Outras Histórias #34 | Maré: A Laje

A laje é uma instituição nas periferias das cidades brasileiras. Nas casas da Maré, a laje é um elemento importante para a ascensão espacial das famílias.

Drauzio Varella

Drauzio Varella é médico cancerologista e escritor. Foi um dos pioneiros no tratamento da aids no Brasil. Entre seus livros de maior sucesso estão Estação Carandiru, Por um Fio e O Médico Doente.

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Publicado em: 12 de outubro de 2021

Revisado em: 15 de outubro de 2021

A laje é uma instituição nas periferias das cidades brasileiras. Nas casas da Maré, a laje é um elemento importante para a ascensão espacial das famílias.

 

 

 

Em suas andanças pela Maré, dr. Drauzio teve contato com a realidade da região e, em especial, com o funcionamento das conhecidas lajes. Construídas para aguentar os andares que virão quando a condição financeira da família permitir, a construção da laje é, por si só, um evento.

Reúnem-se os moradores e os vizinhos em um esforço conjunto para subir os materiais e montar a estrutura. A obra, que geralmente acontece de final de semana, acaba em feijoada preparada pelas mulheres da rua e muita cerveja. Mais tarde, se não virar quarto, a laje dá espaço a festas e até “praias” para quem quer pegar um bronzeado.

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Olá. No primeiro dos quatro programas deste mês que nós vamos falar sobre a Favela da Maré, no Rio de Janeiro, falei de um trabalho que eu fiz anos atrás, com o coreógrafo Ivaldo Bertazzo, que criou um grupo de dança da Maré, ali com meninos e meninas adolescentes — que depois fizeram um espetáculo maravilhoso —, e o Ivaldo me convidou para escrever o texto.

Isto me levou à Favela da Maré, conheci esses meninos e meninas bailarinos, crianças da comunidade, e andei muito pela favela. O resultado desta experiência que eu estou trazendo aqui, nessa série de podcasts; este é o segundo sobre a Favela da Maré.

Olá. Eu sou Dráuzio Varella e aqui você vai ouvir outras histórias.

Eu falei no anterior que as casas têm uma laje, que eles constroem a laje de um jeito forte, pra aguentar os andares que virão lá pra cima, de acordo com as necessidades e com a disponibilidade financeira.

Esse texto que eu escrevi depois diz assim:

“Quem pensa em ir às favelas ou à periferia das cidades brasileiras atrás daquelas casinhas tradicionais, com telhado de duas águas e calhas metálicas pra escoar a chuva, fica decepcionado. Até onde a vista alcança, só vai encontrar lajes na cobertura. A laje é uma instituição nas casas pobres das cidades brasileiras.

Nos finais de semana, espalhados por toda a parte da favela — a favela tem 17 comunidades, então Morro do Timbau, Nova Holanda, tem uma comunidade que se chama Salsa e Merengue, tem o Parque União… enfim, parece um formigueiro —, naquele sol quente, homens com as costas brilhantes de suor, misturam areia com cimento e carregam um pilhas de tijolos em carrinhos de mão.

Em cima da laje, eles armam um cavalete rústico, ao qual fixam uma roldana para descer a corda com o balde e subir o material para os pedreiros do andar de cima. Puxam a corda, descarregam e descem o balde num moto-contínuo assim. Um trabalho duro, de manhã até o cair da noite, com meia hora pro almoço, se tanto, porque o fim de semana é curto e eles só têm o fim de semana para o serviço em benefício próprio.

Num lugar da cidade em que a renda média é de dois a três salários mínimos por mês, quem pode contratar pedreiros profissionais? Então, eles mesmo se reúnem, os amigos vêm para ajudar e mais tarde serão ajudados por eles nas suas construções, e mete as mãos na massa — meu, assentam azulejo, passam fiação elétrica, fazem o encanamento e a laje de concreto moldado; todos colaboram.

Os que têm experiência profissional, firmam os alicerces e colocam as paredes em prumo; os outros carregam o material. Com o capricho de quem constrói o lar que vai abrigar a família, eles superam as dificuldades do amadorismo, do terreno acidentado e da precariedade das ferramentas que usam. É raro encontrar uma casa torta, desalinhada em relação às vizinhas, uma janela desconjuntada ou uma porta que pega no chão ao abrir e fechar.

Depois que as paredes dos quartos do andar de cima subiram, chega a vez de bater a laje. Bater a laje é arma-la sobre uma estrutura de paus e tábuas, para sustentá-la enquanto o concreto não seca, e é o final da obra; na hora que fechou a laje, acabou — ali é um momento de comemoração. É a hora de o dono da casa demonstrar felicidade pelo progresso financeiro da família e retribuir a gentileza dos demais que ajudaram, sob a forma de uma feijoada geral ou um churrasco daqueles de fumaçar o bacon — naquele tempo a carne era mais barata do que hoje.

