Psiquiatria

Jogos Olímpicos chamam atenção para saúde mental dos atletas

Após desistência do maior nome da ginástica nos Jogos da Olimpíada de Tóquio 2020, comunidade esportiva deve olhar com mais cuidado para a saúde mental dos competidores. 

Após desistência do maior nome da ginástica nos Jogos da Olimpíada de Tóquio 2020, comunidade esportiva deve olhar com mais cuidado para a saúde mental dos competidores. 

 

O símbolo de uma cabra está marcado no collant de Simone Biles para lembrá-la de que ela é a “melhor de todos os tempos” (Greatest of All Time ou apenas G.O.A.T, que significa “cabra” em inglês). No entanto, nos Jogos Olímpicos de Tóquio 2020, a principal ginasta dos Estados Unidos desistiu de concorrer à final individual geral e à final por equipes da ginástica artística para cuidar da saúde mental. “No fim, somos pessoas e, em alguns momentos, você simplesmente tem que dar um passo atrás”, justificou.

Naomi Osaka, a segunda melhor tenista do mundo e a responsável por acender a pira olímpica, também resolveu deixar duas das competições mais importantes da modalidade: Roland Garros e Wimbledon. Conflitos frequentes com a imprensa e crises de depressão que a acometem desde 2018 motivaram a desistência.

O impacto da pressão por resultados na vida de atletas de alto rendimento não é novidade. Mas a postura convicta de Biles, Naomi e vários outros esportistas durante os últimos Jogos Olímpicos parece ter lançado nova perspectiva sobre a saúde mental dos atletas.

 

O esporte como trabalho

“Ser atleta é uma profissão. Falar de saúde mental no esporte é a mesma coisa que falar da saúde do trabalhador. Da mesma forma que o funcionário de uma carvoaria necessita de equipamentos de segurança, o atleta precisa de uma equipe multiprofissional para dar conta de tudo que é exigido dele, física e psicologicamente”, aponta Luciana Angelo, psicóloga e coordenadora do curso de especialização em Psicologia do Esporte do Instituto Sedes Sapientiae (Sedes-SP).

Ainda assim, a profissão de um atleta tem algumas peculiaridades. De forma geral, a carreira se encerra entre 35 e 40 anos. O tempo que eles têm no ápice de seu rendimento é curto e precisa ser muito bem aproveitado – isso quer dizer treinos frequentes e pouquíssimo espaço para experiências fora do esporte.

“Na adolescência, enquanto estamos na escola, em festas ou em viagens, eles estão na quadra, treinando. Durante as competições, ficam sem ver a família e passam datas comemorativas longe dos pais. É uma vida bastante regrada”, conta Luciana.

Por isso, se não tiverem uma rede de apoio e um acompanhamento psicológico adequado, os atletas podem desenvolver vários tipos de problemas, como depressão, irritabilidade, compulsão alimentar, hiperatividade, entre outros.

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Desequilíbrio emocional pode causar queda no rendimento

“É interessante como algumas coisas que parecem banais influenciam muito no aproveitamento do atleta. Se ele muda de estado para jogar, por exemplo, a nova rotina alimentar não pode cortar pratos típicos de onde ele veio. O psicólogo e o nutricionista têm que avaliar juntos uma forma de montar o cardápio sem cortar completamente esse repertório afetivo”, explica a especialista.

As diferenças culturais, a saudade da família e até questões mais graves, como o falecimento de um parente, impactam diretamente no psicológico dos atletas. Na pandemia, a incerteza, o luto coletivo e as alterações no cronograma de treinos por conta das mudanças no ciclo olímpico também tiveram um grande peso para os competidores.

Segundo Luciana, é comum que, nessas fases, o desempenho diminua, já que o corpo tem uma relação muito intensa com o lado emocional. “Quando o atleta não está bem, a tendência é que o rendimento caia”, pontua.

 

Como a saúde mental dos atletas é trabalhada?

