Fatores como tabagismo e álcool elevam o risco do câncer de hipofaringe, que pode afetar a fala, a alimentação e a respiração.
A hipofaringe é uma estrutura essencial do sistema respiratório e digestivo, responsável por direcionar o ar para os pulmões e os alimentos para o esôfago, evitando que partículas entrem na via aérea. No entanto, essa região pode ser acometida por doenças graves, como o câncer de hipofaringe, um dos tipos mais desafiadores de tumores de cabeça e pescoço.
Por estar localizado em uma área de difícil acesso, o diagnóstico costuma ser tardio, o que impacta diretamente no prognóstico e nas opções de tratamento. Identificar sintomas precoces e buscar acompanhamento médico especializado são passos fundamentais para aumentar as chances de sucesso no tratamento.
O que é faringe e a função da hipofaringe no organismo?
De acordo com o dr. Cleydson Santos, oncologista clínico e coordenador do serviço de oncologia do Hospital Mater Dei Salvador, a faringe desempenha papéis fundamentais: “Ela tem uma função na respiração, na passagem do ar da cavidade nasal para a laringe, traqueia e pulmão, e também tem uma função na alimentação, na passagem dos alimentos da boca para o esôfago”.
A faringe se divide em três partes principais:
- Nasofaringe: localizada na parte posterior ao nariz, responsável pela respiração e na conexão do sistema respiratório e auditivo;
- Orofaringe: posicionada na parte posterior da boca, responsável pela passagem de ar e de alimento;
- Hipofaringe: situada na região inferior da faringe, responsável pela ligação com o esôfago e a laringe.
A hipofaringe atua como um canal de passagem para o ar e os alimentos, garantindo que cada um siga o caminho correto. Ela faz parte dos sistemas digestório e respiratório, auxiliando na deglutição e na respiração.
Durante a alimentação, a hipofaringe conduz os alimentos e líquidos da boca para o esôfago, impedindo que sejam aspirados para a laringe e os pulmões. Esse processo ocorre em sincronia com a epiglote, uma estrutura cartilaginosa que se fecha sobre a laringe no momento da deglutição, evitando engasgos.
No sistema respiratório, ela permite a passagem do ar vindo do nariz e da boca para a laringe e, em seguida, para os pulmões. Além disso, a hipofaringe tem um papel secundário na fonação, pois influencia a produção da voz ao interagir com a laringe e as cordas vocais.
Por estar situada no cruzamento das vias respiratória e digestiva, a hipofaringe pode ser afetada por doenças que impactam funções vitais como engolir, respirar e falar, tornando essencial a atenção a sintomas como dificuldade para engolir, rouquidão persistente e sensação de obstrução na garganta.
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Fatores de risco para o câncer de hipofaringe
Assim como acontece em outras regiões do corpo, a hipofaringe pode ser acometida por tumores benignos ou malignos, mas o câncer de hipofaringe está frequentemente associado ao excesso de peso e também ao abuso de bebidas alcoólicas.
“Os tumores malignos são principalmente causados pelos mesmos fatores de risco dos cânceres de cabeça e pescoço em geral, que incluem o tabagismo e o etilismo”, destaca o dr. Cleydson. Exposição ocupacional a derivados de petróleo, plásticos, produtos da indústria têxtil e amianto também podem aumentar o risco.
A infecção pelo vírus papilomavírus humano (HPV) é outro fator de risco. “Embora o HPV seja mais associado ao câncer da orofaringe, há relatos de casos também na hipofaringe”, explica o oncologista.
Principais sintomas do câncer de hipofaringe
Os sintomas do câncer de hipofaringe podem variar de acordo com o estágio da doença, mas muitas vezes a condição se desenvolve de forma silenciosa, dificultando o diagnóstico precoce, já que pode ser facilmente confundida com outras condições menos graves.
No entanto, alguns sinais devem servir de alerta para a busca de avaliação médica, especialmente se forem persistentes. Entre os principais estão:
- Dificuldade para engolir;
- Engasgos frequentes;
- Rouquidão persistente;
- Tosse recorrente;
- Sensação de corpo estranho na garganta;
- Presença de linfonodos aumentados (popularmente conhecidos como “ínguas” no pescoço);
- Perda de peso inexplicada.
