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Vacina para dois: o avanço da imunização materna no Brasil

A primeira defesa do bebê começa na barriga da mãe. Entenda como a imunização materna diminuiu os casos de doenças neonatais no Brasil

A primeira defesa do bebê começa na barriga da mãe. Entenda como a vacinação materna diminuiu os casos de doenças neonatais no Brasil

Quando uma criança nasce, os únicos anticorpos que ela tem são os que vêm da mãe. A própria imunidade ainda está em desenvolvimento, e a proteção necessária virá a partir do contato com microrganismos e, é claro, da vacinação.

Só que alguns tipos de imunizantes não podem ser aplicados logo ao nascer. Outros conferem proteção plena apenas depois de completar a quantidade de doses requerida. Portanto, até cerca de 6 meses de vida, a saúde do bebê depende, exclusivamente, da mãe.

Como a proteção da vacina passa da mãe para o bebê?

Todas as vacinas para mulheres grávidas as protegem contra problemas graves de saúde em um momento em que o organismo está mais vulnerável. Mas os anticorpos produzidos também são transmitidos para o feto.

Placenta: a imunização passiva

Assim que a vacina entra no organismo da mãe, o sistema imunológico produz anticorpos IgM, os quais organizam o primeiro ataque ao microrganismo presente no imunizante (importante lembrar que esse microrganismo não tem capacidade de causar a doença, apenas estimular a resposta imune). Depois de algumas semanas, entram em ação as imunoglobulinas G (IgG), capazes de neutralizar o antígeno de forma mais direcionada. 

As imunoglobulinas conseguem atravessar a placenta e alcançar a circulação sanguínea do feto. Isso é esperado, já que os sistemas circulatórios materno e fetal são conectados para a passagem de oxigênio, nutrientes e outras substâncias necessárias para o bebê. A troca de anticorpos começa a partir da 13° semana e dura por toda a gestação. Ao completar 6 meses de vida, a criança já começa a produzir o IgG por conta própria.

Amamentação: a primeira “vacina” do bebê

Os mesmos anticorpos também podem ser transferidos para o bebê através do leite materno. A explicação estaria na grande vascularização das glândulas mamárias, passando anticorpos através da circulação sanguínea materna de forma semelhante ao que acontece na placenta. 

No corpo do bebê, essas moléculas seguem para o trato gastrointestinal, que ainda não é tão ácido. Sendo assim, os anticorpos não seriam degradados e, sim, absorvidos para sua proteção. 

É seguro? Exemplos brasileiros

Seguindo essa lógica, o Calendário Nacional de Vacinação 2026 define que a gestante deve tomar sete vacinas ao descobrir a gravidez: hepatite B, dT, influenza trivalente, covid-19, dTpa, vírus sincicial respiratório e, em casos excepcionais, febre amarela

Acesso em 11 de junho de 2026. Fonte: Ministério da Saúde.

Dificuldades no agendamento e insegurança em relação aos imunizantes podem fazer com que a mulher hesite. No entanto, o Brasil tem exemplos bem claros de como a vacinação materna é efetiva.

Entre 2008 e 2014, os casos de coqueluche (pertussis) em crianças menores de 1 ano cresciam desenfreadamente, subindo de 967 para pouco mais de 5 mil. O Ministério da Saúde, então, incorporou a dTpa, a vacina tríplice bacteriana que protege contra difteria, tétano e coqueluche. No período seguinte, de 2015 a 2018, foi observado uma redução de 63,6% na incidência da doença em bebês menores de 2 meses e de 24,7% das hospitalizações em crianças menores de 1 ano. 

Mesmo em 2024 e 2025, quando houve um novo aumento de casos, a doença se concentrou em adolescentes e adultos, mudando o perfil epidemiológico da coqueluche graças à vacinação das gestantes.

Recentemente, o SUS adquiriu a vacina contra o vírus sincicial respiratório, o causador da bronquiolite. O Brasil ainda não conta com análises sobre o impacto da vacinação desde que o imunizante começou a ser distribuído, mas o estado do Paraná, por exemplo, já registrou uma queda de 83,5% no número de internações por síndrome respiratória aguda grave (SRAG) decorrente do VSR em crianças com até 2 anos de idade.

“Todas as vacinas recomendadas na gestação são seguras, tanto para a gestante quanto para o feto. O que se observa é que há alguns aspectos diferentes. A vacina contra o vírus sincicial respiratório (VSR) tem como objetivo básico proteger a criança nos primeiros meses de vida. Isso difere de algumas vacinas como, por exemplo, a vacina da covid-19, que protege a gestante (também grupo de risco para a doença) e o bebê no período em que ele ainda não pode tomar a vacina”, explica Juarez Cunha, diretor da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm).

