O que é cetamina e quais seus riscos e indicações?

A cetamina é um anestésico que, se utilizado fora do ambiente hospitalar e sem supervisão médica, pode causar depressão respiratória e até matar. Leia na coluna de Mariana Varella.

vidro de cetamina com seringa ao lado, ambos sobre papel toalha branco

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Publicado em: 14/06/2024

Revisado em: 14/06/2024

A cetamina é um anestésico que, se utilizado fora do ambiente hospitalar e sem supervisão médica, pode causar depressão respiratória e até matar. Leia na coluna de Mariana Varella.

 

Notícias de pessoas que passaram mal ou morreram após usar cetamina, também conhecida como ketamina ou quetamina, têm surgido com cada vez mais frequência em vários países, incluindo o Brasil, e gerado confusão entre quem desconhece a droga.

As pessoas ficam ainda mais surpresas quando pesquisam o termo e descobrem que a cetamina é utilizada como anestésico e, eventualmente, para tratar determinados casos de depressão.

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A cetamina é usada, em especial em associação a outras drogas, para sedação e analgesia em procedimentos cirúrgicos e diagnósticos em adultos e crianças e também em animais, pela medicina veterinária.

Contudo, são os relatos de uso social, não terapêutico, que chamam a atenção e preocupam profissionais de saúde. Apesar de a venda da cetamina ser permitida apenas para clínicas e hospitais, incluindo os veterinários, não é difícil ter acesso à droga pela internet e nas festas pelo país.

“É muito frequente ver gente cheirando key [um dos nomes pelos quais a droga é conhecida] na balada”, relata Fernanda,* paulista de 29 anos. “O pior é que a galera enche a cara junto.”

 

Uso como anestésico x Uso social da cetamina

O cloridrato de cetamina foi sintetizado em 1962 por Calvin Lee Stevens, professor de química orgânica da Wayne State University, nos Estados Unidos. Dois anos depois, passou a ser utilizado como sedativo e anestésico, por ser considerado seguro e de ação rápida.

Contudo, com os avanços na área da anestesia e o surgimento de novas drogas, atualmente muitos anestesistas preferem utilizar medicamentos mais modernos e que causam menos efeitos adversos.

Considerada um anestésico dissociativo por provocar alterações na consciência, na memória, na percepção do ambiente, entre outros efeitos, a cetamina começou a ser usada para fins sociais nos Estados Unidos a partir dos anos 1970.

Nos anos 1990, ganhou espaço nas raves e clubes noturnos do Reino Unido, até se tornar mais popular também em outros países, a partir dos anos 2000.

Todavia, se é verdade que a droga é segura para uso médico controlado, o risco de utilizar cetamina fora do ambiente hospitalar é alto.

Esse uso, em geral em forma de pó advindo do medicamento veterinário, além de ilegal, é totalmente desaconselhado porque a cetamina, quando usada sem supervisão médica, pode provocar aumento da pressão arterial, alterações cardíacas, depressão respiratória e morte. Também pode gerar dependência química e induzir quadros psicóticos em quem tem predisposição.

“O uso recreativo prolongado pode provocar quadros psicóticos semelhantes aos da esquizofrenia“, afirma o dr. José Gallucci Neto, médico assistente do Serviço de Psiquiatria Intervencionista do Instituto de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (IPq-FMUSP) e diretor do Serviço de Eletroconvulsoterapia da mesma instituição.

 

Uso psiquiátrico da cetamina

Em 2019, o FDA, órgão semelhante à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e que regula os medicamentos nos Estados Unidos,  aprovou o uso da cetamina para tratar depressão resistente. Desde então, a droga vem sendo usada para o tratamento de quadros de depressão refratária em vários países.

Em 2020, a Anvisa autorizou o cloridrato de escetamina, substância derivada da cetamina, para esse uso no Brasil. A droga é vendida em forma de spray e só deve ser aplicada em ambiente hospitalar ou em clínicas autorizadas, em geral em uma ou duas sessões por semana, durante um tempo limitado de poucas semanas, com doses muito mais baixas que as usadas em procedimentos anestésicos.

A depressão refratária, conhecida também como resistente ou depressão maior, é um tipo de transtorno pouco falado ou conhecido, mas que traz bastante sofrimento aos pacientes. De forma geral, pode ser definida como a depressão que não melhora, mesmo após o uso de alguns medicamentos convencionais prescritos pelos médicos.

“Em ambiente controlado, hospitalar, preferencialmente, com suporte para intercorrências, o uso para tratar depressão refratária é relativamente seguro, ainda que os estudos a respeito sejam de curto e médio prazo”, afirma o dr. Gallucci.

Ainda são necessários estudos de longo prazo porque a droga começou a ser usada pela psiquiatria há alguns anos, apenas. O receio de alguns especialistas é que, com o tempo de uso, a cetamina possa ser menos eficaz, e o paciente precise de doses mais elevadas da droga, o que tornaria o uso pouco seguro.

“A cetamina não é a primeira opção para tratar depressão. Ela vem sendo utilizada, com bons resultados, para tratar apenas casos de depressão refratária que não respondem ao tratamento de dois ou mais antidepressivos e que apresentem risco iminente de suicídio”, explica o dr. Gallucci.

Nos Estados Unidos, nos últimos anos, surgiram inúmeras clínicas que oferecem sessões com cetamina. Criticadas por muitos especialistas, esses locais em geral são pouco ou nada rigorosos ao selecionar seus pacientes. Há pouco controle, também, dos protocolos aplicados nesses centros.

No Brasil, são poucos os centros médicos que têm autorização para aplicar sessões de cetamina em pacientes psiquiátricos, e apenas naqueles com depressão refratária.

 

*O nome foi trocado a pedido da entrevistada

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