“Se o tumor crescer muito, pode invadir a laringe, obstruir a via respiratória e causar dificuldade para respirar”, alerta o dr. Cleydson. Em estágios mais avançados, o câncer pode metastatizar para os pulmões e outros órgãos.
Caso qualquer um desses sintomas se prolongue por mais de duas semanas, especialmente em pessoas que fumam ou que fazem consumo excessivo de álcool, é essencial buscar um otorrinolaringologista ou um cirurgião de cabeça e pescoço para investigação.
Como o diagnóstico é realizado?
O diagnóstico precoce é desafiador devido à dificuldade de acesso a serviços de saúde. O especialista explica que caso a doença seja detectada precocemente, é possível realizar tratamentos menos agressivos e com menor risco de sequelas, mas em casos avançados, o paciente pode necessitar de procedimentos invasivos, como gastrostomia para alimentação e traqueostomia para respiração.
O exame inicial mais utilizado é a videonasolaringoscopia, que permite a visualização direta da região e a realização de biópsia, se necessário.
Após a confirmação do diagnóstico, exames complementares ajudam a determinar a extensão da doença, incluindo pet-scan ou tomografias de pescoço, tórax e abdome. O câncer de hipofaringe pode ser classificado entre os estágios 1 e 4, dependendo do tamanho do tumor e da presença de metástases.
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Tratamentos e impacto na qualidade de vida
O tratamento depende do estágio do câncer. Para casos iniciais, a cirurgia pode ser realizada por via aberta ou endoscópica para remover o tumor. Em casos mais avançados, pode ser necessário combinar radioterapia e quimioterapia para preservar a faringe e minimizar impactos na qualidade de vida.
“A decisão sobre o melhor tratamento é feita de forma multidisciplinar, envolvendo cirurgião de cabeça e pescoço, oncologista e radioterapeuta.” Pacientes com doença metastática podem necessitar de quimioterapia, imunoterapia ou outras terapias-alvo.
O suporte multidisciplinar também é essencial para minimizar sequelas e melhorar a qualidade de vida, incluindo acompanhamento com nutricionista, fonoaudiólogo, psicólogo e médicos odontológicos.
Tem cura?
É possível que um paciente se cure da doença, especialmente quando diagnosticada em estágios iniciais. Por outro lado, o câncer de hipofaringe é uma das formas mais agressivas de câncer de cabeça e pescoço, e o fato de ser, em geral, detectado tardiamente, dificulta o tratamento e as chances de cura.
Por isso, quanto mais cedo for identificado, maiores são as possibilidades de um tratamento bem-sucedido e com menor impacto na qualidade de vida.
É possível prevenir o câncer de hipofaringe?
Embora não seja possível evitar totalmente o desenvolvimento da doença, algumas medidas ajudam a reduzir significativamente os riscos. Algumas dicas incluem:
- Evitar o tabagismo: o uso de cigarros, charutos, narguilé e outros produtos à base de tabaco é o principal fator de risco. Parar de fumar reduz consideravelmente a probabilidade de desenvolver câncer de hipofaringe;
- Reduzir o consumo de álcool: o uso excessivo e prolongado de bebidas alcoólicas aumenta o risco da doença, principalmente quando associado ao tabagismo;
- Manter uma alimentação equilibrada: dietas ricas em frutas, verduras e fibras ajudam a fortalecer o sistema imunológico e prevenir alterações celulares malignas;
- Proteger-se contra o HPV: a vacinação contra o HPV e o uso de preservativos em relações sexuais podem ajudar a reduzir o risco de desenvolver a doença;
- Evitar exposição a substâncias químicas nocivas: trabalhadores que lidam com produtos tóxicos, como solventes, metais pesados e amianto, devem utilizar equipamentos de proteção adequados;
- Tratar o refluxo gastroesofágico: o refluxo ácido crônico pode causar irritação na mucosa da hipofaringe e aumentar o risco de desenvolvimento de tumores na região.
Além dessas medidas, é essencial realizar consultas médicas regulares, principalmente para pessoas que apresentam fatores de risco para desenvolvimento de doenças como o câncer.
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