É aí que entra o psicólogo do esporte, que trabalha em conjunto com a equipe técnica desde as categorias de base. O maior esforço se concentra nos períodos de pré-temporada. A Olimpíada, isto é, os quatro anos que normalmente antecedem as disputas, são de desenvolvimento emocional intenso.

“Nós trabalhamos questões relacionadas à atenção, concentração, relações interpessoais e até situações familiares que podem interferir na dinâmica do atleta, como uma separação”, comenta a psicóloga. 

Outro aspecto aprimorado pela equipe multidisciplinar é a do desempenho esportivo, ou seja, como o atleta pode realizar os movimentos da melhor forma possível. No tiro com arco, por exemplo, Luciana explica que uma das estratégias é a de estimulação visual, em que o atleta precisa estar mentalmente cada vez mais próximo do centro do alvo, ponto a ser considerado como o mais importante dentro do campo de visão.

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Redes sociais: ajudam ou atrapalham?

Na hora da competição, o apoio da torcida é um incentivo importante para a superação dos desafios físicos e psicológicos que se apresentam. Porém, em uma edição sem público por causa da pandemia de covid-19, os Jogos Olímpicos viram muitas de suas estrelas utilizarem as redes sociais para se aproximarem dos torcedores. No Brasil, o jogador de vôlei Douglas Souza e a skatista Rayssa Leal estiveram muito presentes no universo online do início ao fim da disputa.

Pouco antes do início da competição, o Comitê Olímpico do Brasil (COB) expressou preocupação com o uso das redes sociais pelos atletas em Tóquio, já que, segundo a instituição, a internet pode ser um “um ambiente ainda mais intenso de opiniões e fértil para discussões”.

Na visão de Luciana, é nesse momento que o atleta precisa utilizar as estratégias de gerenciamento emocional que foram trabalhadas nos anos anteriores. 

“O competidor faz uma programação para que não seja invadido por situações inesperadas. No celular, ele precisa saber de quem quer receber mensagens e com quem quer falar. Controlar o tempo de navegação e o que escolher ler na internet influencia na qualidade do sono, no equilíbrio emocional e no próprio desempenho”, afirma.

 

No Brasil, o que está sendo feito pela saúde mental dos atletas?

Talvez pela presença maciça dos competidores olímpicos na internet, a atenção do mundo se voltou para a saúde mental dos esportistas. Logo após o término dos Jogos Olímpicos, o Aberto dos Estados Unidos (US Open), um dos quatro maiores eventos do tênis, anunciou que ofereceria uma equipe de psicólogos para os jogadores.

No Brasil, desde 2011, a Lei 9.615/98, conhecida como Lei Pelé, prevê a obrigatoriedade da oferta de assistência psicológica aos atletas por parte dos clubes formadores (aqueles que possuem a infraestrutura necessária para o desenvolvimento esportivo). 

Mas, na prática, o atendimento está concentrado no futebol, modalidade em que se baseou a lei que gere o esporte brasileiro. Ainda assim, 12 dos 20 clubes que disputaram a série A do Campeonato Brasileiro em 2020, bem como a própria Seleção Masculina de Futebol, não possuem esse serviço à disposição dos jogadores. No caso dos demais esportes, Luciana avalia que a inclusão do acompanhamento psicológico está em crescimento.

“Há uma certa demora em assumir que o trabalho com a saúde mental é importante, mas esse processo vai se constituindo através da abertura da comissão técnica, da iniciativa das instituições e da demanda dos atletas”, pontua a especiliasta. 

Para a psicóloga, declarações como a de Simone Biles e Naomi Osaka são importantes para demonstrar que o atleta é, acima de tudo, uma pessoa. 

“A gente precisa acabar com a ideia de que os profissionais do esporte são infalíveis. Eles pensam, sentem, vivem tudo isso na pele. São muito mais humanos do que a gente imagina”, diz.

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Sobre o autor: Beatriz Zolin

Beatriz Zolin é estudante de Jornalismo e estagiária em Redação no Portal Drauzio Varella. Tem interesse pelas editorias de saúde, política, educação e comportamento.