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Crianças, adolescentes e o excesso de telas | Coluna

menina rindo diante de tablet. excesso de telas é prejudicial

Muita gente critica o excesso de telas a que crianças e adolescentes estão expostos. Mas usar dispositivos digitais é prejudicial à saúde?

 

É difícil encontrar uma mãe ou pai que tenha dinheiro para bancar um celular para o filho e que não esteja preocupado com o uso excessivo do aparelho. Reclamações acerca do número de horas diárias que crianças e jovens têm passado diante das telas de smartphones, tablets, computadores e televisão são frequentes nas rodas de conversa, nas escolas e nos consultórios médicos.

Veja também: Mídias sociais e saúde mental 

Embora os pais se preocupem, muitos não sabem como mudar a situação. Como privar os filhos do uso de aparelhos digitais nos dias de hoje sem causar conflitos familiares de difícil solução? É preciso ser radical e proibir o uso? Em que momentos? Não estaríamos, assim, colaborando para que crianças e jovens deixassem de desenvolver habilidades fundamentais para a atualidade? É possível chegarmos a um meio-termo?

“A ideia mais importante é a conscientização. Sinto que pais já chegam ao consultório um pouco armados, afirmando que o mundo atual é assim, que há pouca condição de mudança. O uso parcimonioso [dessas tecnologias] pode trazer benefícios, mas os aparelhos não podem servir de babás eletrônicas”, explica o dr. Paulo Telles, pediatra e membro da Sociedade Brasileira de Pediatria.

Também é comum que pais experimentem sentimentos contraditórios diante da situação, como alívio e culpa. Se por um lado os adultos intuem que passar o dia trancado no quarto diante de uma tela não pode ser saudável, por outro os pais se sentem aliviados de terem umas horas tranquilas para dedicarem ao trabalho ou aos afazeres que se acumulam com frequência cada vez maior.

Outra dificuldade dos pais e responsáveis é em separar o que é afirmado com base em evidências científicas e o que é fruto de boatos, crenças e, pior, julgamento moral.

 

Pandemia de covid-19

 

O que já era um problema, com a pandemia de covid-19 tornou-se algo inevitável. Crianças e adolescentes que têm acesso a dispositivos digitais passaram a ter aula a distância, aumentando o tempo de exposição a esses aparelhos e, consequentemente, à internet.

Os pais e responsáveis foram forçados a deixar os filhos diante das telas durante a pandemia. Única forma de não perderem as aulas e se manterem minimamente próximos das salas de aula, os aparelhos significavam, também, um meio de interação e divertimento com os amigos, colegas e familiares de cujo convívio social estavam privados.

Os próprios pais não conseguiram escapar das telas: de acordo com o relatório Digital in 2020, divulgado pelo We Are Social e Hootsuite, o tempo online dos brasileiros no primeiro ano da pandemia foi de 9h17min, muito acima da média global, de 6h43min.

De fato, embora não tenha começado com a pandemia, a situação se agravou nesse período. Segundo a pesquisa Panorama Mobile Time/Opinion Box – Crianças e smartphones no Brasil, realizada em outubro de 2020, a proporção de crianças de 7 a 9 anos que usam o smartphone por  3 horas diárias ou mais saltou de 30% para 43% em um ano. Outro dado alarmante é que 58% dos pesquisados entre 10 e 12 anos passavam mais de 3 horas diárias em frente a um smartphone.

Embora a  Sociedade Brasileira de Pediatria recomende que crianças com menos de 10 anos não passem mais de 2 horas diárias em frente às telas, 43% das crianças de 7 a 9 anos passavam 3 horas ou mais por dia no smartphone à época da pesquisa.

Não à toa, pais, educadores e profissionais de saúde nunca estiveram tão preocupados com as consequências do uso excessivo de dispositivos digitais. Somado ao isolamento social imposto para o controle da pandemia, crianças e adolescentes têm passado cada vez mais horas frente a esses aparelhos, o que aumenta o isolamento social e o sedentarismo, entre outros problemas apontados por especialistas.

