Uma das principais funções do fígado é filtrar toxinas do sangue. Quando doenças como hepatite e cirrose comprometem o órgão, essas substâncias podem atingir o cérebro e provocar alterações neurológicas. O quadro é conhecido como encefalopatia hepática. Nos casos mais graves, pode haver confusão mental, dificuldade de raciocínio e evolução para coma.
“É uma complicação relativamente comum da cirrose. Estudos mostram que a incidência aumenta conforme a doença hepática progride, podendo atingir até cerca de 40% dos pacientes com cirrose descompensada ao longo da evolução do problema de saúde”, destaca Natália Trevizoli, hepatologista do Hospital Sírio-Libanês de Brasília.
Principais causas da encefalopatia hepática
A encefalopatia hepática é uma complicação que pode surgir em pessoas com doenças hepáticas crônicas, como hepatite (inflamação no fígado) e cirrose, condição que leva à formação de cicatrizes permanentes e compromete o funcionamento do órgão. Também pode aparecer em casos de insuficiência hepática aguda, quando há uma perda rápida da função do fígado, que pode ocorrer em poucos dias ou semanas.
Nessas situações, o fígado deixa de conseguir eliminar adequadamente substâncias tóxicas do sangue. Esse acúmulo pode afetar o cérebro e provocar alterações neurológicas e comportamentais.
Além da doença hepática, fatores como infecções, sangramentos digestivos, constipação intestinal, desidratação, consumo de álcool e uso de determinados medicamentos podem desencadear ou agravar o quadro.
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Sintomas da encefalopatia hepática
No início, a encefalopatia hepática costuma se manifestar de forma sutil, com sinais que podem passar despercebidos ou ser atribuídos a outras condições de saúde.
“Os sintomas da encefalopatia hepática podem ser confundidos com doenças psiquiátricas e neurológicas, como depressão, psicose, transtorno bipolar, Alzheimer e até AVC. Isso porque o paciente pode apresentar confusão mental, alterações de comportamento, esquecimentos, fala desconexa e mudanças cognitivas importantes”, explica Elisa de Paula França Resende, neurologista e professora da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).
Podem surgir também irritabilidade, dificuldades para executar tarefas simples e piora da coordenação motora. Com a progressão do quadro, há desorientação, sonolência intensa e tremor involuntário característico das mãos. Nos casos mais graves, a condição pode evoluir para o coma, principalmente quando não há diagnóstico e tratamento adequados.
Como é feito o diagnóstico e o tratamento
O diagnóstico da encefalopatia hepática leva em conta o histórico de doença no fígado, os sintomas apresentados pelo paciente, exames laboratoriais (como sangue) e resposta ao tratamento.
“A avaliação neurológica é importante, principalmente quando há necessidade de diferenciar a encefalopatia hepática de outras doenças. Em alguns casos, mesmo após o tratamento, o paciente não apresenta melhora. Nessa situação, o neurologista investiga outras possibilidades que estão causando as alterações neurológicas”, destaca Resende.
Na maioria dos casos, o tratamento consegue controlar os sintomas e reduzir significativamente o risco de recorrência, principalmente quando os fatores desencadeantes são identificados e corrigidos. Paralelamente, utiliza-se medicação para reduzir a produção e a absorção de amônia no intestino, que em alta concentração no sangue pode levar à disfunção cerebral.
“O acompanhamento deve ser contínuo, porque a encefalopatia hepática tende a ocorrer outras vezes. Além do seguimento médico regular, é fundamental monitorar a adesão ao tratamento, estado nutricional, massa muscular e possíveis alterações cognitivas”, complementa a hepatologista.
Em casos mais avançados de doença hepática, quando o órgão perde a maior parte da função, pode ser necessário avaliar alternativas como o transplante de fígado.
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É possível prevenir?
Sim. A prevenção da encefalopatia hepática é uma das estratégias mais importantes no cuidado de pessoas com cirrose e envolve medidas que mantêm o fígado estável e reduzem fatores de descompensação. Entre elas, estão:
- controlar adequadamente a cirrose e manter acompanhamento regular;
- evitar o consumo de álcool;
- tratar precocemente infecções e outras complicações;
- realizar exames regulares para monitorar a saúde do fígado;
- prevenir situações que podem descompensar o quadro, como desidratação, constipação intestinal e uso de sedativos sem orientação médica;
- manter alimentação adequada, com ingestão suficiente de proteínas e preservação da massa muscular.
“Além disso, familiares e cuidadores devem ser orientados a reconhecer sinais iniciais de alteração mental ou comportamental, o que permite procurar atendimento precoce e evitar a progressão da condição”, finaliza Trevizoli.




