Pessoas que têm algum distúrbio de visão com grau alto dificilmente conseguem ficar sem os óculos de grau (ou as lentes de contato). Enquanto escrevo esta matéria, estou usando os meus – já são 20 anos com óculos devido ao alto grau de miopia que me acompanha desde a infância. Sem eles, é praticamente impossível trabalhar, assistir a um filme com legendas ou dirigir, por exemplo.
Quanto maior o grau, maior a dependência. Algumas pessoas já se acostumaram com essa realidade, mas outras não veem a hora de se livrar dos óculos e conseguir enxergar bem independentemente dessa “ajuda” externa. Para isso, existe uma alternativa: a chamada cirurgia refrativa, procedimento a laser que pode corrigir miopia, astigmatismo e hipermetropia. Em alguns casos, também pode amenizar a presbiopia, conhecida como “vista cansada”, em pessoas com mais de 40 anos.
A parte da frente dos nossos olhos tem uma lente natural, a córnea. Na cirurgia refrativa, são utilizados lasers que agem diretamente nessa lente, modificando o seu formato e, consequentemente, fazendo a correção de grau. O procedimento dura cerca de 5 a 10 minutos em cada olho e pode ser realizado ambulatorialmente ou em hospital, sem a necessidade de internação. A anestesia é feita com aplicação de colírio nos olhos.
A cirurgia refrativa a laser, no entanto, não é a única opção. Em alguns casos específicos, como em pessoas acima dos 55 anos ou com determinados tipos de grau, pode-se indicar a troca de cristalino transparente, um procedimento intraocular semelhante à cirurgia de catarata. A escolha da técnica depende de fatores como idade, grau e características do olho.
Quem pode fazer a cirurgia refrativa?
Para fazer a cirurgia, é preciso atender alguns pré-requisitos. “Infelizmente, nem todas as pessoas que usam óculos são elegíveis para a cirurgia. É preciso ter a córnea saudável, apresentar estabilidade do grau e ser maior de 18 anos”, explica o oftalmologista Hallim Feres Neto, membro do Conselho Brasileiro de Oftalmologia (CBO) e diretor da Prisma Visão.
Em pacientes mais velhos, o oftalmologista pode considerar a troca do cristalino transparente como primeira opção. Segundo critérios adotados no Brasil, essa técnica costuma ser indicada principalmente a partir dos 55 anos, em pessoas com presbiopia associada, hipermetropia com graus mais altos ou em casos selecionados em que o laser não é a melhor alternativa. É uma cirurgia mais invasiva e difícil de reverter, que pode levar a problemas de retina e qualidade piorada de visão noturna. No entanto, os riscos são mínimos.
“É possível dar visão para longe, intermediário ( para ler no computador, por exemplo) e perto, geralmente com baixa ou nenhuma dependência de óculos. O laser corneano para presbiopia entrega uma visão funcional de perto que vai evoluir com a idade, nem sempre com tanta amplitude. Além disso, elimina-se a possibilidade de precisar de cirurgia de catarata depois — algo que, mais cedo ou mais tarde, aconteceria. Quem faz laser, depois pode acabar precisando operar a catarata no futuro”, acrescenta o especialista.
Portanto, quem vai avaliar se a cirurgia refrativa é a opção mais adequada é o médico. “É importante uma avaliação pré-operatória bem feita, com medida do grau antes e depois de dilatar os olhos e avaliação minuciosa da córnea e da retina pelo médico oftalmologista. Recomenda-se suspender o uso de lentes de contato alguns dias antes da consulta, e depois alguns dias antes da cirurgia também”, afirma Feres Neto.
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Existem riscos associados ao procedimento?
Segundo o especialista, quando bem indicada – e por isso a importância da avaliação pré-operatória minuciosa – trata-se de uma cirurgia extremamente segura. “Tão segura que, se você procurar trabalhos científicos sobre complicações, dificilmente vai ver alguma publicação com menos de 15 anos. Relatos de piora da visão após a cirurgia estão em torno de 0,1% a 0,4% apenas.”
“Mesmo assim, existem algumas complicações e efeitos colaterais, sendo que os mais comuns são a piora da sensação de olho seco e o aumento do ofuscamento à noite e da fotofobia [sensibilidade à luz] durante o dia. Esses efeitos colaterais são raros e costumam melhorar com o tempo”, completa o médico.
Já procedimentos intraoculares, como a troca de cristalino transparente, embora também sejam bastante seguros, envolvem riscos diferentes e potencialmente mais relevantes, como infecções internas (endoftalmite) ou alterações na retina. Por isso, a indicação deve ser ainda mais criteriosa.