Com o intuito de orientar pais, educadores e pediatras a respeito dos riscos a que crianças e adolescentes estão sujeitos na internet, a SBP  vem produzindo, desde 2016, uma série de materiais. Preocupada com os excessos que marcaram a pandemia, a entidade lançou, no início deste ano, o Manual de Orientação #MenosTelas #MaisSaúde, com o objetivo de promover a saúde e o bem-estar de crianças e adolescentes em contato constante com tecnologias digitais.

 

O que de fato sabemos sobre o uso excessivo de telas

 

A Sociedade Americana de Psicologia (APA, em inglês) afirma que cada vez mais especialistas têm estudado os potenciais benefícios e malefícios dos dispositivos eletrônicos para crianças e adolescentes. Crianças pequenas parecem não se beneficiar do uso de telas para o aprendizado. Já crianças mais velhas podem obter informações relevantes dos dispositivos digitais, mas isso cria outro problema: o excesso de uso, que leva ao sedentarismo, a comportamentos compulsivos e à substituição de interações sociais presenciais.

Contudo, ainda faltam estudos estabelecendo relação causal. É importante lembrar que estamos falando de um fenômeno relativamente novo. O primeiro iPhone, aparelho que revolucionou os smartphones, foi lançado apenas em 2007. Além disso, não é fácil isolar os efeitos das telas de outras experiências a que crianças estão sujeitas. Muitos estudos também não diferenciam as atividades nesses aparelhos. Por exemplo, conversar por vídeochamada com os avós que moram em outra cidade  é uma atividade completamente diferente de passar 2 horas em uma rede social, mas a maioria das pesquisas não estabelece essa diferença.

O que se sabe com certeza é que estamos passando cada vez mais tempo em frente às telas. Um estudo realizado por um pesquisador da Universidade da Flórida, nos EUA, comparou o tempo que crianças americanas passavam expostas às telas em 1997 e em 2014. O número de horas que crianças de 0 a 2 anos ficavam em frente a aparelhos eletrônicos e digitais subiu de pouco mais de 1 hora por dia em 1997 para 3 horas em 2014.

Isso certamente terá um impacto na vida dos jovens, já que ainda há pouca regulamentação a respeito do conteúdo disponível e os dados recentes acerca do impacto do excesso de uso desses aparelhos na saúde física e mental não são nada animadores.

Um estudo canadense mais de 2400 crianças de 2 e 3 anos revelou que muito tempo em frente às telas está significantemente associado ao mau desempenho em testes que avaliam o desenvolvimento cognitivo.

Uma revisão sistemática mostrou que há evidência considerável quanto à relação entre o excesso de tempo em frente às telas e problemas de saúde como obesidade e sintomas de depressão em crianças e jovens.

Segundo o dr. Paulo Telles, há cada vez mais dados revelando que o excesso de uso de telas à noite está associado a distúrbios do sono. Esses aparelhos interferem na bioquímica do cérebro de forma semelhante às drogas psicoativas.

De acordo com a SBP, os transtornos de sono são cada vez mais frequentes e associados aos transtornos mentais precoces em crianças e adolescentes. O brilho das telas contribui para o bloqueio da melatonina e para a prevalência cada vez maior das dificuldades de dormir e manter uma boa qualidade de sono à noite na fase de sono profundo, com aumento de pesadelos e terrores noturnos.

A falta de sono adequado causa sonolência diurna, problemas de memória e dificuldade de concentração que resultam em diminuição do rendimento escolar e estão associadas a sintomas dos transtornos do déficit de atenção e hiperatividade.

O excesso de estímulo também sobrecarrega o cérebro e compromete a memória. Em entrevista a este Portal, o neurologista Leandro Teles, membro da Academia Brasileira de Neurologia, reforçou a importância da vivência para a memória. “Eu sempre falo que a memória não é uma função, mas uma sequência de funções. Você precisa de uma boa vivência, e essa vivência tem que ser profunda, complexa, com tempo; você precisa depois consolidar essa informação para que ela possa ser carregada por anos ou até por décadas, por uma vida inteira.”

