primeiras referências a ele surgiram na literatura médica apenas no século 19, porém mortes por golpes aplicados à esquerda do esterno constam de livros antigos sobre artes marciais chinesas.

Embora tenha havido relatos recentes associados a acidentes de trabalho, commotio cordis ganhou destaque como causa de morte súbita apenas nos anos 1990.

A maior parte das informações existentes sobre essa patologia foi reunida no National Commotio Cordis Registry organizado na cidade americana de Mineápolis, que documentou 224 casos ocorridos nos últimos 15 anos.

De acordo com esse banco de dados, cerca de 50% dos eventos envolveram atletas com idade média de 15 anos, enquanto participavam de esportes competitivos. Tinham menos de 10 anos 26% das vítimas; somente 9% eram maiores de 25 anos. As colisões contra a parede torácica responsáveis pelas paradas cardíacas foram causadas predominantemente por bolas de beisebol, de hockey ou por choques contra outros atletas.

Não há evidências de que colisões contra o dorso, os flancos ou o lado direito da parede torácica provoquem morte repentina.

Em 25% dos pacientes, a parada cardíaca aconteceu durante a prática de esportes recreativos em casa ou por ocasião de encontros familiares. Nos 25% restantes, os acidentes foram atribuídos a acontecimentos mais raros: coices de cavalo, batidas contra balanços de jardim, cotoveladas, etc.

O risco depende da velocidade, da dureza, do tamanho e da forma do objeto que se projetou contra o tórax. Projéteis duros, pequenos e esféricos são os mais perigosos. Boladas no futebol ou socos recebidos em lutas de boxe com luvas dificilmente provocam paradas cardíacas, porque a maior superfície de contato ajuda a amortecer a energia cinética da colisão.

Os adultos correm risco menor, porque os músculos e o arcabouço ósseo da parede torácica são mais desenvolvidos e resistentes às pancadas.

O evento costuma ser fatal. Em apenas 25% dos casos registrados, a ressuscitação por meio de massagem cardíaca ou com o uso do desfibrilador conseguiu reverter a parada cardíaca, porcentagem pequena se considerarmos que se tratava de jovens sem doença cardíaca prévia.

Apesar de o colapso cardiovascular acontecer de forma instantânea, cerca de 20% dos acidentados conseguiram permanecer em atividade por alguns segundos. Por exemplo, ao receber uma bolada no peito, um lançador de beisebol ainda encontrou forças para correr até a base mais próxima antes de cair sem sentidos.

Trabalhos experimentais realizados em porcos com a função cardíaca monitorizada, enquanto recebiam objetos atirados ou batidas contra a parede torácica, mostraram que existem dois fatores mecânicos responsáveis pela arritmia que fará o coração parar, eventos característicos do commotio cordis.

O primeiro diz respeito à localização do choque, que deve atingir a região anterior-esquerda do tórax na área correspondente ao coração, particularmente ao redor do centro da silhueta cardíaca. Não há evidências de que colisões contra o dorso, os flancos ou o lado direito da parede torácica provoquem morte repentina.

O segundo está relacionado com o momento em que ocorreu o trauma. O traçado eletrocardiográfico revela que ele deve acontecer no instante em que o aparelho anuncia o pico da onda T, evento elétrico que dura míseros 10 a 20 milésimos de segundo.

Se o impacto não ocorrer nessa brevíssima janela de vulnerabilidade, não será induzido o tipo de arritmia que levará à parada do coração. É preciso estar no lugar errado no pior instante possível.

Sobre o autor: Drauzio Varella

Drauzio Varella é médico cancerologista e escritor. Foi um dos pioneiros no tratamento da aids no Brasil. Entre seus livros de maior sucesso estão Estação Carandiru, Por um Fio e O Médico Doente.