Veja também: Vacinas na gravidez: quais podem e quais não podem ser tomadas

O pré-natal para quem está em dúvida

A cobertura vacinal entre as gestantes no Brasil costuma ser boa. Segundo o painel do Ministério da Saúde, 82,44% das mulheres grávidas estão imunizadas com a dTpa e 83,56% contra o VSR. A vacina contra a covid-19, porém, não chega aos 50%. De maneira geral, a adesão das gestantes é um desafio, mas tem aumentado nos últimos anos.

Acesso em 11 de junho de 2026. Fonte: Ministério da Saúde.

“Tem-se observado, pelos dados do Ministério da Saúde, uma adesão altíssima à vacina do VSR. Provavelmente, isso ocorre porque as mães sabem o que é a bronquiolite e conhecem a gravidade dessa doença. Mas um aspecto importante, que influencia na hesitação vacinal, é a complacência, relacionada à falsa sensação de segurança em relação a doenças que as pessoas não veem mais e, por isso, acham que não precisam se vacinar. Esse é especificamente o caso da covid-19. Há uma fadiga generalizada sobre o assunto, sobre a doença e sobre as vacinas contra a covid-19, somada à falta de divulgação de que a covid-19 continua, de fato, hospitalizando e matando pessoas”, compara o especialista.

Estudos brasileiros mostram que o pré-natal é um dos principais determinantes para mudar esse cenário. Mulheres que recebem acompanhamento pré-natal e orientação dos profissionais de saúde apresentam maior adesão às vacinas recomendadas. 

“Eu tive um acompanhamento maior com o obstetra, mas também passei por equipes mais completas na área da saúde, com enfermeiros. Todos eles abordaram o assunto de uma forma muito leve. Não foi uma pressão, todos sempre perguntavam e tentavam reforçar a importância, de uma forma leve, mas mostrando que era importante”, conta Victoria Cristina Albano de Carvalho, 24 anos, enfermeira e mãe do Oliver.

Saber que o seu filho poderia se contaminar com uma doença prevenível foi decisivo para Victoria completar o calendário vacinal da gestante. As suas preocupações eram a de não perder o momento certo para se vacinar e evitar os imunizantes contraindicados durante a gravidez. 

A vacinação de gestantes não se restringe a um único trimestre, variando conforme o imunizante. É indicado que mulheres que estejam tentando engravidar atualizem todo o calendário vacinal antes da gestação para já estarem imunizadas com as vacinas que não podem ser tomadas nesse período.

Tem mais vacinas para gestantes vindo por aí?

“O Brasil já tem uma boa cobertura em termos de vacinação de gestantes. Trazer a vacina do vírus sincicial respiratório foi um grande ganho. Acredito que as opções que o Brasil oferece já contemplam o que há de melhor disponível no mundo. Isso mostra que temos uma estratégia muito robusta contra as doenças neonatais. Fazer a vacinação de gestantes e atingir coberturas próximas de 90% é um exemplo para o mundo”, afirma Eder Gatti, diretor do Programa Nacional de Imunizações (PNI).

Entre as possibilidades de novos imunizantes, a promessa é a vacina contra o Streptococcus agalactiae, a principal bactéria causadora da sepse e da meningite neonatal. A GBS6, ainda em estudo, gerou anticorpos em gestantes que foram transferidos aos recém-nascidos em níveis associados à redução das duas doenças nos primeiros três meses de vida. 

Além disso, há esforços para combinar as vacinas já disponíveis, diminuindo o número de vezes que a gestante terá que ir ao posto de saúde.

“O que eu diria para outras gestantes que ainda têm dúvidas é que sempre tentem procurar um profissional de saúde para saná-las, seja o seu enfermeiro, o seu médico de referência ou outro profissional em quem você confie e que tenha base na área de gestação e neonatologia. Tirem essas dúvidas. Hoje em dia também temos a internet, que ajuda em muitas coisas. Se você está com dúvida sobre algo, vá atrás, pesquise. A gestação é um período muito confuso para nós, porque o nosso corpo muda muito e não sabemos necessariamente quais são os limites entre o que é para nós e o que é para o bebê, então é muito válido tirar dúvidas com profissionais em quem confiamos”, aconselha Victoria.

Veja também: Como os primeiros mil dias de vida impactam o envelhecimento

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