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Pediatria

Pesquisa aponta desinformação e insegurança dos pais sobre a vacinação de prematuros

Bebês prematuros podem e devem receber as vacinas no tempo adequado. Mesmo assim, muitos pais ainda ficam apreensivos com a aplicação e com possíveis reações adversas

Os bebês prematuros — aqueles que nascem antes das 37 semanas de gestação — costumam ter o sistema imunológico mais frágil e, muitas vezes, passam por longos períodos de internação e outras complicações de saúde. Por isso, é comum que muitos pais temam a vacinação, além de enfrentarem dificuldades como a falta de orientação adequada.

A pesquisa Proteção aos Prematuros no Brasil, realizada pelo Datafolha a pedido da farmacêutica Sanofi, apontou que 65% dos pais consideram a vacinação uma experiência de estresse moderado a intenso. Quase metade relata medo de reações adversas, 24% sentem ansiedade ou nervosismo e 11% chegam a sentir culpa por acreditar que o bebê está sofrendo. 

O levantamento ouviu 200 pais e mães de crianças entre 0 e 5 anos que nasceram prematuras de todas as regiões do Brasil. 70% dos participantes eram mulheres, 43% tiveram o parto pelo SUS e 92% dos bebês passaram por internação em UTI neonatal – enfrentando, muitas vezes, baixo peso, dificuldades respiratórias e risco de vida. 

“Os pais de prematuros carregam uma memória de fragilidade intensa. Quando chega o momento da vacinação, muitos revivem aquele período crítico. Mas é justamente por terem maior risco de infecções graves que os prematuros precisam ser vacinados no tempo certo e com as recomendações específicas”, afirma Daniel Jarovsky, infectologista pediátrico. 

Os dados da pesquisa foram apresentados no evento Conhecer para Proteger, promovido pela Sanofi em parceria com a ONG Prematuridade.com, em São Paulo (SP). 

Veja também: Bebês prematuros podem tomar vacina? Veja o que dizem os especialistas

 

Percepções equivocadas e atrasos na vacinação

De acordo com a pesquisa, um em cada quatro pais prefere adiar a imunização até que o bebê “fique mais forte”, embora as evidências indiquem que a proteção precoce é fundamental. Mais de um terço (36%) acredita que prematuros seguem o calendário de bebês nascidos a termo, quando, na verdade, eles têm um calendário vacinal com cuidados específicos, com recomendações relacionadas à idade gestacional e peso.

Para acessar o Calendário de Vacinação do Prematuro da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBim), clique aqui

Outro ponto crítico mostrado no levantamento é que a maioria dos pais (75%) encontra obstáculos para vacinar os filhos, como falta de vacinas, filas longas, horários de atendimento restritos e falta de orientação adequada, problemas que também contribuem para os atrasos vacinais. 

 

Falta de informação e orientação adequada

Embora 70% dos pais digam ter recebido informações claras sobre o calendário de vacinas, 24% acharam as informações confusas ou, pior, não receberam nenhum tipo de orientação. Além disso, 43% ouviram informações contraditórias sobre vacinação de prematuros — originadas principalmente na família, redes sociais e, em alguns casos, profissionais de saúde. 28%, inclusive, relataram ter visto um profissional demonstrar insegurança diante da vacinação de um bebê prematuro.

“Os bebês prematuros têm necessidades de saúde específicas e urgentes, e isso inclui a imunização no tempo correto e com as recomendações adequadas. Quando quase metade das famílias relata ter recebido orientações contraditórias, fica evidente a necessidade de protocolos unificados e qualificação permanente dos profissionais. É papel de toda a rede garantir que nenhum bebê tenha sua proteção atrasada por falta de informação”, reforça Denise Suguitani, diretora-executiva da ONG Prematuridade.com.

Somente 39% dos participantes da pesquisa afirmaram conhecer os Centros de Referência para Imunobiológicos Especiais (CRIEs), serviço do SUS voltado ao atendimento de grupos vulneráveis, como é o caso dos prematuros. 31% apenas ouviram falar e 30% desconhecem totalmente o serviço. Porém, entre os que conhecem, 85% disseram que seus filhos foram vacinados ou orientados no local. 

“Nós temos 53 CRIE no Brasil, pelo menos um em cada estado. São Paulo tem nove. Na região Norte, é um por estado. Eu moro no interior do Amazonas, não tenho acesso ao CRIE. O que eu faço? Vou ter que encaminhar o prematuro para ir até Manaus? Não. A ideia é que o paciente chegue na UBS — ou na regulamentação de saúde do município —, passe com um pedido médico, a UBS acesse o CRIE, e o CRIE mande a vacina para a UBS. Quem se desloca é a vacina, não o paciente”, explicou o pediatra.

Veja também: Por que você nunca ouviu falar dos CRIE?

 

Os desafios de quem vive a prematuridade

Apesar dos desafios, 58% dos pais disseram se sentir aliviados por entender que estão protegendo seus filhos ao vaciná-los — sentimento que precisa ser reforçado. “Informação clara, transmitida com empatia e consistência, transforma a vacinação em uma etapa de confiança, não de temor”, afirma Denise.

Adriana Rampazzo, autora do livro “Mamãe de Piticos”, deu à luz os gêmeos Diogo e Lucas — hoje com 7 anos — com apenas 25 semanas de gestação. Eles nasceram com 608 g e 530 g, respectivamente. Ambos passaram mais de 100 dias na UTI Neonatal.

​​“Eu vivi a prematuridade em dezembro de 2018 e a gente não tinha tanta informação. Eu procurava em estudos científicos, como boa formação que eu tenho na área de saúde, mas nada prepara a gente para viver a prematuridade. Nada prepara a gente para ver eles tão pequenos dentro da incubadora. Eu falava: eles vierem nesse mundo pra serem felizes. Ver eles brincando, estando em um ambiente que eu nunca imaginei enquanto eles estavam na UTI, hoje pra mim é uma grande felicidade”, contou.

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