Psiquiatria

Como saber se eu tenho claustrofobia?

A claustrofobia causa uma reação imediata e incapacitante em ambientes que sejam muito fechados. Saiba como identificá-la.

A claustrofobia causa uma reação imediata e incapacitante em ambientes que sejam muito fechados. Saiba como identificá-la.

 

Você provavelmente já deve ter visto alguém comentando que se sentiu “claustrofóbico” em um desses vídeos na internet em que aventureiros entram em espaços muito apertados, como cavernas ou grutas. Mas a claustrofobia é muito mais do que o incômodo causado por situações extremas de confinamento. Na prática, ela pode surgir em elevadores, teatros, aviões e até no transporte público. 

A claustrofobia é um tipo de transtorno situacional em que a ansiedade é a emoção predominante, tal qual a síndrome do pânico, o próprio transtorno de ansiedade generalizada ou as demais fobias, como a acrofobia (medo de altura) ou astrofobia (medo de tempestades). 

O que a difere dos outros medos patológicos é o gatilho para as crises: a origem está em ambientes fechados que a pessoa considere apertados demais, geralmente acompanhado da preocupação intensa e irreal de não conseguir ser ajudada. Muitas vezes, a claustrofobia é associada à agorafobia, mas esta tem a ver com o medo de situações que possam causar a sensação de desamparo, de não conseguir obter ajuda ou saída, seja em locais abertos ou fechados.

No cotidiano, ninguém gosta de se sentir confinado. Mas como saber se esse desconforto configura a claustrofobia?

 

Sinais da claustrofobia

“O principal sentimento de todas as fobias específicas é o medo. Internamente, é a sensação iminente de que algo ruim está para acontecer”, afirma o dr. Pedro Beria, psiquiatra e pesquisador do Programa de Transtornos de Ansiedade do Hospital das Clínicas de Porto Alegre (PROTAN). 

O medo é uma reação noradrenérgica que ativa o sistema responsável, entre outras funções,  pela vigilância e pelas respostas ao estresse. Uma vez estimulado, ele produz a noradrenalina que, por sua vez, prepara o organismo para lutar ou fugir. Em uma crise de claustrofobia, a pessoa pode sentir:

  • o coração acelerado;
  • falta de ar;
  • tremores;
  • sudorese intensa;
  • ondas de frio ou de calor pelo corpo;
  • vontade de ir ao banheiro;
  • sensação de que vai desmaiar;
  • zumbido no ouvido;
  • boca seca;
  • sensação de asfixia;
  • enjoo;
  • confusão mental;
  • entre outros sintomas.

A fim de evitar passar por mal-estares como esse, o paciente com claustrofobia costuma evitar frequentar os ambientes que provoquem gatilhos. “Se eu me sinto claustrofóbico em determinado local, eu não o visito. No entanto, na próxima exposição, os sintomas tendem a aumentar”, alerta o dr. Beria.

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Possíveis causas

Geralmente, a claustrofobia tem origem multifatorial. 

“O indivíduo pode ter um ataque de pânico em um lugar fechado e, a partir daí, ter estímulos condicionantes de ansiedade em ambientes semelhantes. Ou pode ter um episódio de mal-estar dentro de um elevador e ficar com medo de ter aquela sensação nas próximas vezes que entrar”, explica o psiquiatra.

Há ainda a predisposição biológica chamada de viés atencional para ameaças. Esse fenômeno psicológico faz com que determinadas pessoas prestem mais atenção a alguns elementos ao seu redor enquanto ignoram outros – daí a sensação irreal de perigo iminente.

O convívio com o transtorno na família, por exemplo, também pode ser uma das causas. Se uma mãe com claustrofobia sempre evitar entrar em elevadores, o filho pode aprender que esse local é perigoso e desenvolver o transtorno.

 

O que determina o diagnóstico?

Essa estratégia evitativa é justamente um dos fatores-chave para o diagnóstico. No caso das fobias específicas, o medo intenso, desproporcional e persistente sobre uma situação é o que determina se aquele sentimento é ou não patológico.

Uma pessoa é diagnosticada com claustrofobia quando a ansiedade provoca sofrimento significativo ou traz prejuízos para a sua vida. Muitas vezes, as situações traumáticas resultantes das crises fazem com que o paciente se afaste de amigos e familiares, o que pode levar à depressão e outros transtornos ansiosos. 

Dependendo do grau da claustrofobia, a pessoa faz trajetos mais longos para não ter que entrar no transporte público e até posterga a realização de exames de saúde importantes, como a ressonância magnética, em que é preciso deitar-se e permanecer dentro do aparelho por aproximadamente 30 minutos.

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A claustrofobia tem tratamento?

“Assim como qualquer outra fobia específica, o principal tratamento é a terapia cognitivo-comportamental. Ela é um subtipo da psicoterapia e desenvolve técnicas que diminuem os sintomas de ansiedade a partir de exposições graduais e planejadas aos estímulos fóbicos”, detalha o dr. Beria.

Ao longo das sessões, a pessoa com claustrofobia aprende estratégias comportamentais e de respiração que relaxam, bem como linhas de pensamento que mostram que as situações amedrontadoras são irracionais e têm pouca ou nenhuma chance de acontecer na vida real. Uma vez munido com essas técnicas, o paciente é exposto aos gatilhos da fobia – pouco a pouco, passa a pegar um avião, entrar no elevador ou fazer um exame de ressonância.

“Existe também evidência farmacológica para o tratamento, especialmente de antidepressivos que regulam a serotonina, como o escitalopram e a sertralina, e medicações bloqueadoras noradrenérgicas, como o propanolol”, elenca o psiquiatra. 

Na terapia de transtornos fóbicos, o objetivo é fazer com que os sintomas diminuam até sumirem. Mas, como destaca o dr. Beria, é um trabalho contínuo que depende em grande parte do paciente. “Ele precisa estar sempre vigilante para desempenhar as técnicas de relaxamento no momento do estímulo”, pontua.

 

Onde encontrar ajuda?

Se você acredita que sofre de claustrofobia, o recomendado é procurar a ajuda de um psicólogo ou psiquiatra. No SUS (Sistema Único de Saúde), eles estão presentes em hospitais públicos, postos de saúde, ambulatórios ou centros de atendimento especializado.

No dia a dia, algumas estratégias podem ajudar a amenizar a ansiedade, mas não devem nunca substituir o tratamento adequado. São elas:

  1. Frente à ameaça, respire profunda e lentamente, contando até 3 a cada respiração.
  2. Tente concentrar a sua visão em algo seguro e que o acalme, como os minutos passando no relógio.
  3. Repita internamente que aquele medo é irreal e logo irá passar.

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Sobre o autor: Beatriz Zolin

Beatriz Zolin é estudante de Jornalismo e estagiária em Redação no Portal Drauzio Varella. Tem interesse pelas editorias de saúde, política, educação e comportamento.