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Neurologia

AVC em mulheres: sintomas menos óbvios podem atrasar o diagnóstico

Além dos sinais clássicos, algumas manifestações podem dificultar o reconhecimento do quadro e dificultar o atendimento

Nem todo acidente vascular cerebral (AVC) começa com fraqueza de um lado do corpo ou dificuldade para falar. Em mulheres, o quadro também pode surgir com dor de cabeça, fadiga, tontura, confusão ou náusea, sintomas que tendem a ser confundidos com outros problemas e atrasar a busca por atendimento.

Embora os principais sinais sejam semelhantes em homens e mulheres, alguns sintomas podem ser mais frequentes entre elas. Uma revisão de estudos, com mais de 580 mil pessoas, encontrou maior ocorrência de cefaleia e alterações do nível de consciência entre mulheres que tiveram AVC.

“Há evidências de que mulheres com AVC apresentam maior risco de receber inicialmente outro diagnóstico. É comum a mulher minimizar o quadro, pensar estar cansada e não associar aquilo a uma emergência. Isso faz com que muitas percam tempo para o atendimento, e quanto mais rápido o diagnóstico, maiores são as chances de recuperação sem sequelas”, destaca Feres Chaddad, neurocirurgião e professor do Departamento de Neurologia e Neurocirurgia da Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (EPM/Unifesp).

 

Por que os sintomas de AVC variam tanto?

O AVC acontece quando uma parte do cérebro deixa de receber sangue e oxigênio adequadamente, no caso do AVC isquêmico; ou quando um vaso sanguíneo se rompe e provoca um sangramento, no AVC hemorrágico.

Como diferentes áreas do cérebro controlam funções distintas, os sintomas variam bastante de uma pessoa para outra, dependendo da região atingida.

Os sinais de alerta que exigem atendimento de emergência incluem:

  • confusão mental súbita, dificuldade para falar ou compreender o que está sendo dito;
  • dor de cabeça muito forte e repentina, diferente do habitual e sem causa aparente;
  • tontura, náusea, perda de equilíbrio ou dificuldade para andar que surgem de repente;
  • alteração súbita da visão, como visão turva ou perda parcial da visão;
  • sonolência ou perda de consciência sem explicação;
  • fraqueza ou dormência, principalmente quando atingem um lado do corpo;
  • convulsão sem histórico prévio.

Veja também: Por que os casos de AVC têm crescido entre os mais jovens?

 

Gravidez e pós-parto exigem atenção

A gravidez provoca mudanças na circulação e na coagulação do sangue que podem aumentar o risco de AVC. Embora seja um evento raro durante a gravidez, estudos estimam 30 casos de AVC a cada 100 mil gestações, com as maiores taxas no período próximo ao parto e após o nascimento do bebê.

Um dos fatores relacionados a esse risco é a pré-eclâmpsia, uma complicação da gravidez caracterizada pela elevação da pressão arterial e que pode afetar outros órgãos. O problema também causa consequências depois da gestação: uma análise com mais de 10,6 milhões de mulheres encontrou 75% maior risco de AVC ao longo da vida entre aquelas que tiveram pré-eclâmpsia.

“Gestantes e mulheres no pós-parto apresentam aproximadamente três vezes o risco de AVC observado em adultos jovens de idade semelhante. A maioria dos AVCs associados à gestação ocorre no pós-parto, e as primeiras duas semanas após o parto constituem um dos períodos de maior risco”, complementa Chaddad. 

 

Mulheres jovens também podem ter AVC

Embora o AVC seja mais frequente com o envelhecimento, ele também atinge mulheres jovens. Além disso, ao longo da vida o impacto da doença é maior entre elas. 

“O AVC continua sendo uma das principais causas de morte e incapacidade entre as mulheres. Um fator importante é que elas vivem, em média, mais do que os homens e  acumulam maior exposição aos fatores de risco. Hoje, há mais mulheres vivendo as consequências de um AVC nas faixas etárias mais avançadas”, explica Danilo Donizete de Faria, neurologista e diretor do Serviço de Neurologia do Instituto de Assistência Médica ao Servidor Público Estadual (Iamspe).

Além de fatores conhecidos, como hipertensão, diabetes, tabagismo e colesterol alto, algumas condições relacionadas à saúde feminina também podem estar associadas a um risco maior. Entre elas, estão:

  • enxaqueca com aura: mulheres que apresentam esse tipo de enxaqueca têm maior risco de AVC isquêmico. A associação merece ainda mais atenção quando há tabagismo ou uso de anticoncepcionais com estrogênio;
  • anticoncepcionais hormonais: os métodos que contêm estrogênio aumentam discretamente o risco de AVC, principalmente quando combinados a outros fatores;
  • menopausa precoce: quando acontece antes dos 40 anos, está associada a um maior risco cardiovascular ao longo da vida;
  • endometriose: há uma associação entre a doença e maior risco de condições cardiovasculares, embora os mecanismos dessa relação ainda estejam sendo investigados.

Veja também: Menopausa aumenta o risco de doenças cardiovasculares?

 

Atendimento deve ser imediato

O tempo é determinante no tratamento do AVC. Quando uma artéria cerebral é obstruída, parte do tecido começa a sofrer com a falta de oxigênio.

“Conforme os minutos e as horas passam, parte desse tecido pode sofrer uma lesão definitiva. Um sintoma neurológico que surge de repente deve ser considerado AVC até que se prove o contrário. Não devemos esperar para ver se passa”, explica Faria.

Nos casos de AVC isquêmico, alguns pacientes recebem medicamentos para dissolver o coágulo. Quando há obstrução de grandes artérias, também pode ser indicada a trombectomia mecânica, procedimento que retira o coágulo por meio de um cateter. A escolha depende do tempo, das imagens do cérebro e das características de cada paciente.

Mesmo que o sintoma desapareça depois de alguns minutos, é preciso procurar atendimento, pois pode ter ocorrido um ataque isquêmico transitório (AIT), um sinal de alerta para um possível AVC.

 

Riscos de sequelas 

A dificuldade para andar ou mexer um lado do corpo costuma ser uma das primeiras consequências associadas ao AVC. Mas as sequelas podem aparecer de outras formas: alterações na fala, na visão e no equilíbrio, dificuldade de memória e atenção e mudanças emocionais, como depressão e ansiedade.

A intensidade e o tipo de sequela dependem principalmente da área do cérebro atingida e da extensão do AVC. A recuperação varia de pessoa para pessoa e pode envolver fisioterapia, fonoaudiologia e terapia ocupacional.

O impacto depois do AVC pode ser maior em mulheres. Estudos mostram que elas tendem a apresentar maior incapacidade, pior resultado funcional e menor qualidade de vida depois do evento”, finaliza Chaddad.

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