Segurança e eficácia da vacina contra o HPV são comprovadas; meninos e meninas devem ser vacinados antes de iniciarem a vida sexual.

 

Em novembro de 2017, o Ministério da Saúde lançou os dados preliminares da pesquisa “Pop — Brasil: Estudo epidemiológico sobre a prevalência nacional de infecção pelo HPV”, feita em parceria com o Hospital Moinhos de Vento (Porto Alegre-RS), que revelaram que mais da metade dos jovens brasileiros está contaminada pelo vírus HPV, o papilomavírus humano.

Um estudo (“HIM – Human Papillomavirus Infection in Men” —  “Infecção pelo HPV em homens”, em tradução livre) anterior que acompanhou  homens de vários países, incluindo o Brasil, por cinco anos e que foi publicado em abril de 2017 pela revista científica da Sociedade Brasileira de Infectologia “Brazilian Journal of Infectous Disease” , já havia apontado que aproximadamente 72% dos homens dos participantes estiveram contaminados com o vírus em algum momento da pesquisa.

 

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Transmitido pelo contato de pele e mucosas durante o sexo, o HPV está associado ao surgimento de verrugas genitais e anais e de câncer de orofaringe (boca e garganta) e anal em ambos os sexos, além do câncer de pênis nos homens e de vulva, vagina e colo do útero (responsável, segundo o Instituto Nacional do Câncer – Inca, por cerca de 265 mil mortes por ano, sendo que 84% dos casos desse tipo de câncer, o quarto mais comum entre as mulheres, estão relacionados ao HPV) nas mulheres.

Aprendemos há mais de dez anos que a vacina quadrivalente é segura, desperta resposta imunológica duradoura e previne doenças

Os tipos mais comuns de HPV e responsáveis por quase a totalidade das doenças associadas a ele são os tipos 6, 11, 16 e 18. O HPV6 e o HPV11 são considerados de baixo risco para causar tumores, mas responsáveis pela maioria dos casos de verrugas genitais e anais; já o HPV16 e o HPV18 são de alto risco.

O HPV é um vírus altamente transmissível, que se aloja tanto na mucosa quanto na pele da região genital, por isso o preservativo, apesar de evitar muitas transmissões do HPV e prevenir outras doenças sexualmente transmissíveis, nem sempre evita a contaminação pelo vírus. Desse modo, a melhor forma de combater sua disseminação é vacinar a população não contaminada.

 

Eficácia e segurança da vacina do HPV

 

A vacina quadrivalente, que protege exatamente contra os quatro tipos mais comuns do vírus, está disponível em duas doses, que devem ser tomadas com intervalo de seis meses, gratuitamente pelo SUS para meninas de 9 a 14 anos, para meninos de 11 a 14 anos, para pessoas de 9 a 26 anos com HIV/Aids e para pacientes oncológicos ou transplantados (este último grupo precisa de prescrição médica para vacinar-se e teve tomar três doses da vacina, com intervalo de 0, 2 e 6 meses).

Apesar disso e da recomendação de especialistas, parte da população tem muitas dúvidas a respeito da eficácia e da segurança da vacina, o que explica a baixa taxa de adesão à vacina.

De acordo com os dados apurados junto ao Ministério da Saúde, desde que a vacina foi incorporada ao Calendário Nacional de Vacinação, em 2014, até março de 2017, 70,5% das meninas receberam a primeira dose da vacina. Já apenas 43% do público-alvo recebeu o esquema vacinal completo de duas doses nesse período. Somente 16,5% dos meninos foram vacinados de janeiro, quando o SUS passou a fornecer a vacina a esse grupo, a junho do ano passado.

Desde que começou a ser oferecida, houve uma série de boatos envolvendo a vacina. No entanto, especialistas e o próprio ministério afirmam que a vacina é segura, sendo amplamente utilizada em países como Estados Unidos. Austrália, Inglaterra, entre outros, desde 2006.

“A vacina é extremamente segura e protege contra os 4 tipos de vírus mais prevalentes. É fundamental que meninas e meninos sejam vacinados antes de iniciar a vida sexual, para evitar a disseminação do HPV”, explica o dr. Esper Kallás, médico infectologista e professor da Faculdade de Medicina da USP.

 

Vídeo: Entenda a importância da vacina do HPV

 

Uma das especialistas em HPV mais reconhecidas na comunidade científica internacional, a bióloga Luísa Lina Villa, docente da Faculdade de Medicina da USP e pesquisadora do ICESP (Instituto do Câncer do Estado de São Paulo), é categórica ao afirmar a segurança da vacina. “Aprendemos há mais de dez anos que a vacina quadrivalente é segura, desperta resposta imunológica duradoura e previne doenças.”

A dra. Villa foi responsável por conduzir o primeiro estudo internacional a demonstrar que a vacina impede a infecção e as doenças causadas pelo HPV. Esse estudo, publicado em 2005, determinou a segurança da vacina e propiciou outros estudos clínicos em um número maior de mulheres, o que levou à aprovação da vacina.

Segundo a bióloga, estudos mostram que a vacina diminui entre 70% a 80% o número de infecções pelo vírus em países em que a vacina é aplicada há mais tempo, como Estados Unidos, Suécia, Canadá, Dinamarca, entre outros. As taxas de redução de infecção pelo HPV na Austrália, por exemplo, que tem uma das maiores coberturas vacinais do mundo (cerca de 80% dos jovens) e oferece a vacina contra o vírus gratuitamente desde 2007, são bastante surpreendentes: 80% de diminuição em todas as infecções pelos quatro tipos de vírus presentes na vacina; 90% de redução de verrugas genitais; e 70% de queda no número de lesões precursoras do câncer de colo de útero.

 

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Para a pesquisadora, a vacina traz benefícios para qualquer indivíduo, independentemente da faixa etária. Para maiores de 15 anos, no entanto, ela deve ser administrada em três doses, segunda a dra. Villa.  Mulheres de até 26 anos que tiveram doenças associadas ao HPV e receberam a vacina apresentaram uma redução de cerca de 70% em recidivas de verrugas genitais e lesões percussoras do câncer de colo de útero. No entanto, por ser preventiva, a vacina é mais eficaz antes do início da vida sexual.

Para estabelecer o público-alvo a ser vacinado, o Ministério da Saúde leva em conta o benefício dos grupos, e não o individual. A vacina, embora também beneficie pessoas sexualmente ativas, estimula uma resposta imunológica mais eficaz em jovens, por isso é indicada a esse público.

Portanto, a recomendação é bastante clara, quanto mais pessoas vacinadas, menos infecções pelo HPV e menos doenças associadas a ele. A regra vale para qualquer doença infecciosa cuja vacina esteja recomendada, mas, no caso do HPV, ainda parece encontrar resistência entre parte da população por estar relacionada a um tema que ainda é tabu: o sexo.

 

Vídeo: Dr. Drauzio explica por que é importante vacinar também os meninos contra o HPV