Segundo pesquisa, consumo de Ritalina no Brasil aumentou 775% entre 2003 e 2012. Medicamento é usado principalmente para melhora da concentração.

 

Pesquisa divulgada recentemente pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ) mostra um aumento de quase 800% no consumo de metilfenidato, conhecido comercialmente como Ritalina, de 2003 a 2012. O levantamento foi feito pela psicóloga Denise Barros, que estudou o consumo do remédio no país em sua tese de doutorado.

O fármaco é receitado para casos de transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH). Alguns médicos psiquiatras dizem que esse aumento é consequência do maior número de diagnósticos de pessoas com o distúrbio. Outros especialistas, por sua vez, afirmam que muitos casos são identificados erradamente como TDAH. Sem contar as pessoas que utilizam a droga para melhorar seu rendimento em provas de residência médica, de faculdade, ensino médio, concursos públicos ou, então, para obter melhor desempenho no trabalho.

 

Método do levantamento

 

Primeiramente, para chegar a esse número elevado, a pesquisadora reuniu e somou os dados da Junta Internacional de Controle de Narcóticos, órgão ligado à Organização das Nações Unidas (ONU) – anualmente, os países signatários da organização se comprometem a enviar dados relativos ao consumo de psicotrópicos de uso controlado. Ela utilizou os números de importação, produção e do estoque acumulado para obter um provável índice de consumo. Resultado: os 94kg da droga consumidos em 2003 saltaram para 823kg em 2012, um aumento de 775%. “Entrevistei 16 pessoas. A maioria foi diagnosticada com o transtorno, mas elas só usavam o medicamento no período que desejavam passar numa prova. Aquelas que já haviam passado, paravam o tratamento. Elas entendiam que o transtorno não atrapalhava sua vida em geral, somente o rendimento nos estudos, pois elas não conseguiam se concentrar”, conta a psicóloga.

Caio da Silva*, estudante do segundo semestre de farmácia de uma universidade particular do Ceará, revela que na infância recebeu o diagnóstico de TDAH. Ele relata que tomou Ritalina por um certo período, mas depois interrompeu o tratamento, por achar que o medicamento já não fazia muita diferença na vida dele. Agora, por conta do excesso de matérias para estudar e das provas, voltou a tomar o medicamento, a fim de conseguir se concentrar melhor. “Em época de prova, chego a tomar até quatro comprimidos de 10 mg por dia. Sinto que fico mais ligado e consigo passar horas e horas estudando, sem me desconcentrar, e não sinto sono. Sem a Ritalina, eu conseguia ficar no máximo 2 horas seguidas [estudando], não rendia de jeito nenhum. Sinto uma boa melhora. Mas só tomo em época de prova”, diz ele, que consegue o medicamento facilmente na farmácia de sua cidade, Viçosa do Ceará, por cerca de R$ 20 a caixa.

 

Estudos sobre Ritalina e melhora da concentração ainda são controversos

 

A psicóloga Denise Barros explica que é difícil afirmar se a Ritalina realmente melhora o rendimento escolar e a concentração. Os estudos são controversos. Como o metilfenidato é um psicotrópico, não é fácil, por exemplo, prever suas reações adversas, portanto os estudos teriam que ser feitos com um número maior de participantes. “Das 16 pessoas que estudei, uma diz que percebe melhora da atenção, do rendimento. Mas não temos como saber se essa melhora é real ou sugestiva. A pessoa sente uma melhora, aí vai e conta para outra pessoa, que, com ou sem o diagnóstico de TDAH,  já toma o remédio sugestionada a melhorar. Isso faz com que aumente muito a divulgação de que o remédio melhora o rendimento”, comenta Barros.

O desenvolvedor de software Mathias Perez* conta que recorreu ao medicamento inúmeras vezes quando trabalhava numa empresa de tecnologia nos Estados Unidos. Segundo ele, os prazos para entrega dos projetos eram extremamente rígidos, o que resultava em horas e horas de trabalho. Essa era uma prática relativamente frequente dentro daquele ambiente, constituído na sua maioria por jovens recém-formados e que já utilizavam o medicamento desde a época da faculdade.

“Havia uma pressão muito grande, pois essas empresas são extremamente competitivas. Então, lá nos Estados Unidos eu utilizava o medicamento e realmente ajudava muito. Eu conseguia varar a noite trabalhando com facilidade. Não sentia sono, eu ficava ligado e o trabalho rendia. Mas percebi uma coisa: se, por exemplo, eu saia para jogar um pouco de videogame, esse virava meu foco e eu passava horas e horas jogando. Então, eu tinha que me controlar”, relata. Depois que retornou ao Brasil, ele conta que acabou largando a medicação. “Mas não foi fácil, não. O corpo acostuma ao medicamento”, comenta Perez.

Em relação aos efeitos colaterais, ele revela: “Depois de uns 3 dias seguidos tomando o medicamento, eu sentia uns tremores nas mãos e o coração ficava um pouco acelerado”. Perez afirma que não tem conhecimento de que o uso do medicamento seja algo comum nas empresas de tecnologia da informação aqui do Brasil.

Embora para se conseguir o medicamento seja necessário prescrição médica com a utilização da receita amarela, específica para psicotrópicos, não é difícil conseguir o medicamento pela internet, por comércio ilegal ou com médicos que receitam indiscriminadamente.

 

* A pedido dos entrevistados, os nomes foram alterados.