O córtex pré-frontal, área do cérebro responsável pelas funções cognitivas e executivas do controle dos impulsos, julgamento, resolução de problemas, atenção, inibição, memória e tomada de decisões não está totalmente desenvolvido até a terceira década de vida. Isso justifica o comportamento impulsivo que marca a adolescência e o início da vida adulta e do qual as redes sociais e jogos eletrônicos, com seus sistemas de recompensa, se beneficiam.

Entre os principais problemas para a saúde física e mental relacionados ao uso excessivo de telas e identificados pela SBP estão:

  • transtornos do sono;
  • transtornos de déficit de atenção e hiperatividade;
  • dependência digital;
  • problemas de saúde mental como ansiedade e depressão;
  • sedentarismo;
  • transtornos posturais e músculo-esqueléticos;
  • transtornos de imagem corporal e autoestima;
  • problemas visuais, miopia e síndrome visual do computador.

 

Como evitar o uso excessivo de telas

 

Assim, é importante criar hábitos mais saudáveis, que incluam o controle do uso desses aparelhos de acordo com a faixa etária e privilegiem interações sociais presenciais e atividades físicas, de preferência ao ar livre.

Com crianças mais velhas e adolescentes, é possível estabelecer acordos, mas com os mais novos é preciso impor limites.

Veja algumas dicas da SBP:

  • Crianças com menos de 2 anos: não devem ser expostas às telas;
  • Crianças entre 2 e 5 anos: devem limitar-se a 1 hora diária de exposição às telas, sempre com a supervisão de adultos;
  • Crianças entre 6 e 10 anos: limitar o tempo ao máximo de 1 ou 2 horas por dia, sempre com supervisão;
  • Adolescentes entre 11 e 18 anos: limitar o tempo de telas e videogames a no máximo 2 ou 3 horas diárias. Não permitir que adolescentes “virem a noite” jogando;
  • Para todas as idades: nunca permitir o uso durante as refeições e sempre desligar as telas 1 ou 2 horas antes de dormir;
  • Oferecer atividades ao ar livre que privilegiem exercícios físicos e contato com a natureza;
  • Criar regras saudáveis para o uso de equipamentos e aplicativos digitais, além de senhas e filtros de acordo com a idade;
  • Incluir na rotina momentos de desconexão e interação familiar que sejam respeitados por todos os membros da família;
  • Não permitir que as crianças e adolescentes fiquem isolados nos quartos com televisão, computador, tablet, celular, smartphones ou com uso de webcam; estimular o uso nos locais comuns da casa;
  • Encontros com estranhos devem ser sempre evitados, sejam online ou off-line. Pais e cuidadores devem saber com quem as crianças e jovens estão jogando ou interagindo;
  • Conteúdos com teor de violência, pornografia, abusos, exploração sexual, nudez devem ser denunciados.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) também estabeleceu diretrizes para pais controlarem o uso de aparelhos digitais. Assim como a SBP, a OMS não recomenda que crianças com menos de 2 anos usem aparelhos eletrônicos e digitais.

Se é verdade que os tempos atuais exigem habilidades para o uso de tecnologias, também é fato que estamos apenas começando a observar os problemas que o excesso desses aparelhos e da própria internet pode trazer para crianças e jovens.

Tirar os jovens das telas não é fácil, mas os dados deixam cada vez menos dúvidas de que é tarefa essencial. Criar regras e condições para isso deve ser função dos adultos.

Sobre o autor: Mariana Varella

Mariana Varella é editora-chefe do Portal Drauzio Varella. Jornalista de saúde, é formada em Ciências Sociais e pós-graduanda na Faculdade de Saúde Pública da USP. Interessa-se por saúde pública e saúde da mulher. @marivarella

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