A revolução da urina | Artigo

Projeto internacional estuda o uso de urina como fertilizante, substituindo, assim, cerca de um quarto do nitrogênio e do fósforo contidos nos fertilizantes atuais.

Drauzio Varella

Drauzio Varella é médico cancerologista e escritor. Foi um dos pioneiros no tratamento da aids no Brasil. Entre seus livros de maior sucesso estão Estação Carandiru, Por um Fio e O Médico Doente.

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Publicado em: 25 de abril de 2022

Revisado em: 25 de abril de 2022

Projeto internacional estuda o uso de urina como fertilizante, substituindo, assim, cerca de um quarto do nitrogênio e do fósforo contidos nos fertilizantes atuais.

 

Esse é o título de um artigo publicado na revista “Nature”, em fevereiro deste ano (2022), com o subtítulo: “Como a reciclagem de urina pode ajudar a salvar o mundo”.

Há um esforço para criar métodos que tornem possível separar a urina do resto do esgoto. Nele, estão envolvidos vários países: Estados Unidos, Holanda, Austrália, Etiópia, Suíça, África do Sul, entre outros. O objetivo é usar, na produção de fertilizantes, o resíduo sólido resultante da desidratação da urina.

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Com essa finalidade, têm sido construídos, nas ruas, vasos sanitários sem água, em que as pessoas possam esvaziar a bexiga, de modo que a urina drene para um compartimento no subsolo dotado de sistemas de tratamento. A Agência Espacial Europeia está para instalar, em Paris, 80 sanitários desse tipo que entrarão em funcionamento até o fim do ano. A ideia é testar esse projeto piloto para levá-lo aos postos militares, aos campos de refugiados e às áreas mais ricas e às mais pobres da cidade.

Os cientistas encarregados desse trabalho calculam que o impacto ambiental e os benefícios à saúde pública serão enormes, se empregados no mundo inteiro, já que a urina é muito rica em nutrientes. Aproveitada dessa maneira, ela deixaria de poluir os reservatórios de água potável para fertilizar lavouras e aumentar a produtividade no campo.

As estimativas são de que os seres humanos sejam capazes de produzir urina suficiente para substituir cerca de um quarto do nitrogênio e do fósforo contidos nos fertilizantes atuais. Ao lado desses elementos, ela contém potássio e ureia entre outros micronutrientes de interesse.

Além dessas vantagens, processar a urina economiza grandes quantidades da água usada para dar descargas nos vasos e evita a ação corrosiva nos encanamentos envelhecidos.

Um estudo realizado com a água presente no esgoto sugere que o reaproveitamento global de potássio proporcionaria um lucro de US$2,3 bilhões por ano, o de nitrogênio US$ 8,0 bilhões e o de fósforo US$ 2,3 bilhões.

Durante o século 20, a população duplicou; no ano 2000 já éramos 6 bilhões. Hoje estamos perto dos 8 bilhões. Seremos 10 bilhões em 2050.

Graças à tecnologia desenvolvida na produção de vasos sanitários ligados a estações de tratamento da urina coletada, esses equipamentos estão praticamente prontos para uso imediato.

Não é viável instalar encanamentos projetados para drenar grandes volumes de urina na direção de estações centrais, que ficariam encarregadas de evaporar a água para separá-la dos componentes sólidos. Haveria necessidade de criar usinas que exigiriam investimentos custosos e ocupariam muito espaço em áreas densamente povoadas nas cidades.

A solução que os técnicos consideram mais econômica é a de que esse processamento seja feito nos próprios locais de coleta.

As pesquisas estão concentradas nos melhoramentos para aumentar a eficiência do sistema com medidas que podem incluir miniestações de tratamento químico acoplados diretamente no vaso sanitário e recipientes que permitam tratar a urina de prédios inteiros. Com a mesma finalidade, foram desenvolvidas diversas técnicas para recolher o resíduo sólido obtido a partir da desidratação, etapa fundamental para levá-lo às fábricas de fertilizantes.

Há ainda a questão social: como as pessoas receberiam a notícia de que estão à venda alimentos fertilizados com urina concentrada?

No passado, a urina foi empregada para fertilizar lavouras, tingir couros, lavar roupas e até na produção de pólvora. Só no fim do século 19, foi colocado em prática, na Inglaterra, o sistema centralizado de coleta de esgoto, que se espalharia pelo resto do mundo, acabando com a possibilidade de coleta seletiva de urina.

Reverter esse modelo não será tarefa simples, mas os interesses comerciais poderão viabilizá-lo.

A população mundial era de 450 milhões quando o Brasil foi descoberto. Ao redor de 1800, esse número chegou a 1 bilhão, isto é, para atingirmos o primeiro bilhão de habitantes foram necessários 220 mil anos.

Durante o século 20, a população duplicou; no ano 2000 já éramos 6 bilhões. Hoje estamos perto dos 8 bilhões. Seremos 10 bilhões em 2050.

Como alimentar tanta gente sem destruir o planeta, de modo a torná-lo inviável para as gerações futuras? Nem a nossa urina escapará da reciclagem.

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