Coronavírus

Por que os números de casos de Covid-19 divulgados pelo estado de SP e seus municípios são diferentes?

Laboratório analisa caso suspeito de coronavírus, essencial para atualizar os dados da doença.

Dados dos boletins dos municípios analisados mostram 35 mil casos de coronavírus a mais do que o boletim do governo. Veja a explicação.

 

Um levantamento feito pelo Portal Drauzio Varella encontrou uma média de 24% de diferença entre os números de casos confirmados de Covid-19 divulgados pelo governo de São Paulo e pelos municípios. Foram analisados 25 do 41 municípios com mais de 200 mil habitantes, com dados informados até 24 de junho. Enquanto o governo indicava 175 mil casos de coronavírus para essa amostragem, os municípios apresentaram ao todo 210 mil. Já quanto a mortes, não foram encontrados valores significativos de discrepância. Os dados utilizados foram retirados do boletim do governo e confrontados com os boletins municipais.

Veja também: Boletim Coronavírus – O que os dados nos dizem sobre a pandemia de Covid-19?

As cidades de Praia Grande e Taubaté, por exemplo, contabilizaram diferenças significativas. O município do litoral paulista indicava 56% mais casos confirmados que o boletim do governo (3716 pelo município, 2376 pelo estado), enquanto a cidade do interior apresentou 47% ocorrências a mais (487 pelo município e 332 pelo estado). A maior diferença encontrada foi na cidade de Indaiatuba, com 201% a mais que o boletim do governo. O boletim municipal informava 1194 casos, enquanto o do estado, 397 casos – uma diferença de 797 casos.

A assessoria da Prefeitura de Praia Grande informou que os dados do município são atualizados diariamente nos dois sistemas utilizados pelo governo, E-SUS e SIVEP (Sistema Informatizado de Vigilância Epidemiológica), e que não há demora na disponibilidade desses dados para o governo (o que poderia explicar uma diferença temporária). A Prefeitura de Taubaté também informou que a atualização dos casos nos sistemas é diária, e aponta que a partir do momento em que os dados são publicados, tornam-se disponíveis para os técnicos do governo do estado.

Algumas cidades, por outro lado, têm notificado menos que o estado. É o caso de Itaquaquecetuba e Jacareí. Ambas tiveram 13% a menos que o divulgado no boletim do governo. Nenhuma cidade analisada apresentou dados idênticos aos do governo, mas Santos e Campinas tiveram a menor diferença, sendo 1% para mais na primeira e 1% para menos na segunda.

 

O que o governo diz

 

A notificação de casos suspeitos, confirmados e internações é de responsabilidade dos municípios, que os repassam para serem reunidos pelo estado. Os dois sistemas utilizados para lançar a notificação, E-SUS e SIVEP Gripe, são geridos pelo Governo Federal. A Vigilância Epidemiológica Municipal é responsável por notificar e investigar caso a caso, analisando onde a pessoa mora e possíveis pessoas que foram infectadas. Caso uma suspeita de coronavírus seja confirmada, a Vigilância deve atualizar o status no sistema e fazer o acompanhamento do paciente. A não notificação pode levar a multa de até R$ 276 mil e penalidades previstas no Código Sanitário Estadual.

Segundo o professor Paulo Menezes, coordenador do Centro de Contingência do Coronavírus do Estado de São Paulo, essa disparidade de dados entre município e governo pode ocorrer por duplicidades no sistema. “Quando o paciente passa em um primeiro atendimento no serviço de Saúde, ele é notificado no sistema. Se ele passar de novo, é notificado de novo. Se daqui a três dias ele for internado, é notificado novamente. No nível estadual, a gente realiza a ‘higienização’, ‘limpando’ as duplicidades”, afirma o coordenador.

Uma segunda hipótese levantada por Menezes tem a ver com exames realizados em laboratórios privados. “O município tem acesso a resultados de laboratórios particulares que não entraram no sistema de pedidos de exames do Instituto Adolfo Lutz, responsável por realizar as análises laboratoriais do Serviço Público de Saúde.” Com a confirmação em mãos, a vigilância do município tem que atualizar o resultado do exame no sistema, o que, segundo Paulo, “pode demorar 2 ou 3 dias”, contribuindo para a divergência entre os dados.

Por fim, o coordenador aponta que, caso o paciente seja atendido e notificado por uma cidade, mas resida em outra, ele entra na contagem do local em que mora. O governo faz essa alteração durante a limpeza dos dados, o que pode ocasionar divergência em relação aos boletins municipais. De acordo com o Governo de São Paulo, os dados corretos são os do estado, e esses não devem ser comparados com os disponibilizados pelas cidades.|

Sobre o autor: Rafael Machado

Rafael Machado é jornalista e repórter do Portal Drauzio Varella. Tem interesse nas editorias de saúde pública e direitos humanos.