As feijoadas costumam ser aos domingos e o vai-e-vem começa cedo. Perto da hora do almoço, as mulheres já retiram os pertences que dormiram nas bacias com água para perder o sal e colocam o feijão preto num panelão.

Como é impossível fazer comida pra tanta gente num lugar só com os fogões pequenos de quatro bocas, que cada uma tem em casa, a vizinhança participa: uma prepara couve na manteiga, outra frita os torresmos, enquanto a filha enxuga no papel higiênico os torresminhos que já ficaram prontos para deixá-los bem sequinhos, crocantes — características que deixará a mãe orgulhosa mais tarde, ao receber elogios das amigas.

A farofa eles deixam pro derradeiro momento. Como disse uma mulher, servir farofa adormecida é coisa de mulher desmazelada. Mesas e cadeiras são trazidas para acomodar os convidados do lado de fora, as mulheres entram e saem das casas com panelas fumegantes, pilhas de pratos e travessas cobertas com um pano xadrez. Os homens chegam de bermuda e chinelo rider, carregando engradados de cerveja, sacos de gelo e as garrafas de pinga pra caipirinha.

Há sempre um especialista na preparação da caipirinha, esse quesito indispensável em qualquer feijoada. Só ele sabe até que ponto os primeiros espremer os limões para não ficarem amargos e qual a proporção ideal de açúcar, cachaça e gelo para tentar agradar a todos.

Tarefa inglória, porque independentemente da qualidade das caipirinha obtida, alguém vai botar defeito, vai dizer que está muito aguada ou forte demais, e os mais ortodoxos se recusarão sequer a experimentá-la, como disse o Seu Pedro, um senhor de uns 60 e poucos anos de idade. Quando perguntei se ele não tomava caipirinha, ele dizia “não sujo a cachaça que bebo”.

Um adolescente coloca duas caixas de som na janela e o pagode ecoa pelo beco. Os homens enchem seus copos plásticos com a cerveja imersa na bacia com gelo, a criançada brinca entre as mesas e uma moça magra de camiseta, com centenas de trancinhas armadas, no cabelo serve as canecas com caldinho de feijão.

Dentro do caldo de feijão, na superfície, torresminho e uma pitada de cheiro-verde picado em cima — só de falar agora me dá água na boca. Quando a feijoada vem pra mesa, o falatório está a mil, chega a abafar o som que vem da janela. É de bom tom servir-se com moderação, ninguém corre para encher o prato, nem passa à frente dos outros. Os que desejam repetir, esperam a vez dos que ainda não foram servidos.

Quando a família tem posses pra arcar com as despesas da construção, a nova laje permite redimensionar o espaço interno: o quarto sobe pro andar de cima e se transforma em dois ou três; já cabem um armário e uma mesa maior na cozinha, sofá e duas poltronas na frente da TV na sala. Tudo comprado a longo prazo e juros altos, com as prestações pagas rigorosamente em dia — porque gente pobre, sem crédito, não tem futuro, como eles dizem.

Mais tarde, uma nova laje dará origem ao terceiro andar. A casa contará então com quatro ou cinco dormitórios, o suficiente para abrigar o casal, os filhos, com conforto em termos de espaço que muitas famílias da Zona Sul do Rio de Janeiro não têm. Outras vezes, os pais batem uma nova laje, pra abrigar cada filho que casa. Moram os pais no térreo, os filhos casados nas lajes — isso é muito comum.

Essa não é a realidade de muitos, infelizmente. A maioria das pessoas que moram nesses sobrados se restringe a viver num dos andares, ou até numa fração do andar, tanto menor quanto mais carente for a família.

A especulação imobiliária é intensa na Maré. Há proprietários de terrenos que preparam os alicerces para suportar três ou quatro andares, constroem o térreo e colocam à venda imediatamente. Com o dinheiro arrecadado, eles levantam os andares superiores para morar com a família ou alugar para terceiros; outros vendem os andares superiores antes de estarem construídos — eles dizem que são pessoas que vendem o ‘Espaço Sideral’.

Além de secar roupa nos dias de sol, servir para as crianças e muitos marmanjos barbados empinarem pipa longe dos fios dos postes, as lajes são o lugar ideal para comemoração de aniversário, churrascadas e pra manter o bronzeado sem pegar ônibus pra ir à praia. Por isso os adolescentes da Maré respondem, quando lhes perguntam onde pegaram essa cor bronzeada, eles dizem: ‘na praia da laje’.”

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