Outras Histórias #32 | Seu Malaquias

Quando Seu Malaquias finalmente conquistou a casa própria, não imaginava que a laje em reforma se tornaria ponto do tráfico na região.

Drauzio Varella

Drauzio Varella é médico cancerologista e escritor. Foi um dos pioneiros no tratamento da aids no Brasil. Entre seus livros de maior sucesso estão Estação Carandiru, Por um Fio e O Médico Doente.

Quando Seu Malaquias finalmente conquistou a casa própria, não imaginava que a laje em reforma se tornaria ponto do tráfico na região.

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Publicado em: 2 de outubro de 2021

Revisado em: 2 de outubro de 2021

Quando Seu Malaquias finalmente conquistou a casa própria, não imaginava que a laje em reforma se tornaria ponto do tráfico na região.

 

Quando Seu Malaquias foi para o Rio de Janeiro, passou a morar de aluguel com a esposa. Querendo deixar o lugar mais confortável possível, ele começou a fazer várias reformas na casa. Depois da dica de um vizinho, empenhou-se em comprá-la e finalmente conseguiu, oferecendo o melhor que podia para a mulher e a filha pequena.

Um dia, voltando do trabalho, ele estranhou a casa toda apagada. A laje, que tinha fácil acesso pela rua de cima, tinha virado trincheira para um grupo de rapazes carregando fuzis. Junto da família, Seu Malaquias passou aquela noite escondido no escuro. Mal sabiam eles que aquele seria apenas o primeiro dia da transformação da tão suada reforma em uma boca de drogas.

 

 

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Seu Malaquias veio da Paraíba com 15 anos para morar com uma tia no Morro da Mangueira, no Rio de Janeiro. Aos 19 anos ele casou com Rosirene e veio morar numa casinha térrea, alugada no Morro do Timbau, que fica na Favela da Maré — ainda no Rio de Janeiro.

Olá, eu sou Drauzio Varella, e aqui você vai ouvir outras histórias.

O imóvel não estava em bom estado, mas o aluguel era barato. Seu Malaquias é um homem trabalhador, casado com uma mulher também trabalhadora, prestimosa. Na medida das suas possibilidades ele começou a consertar o encanamento, as goteiras e melhorar a parte elétrica da casa.

Numa manhã, ao vê-lo derrubar uma parede para reconstruí-la, o vizinho ao lado não resistiu:

— Conterrâneo, desculpa pela interferência, eu não gosto que se metam na minha vida, nem eu na vida alheia, mas você está fazendo melhorias numa propriedade que não é sua em nome do quê? Aqui ninguém tem contrato de aluguel. Com a reforma, o proprietário vai querer aumentar o seu aluguel ou te põe na rua.

Seu Malaquias não era um homem de prosa com os vizinhos, mas o bom senso do outro acabou convencendo ele a interromper a reforma. Da conversa, ele decidiu fazer ao proprietário da casa uma proposta de compra do imóvel, que acabou aceita.

Aí ele disse:

— Fiquei feliz por realizar um sonho desde os tempos que eu vivia na Paraíba, mas muito mais por causa da Dona Rosirene — a mulher ficou nas nuvens, levantava da cama no meio da noite e ficava parada no meio do quarto imaginando a reforma que nós iríamos fazer.

Durante dois anos o casal trabalhou o máximo que pôde. Ele num mercado, ela como faxineira em Copacabana. Economizaram tudo que foi possível, até saldar a última prestação. Um ano depois, tiveram a filha única. Quando a menina nasceu, já encontrou uma casa bem melhor, com dois quartos novos no andar de cima, sala e cozinha no de baixo, reboque, pintura nas paredes internas e cerâmica vermelha caprichadamente assentada no chão.

Com o nascimento da filha, Dona Rosirene foi obrigada a reduzir suas atividades profissionais na Zona Sul. O marido redobrou, então, seus esforços. Saía do mercado às dez da noite, dormia três horas ou quatro horas e voltava pro serviço ainda no escuro. Ele dizia assim:

— Eu vivia com sono, cochilava até em pé no ônibus — porque no serviço não tinha condição de estar dormindo —, mas consegui segurar a barra da família sem deixar faltar nada.

Uma noite, ao voltar pra casa, quando entrou no beco, Seu Malaquias estranhou a luz de fora acesa e a de dentro apagada, ao contrário do habitual. Olhou ao redor e não viu nada , apenas ouviu algumas vozes que pareciam vir da rua de trás, que ficava num plano do terreno mais alto do que o seu.

Entrou com cautela, encontrou a mulher assustada no sofá da sala escura. Acendeu a luz. Ela mandou que ele apagasse depressa. Havia mais de duas horas que um grupo de rapazes tinha se entrincheirado em cima da laje da casa deles. Deviam estar em guerra com alguém, porque de vez em quando disparavam tiros que ecoavam pela casa.

Seu Malaquias juntou a mulher e a filha no andar térreo, deitados no chão, atrás de uma parede baixa que separava a cozinha da sala. O casal passou a noite ali, acordado, preocupado em acalmar a filha quando ela acordava assustada com matraqueadas das metralhadoras.

Quando deu quatro e meia da manhã, horário de sair pro trabalho, Seu Malaquias não teve coragem de deixar a família naquela situação. Aí ele diz:

— Pela primeira vez, eu faltei com a obrigação, em vinte anos de empregado.

As armas silenciaram quando o dia amanheceu. Depois de se certificar de que estava tudo calmo, ele acomodou a esposa e a menina na cama, saiu para o beco e tentou ver o que havia se passado na laje.

Lá em cima, apareceu um menino que podia ter 18 anos, no máximo, e apontou um fuzil na direção dele.

— Tá olhando o quê, tiozinho? Volta pra dentro.

— Não, eu queria saber o que tá acontecendo. Minha esposa e minha filha ficaram assustadas.

— Aconteceu alguma coisa com elas? Sumiu algum alfinete da sua casa? Não, né? Se sumir, fala com a gente, que nós chegamo pra ficar.

Como o terreno era inclinado e a rua de cima dava fácil acesso à laje de Seu Malaquias, do alto dela, os traficantes tinham uma visão estratégica do território inimigo, embaixo, e podiam se posicionar fora da linha de tiro deles.

Instalaram-se ali, na laje de Seu Malaquias, armados e transformaram o espaço numa boca de fumo que funcionava dia e noite. Ali, preparavam os papelotes de cocaína, pesavam maconha e atendiam os compradores a qualquer hora — do dia ou da noite.

Nos momentos de descontração, eles faziam churrasco e davam festas de aniversário, que se prolongavam pela madrugada. Exausto das noites mal dormidas, com medo de uma tragédia no meio dos tiroteios constantes, Seu Malaquias fez de tudo para vender a casa.

Esperança inútil. Os interessados viravam as costas no instante em que percebiam os bandidos na laje. O que fazer? Abandonar tudo e levar a família pra onde? Aí ele dizia:

— O pior nessas horas, doutor, é o que passa na cabeça do ser humano. Além do medo de uma bala perdida, o senhor pensa “e se a polícia chegar? Os bandidos vão achar que fui eu que chamei e vão querer matar minha família”; “e se a polícia pensar que eu estou dando proteção pra vagabundo e me prender como traficante? Eu, pobre, sem direito a advogado.”

Os traficantes passaram um ano lá. Um dia, sem avisar, sumiram do local. O inferno da família chegava ao fim. Assim que se convenceu da saída do bando, Seu Malaquias não vacilou:

— Comecei imediatamente a construir mais um andar na casa.

Agora a laje tá bem alta. Não dá mais acesso pela rua de cima.

 

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