Em pacientes mais jovens, especialmente míopes, existe um ponto de atenção adicional em cirurgias intraoculares: o humor vítreo (uma espécie de gel dentro do olho) é ainda mais aderido à retina. Alterações na estrutura do olho podem favorecer o descolamento desse gel e, em casos raros, aumentar o risco de problemas na retina ao longo dos anos.
Como é a recuperação?
Segundo o médico, existem duas técnicas mais modernas (chamadas de LASIK e SMILE) cuja recuperação é bem rápida: o paciente pode operar em um dia, ter algumas horas de desconforto, e voltar ao trabalho no dia seguinte. Outra técnica mais tradicional (chamada de PRK) tem recuperação um pouco mais lenta e com um pouco mais de dor nos primeiros dias. Nesse caso, a pessoa pode retornar ao trabalho entre 4 e 5 dias depois. Novamente, o especialista é quem vai orientar sobre a opção mais adequada para cada paciente.
A SMILE, nome comercial para a cirurgia de extração de lentícula por pequena incisão, que antes era utilizada principalmente para miopia, passou a ser estudada e aplicada também para a hipermetropia, com resultados promissores em casos selecionados. Em comparação a LASIK e PRK, a técnica tende a preservar melhor a estrutura da córnea e causar menos sintomas de olho seco. Pessoas jovens ou de meia-idade com risco de olho seco, praticantes de esporte de contato e desejo de recuperação rápida podem ser os principais beneficiados da SMILE, que caminha para ser a principal indicação para hipermetropia.
“Para todas as técnicas citadas, oriento não nadar, praticar esportes de contato ou impacto por 30 dias, e não usar maquiagem próxima aos olhos por 15 dias”, afirma. Outro cuidado importante é evitar coçar os olhos nos primeiros 15 dias. Durante a noite, uma opção é usar máscara facial ou protetor de acrílico para proteger os olhos.
No caso da técnica PRK, recomenda-se ainda o uso de óculos de sol nos primeiros 30 dias. Também é comum que a visão não fique boa de um dia para o outro. Ela pode oscilar nos primeiros meses, e vai melhorando gradativamente.
O oftalmologista pode recomendar o uso de medicamentos analgésicos e colírios antibióticos, anti-inflamatórios e lubrificantes. O tipo e a frequência vão depender da técnica utilizada. Siga sempre as recomendações do especialista responsável pela sua cirurgia.
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Adeus, óculos de grau?
Hallim Neto explica que, sempre que possível, a ideia é eliminar a necessidade dos óculos de grau. “Os lasers de hoje em dia são muito confiáveis, tanto que as estatísticas mostram que 95% dos pacientes míopes ficam com o grau residual menor que 0,50. Isso é o suficiente pra você não sentir mais falta dos óculos”, afirma.
Contudo, ele ressalta que a proposta da cirurgia é reduzir a dependência dos óculos. Normalmente, o paciente realmente deixa de usar óculos. Mas podem ocorrer casos em que, apesar da diminuição de grau, permanece a necessidade do uso de óculos em algumas situações, como dirigir à noite ou ler um livro, por exemplo.
Em relação à presbiopia (vista cansada), os resultados podem variar conforme a técnica utilizada. Cirurgias a laser mais modernas conseguem melhorar a visão de perto, mas geralmente não eliminam totalmente a necessidade de óculos ao longo do tempo.
“As técnicas modernas de laser para presbiopia (Presbyond, Supracor, Presbymax, READ), além de corrigir o grau, mudam o formato da córnea de um ou dos dois olhos, aumentando a profundidade de foco e criando uma pequena ‘multifocalidade’, fazendo com que o olho consiga enxergar bem em mais de uma distância. Um olho ainda fica um pouco melhor para longe e o outro um pouco melhor para perto, mas como um ou os dois têm uma amplitude focal maior, todas as distâncias são cobertas e a diferença entre cada olho é menor, facilitando a adaptação”, detalha Feres Neto.
Já a troca de cristalino com lentes multifocais ou de foco estendido pode proporcionar maior independência dos óculos em diferentes distâncias, embora também tenha suas limitações e possíveis efeitos colaterais.
Ainda é preciso consultar o oftalmologista?
Mesmo se o paciente não precisar mais dos óculos, é recomendado que ele continue consultando o oftalmologista com regularidade. “O exame médico oftalmológico não serve só para medir o grau. Mesmo quem não usa óculos está sujeito a doenças como glaucoma, catarata, descolamento de retina ou retinopatias, por exemplo. Então o exame de rotina com o oftalmologista continua sendo importante”, destaca Feres Neto.
Além disso, o médico explica que pessoas com mais de 4 graus de miopia têm maior risco de descolamento de retina, o que normalmente é monitorado quando elas fazem acompanhamento periodicamente.
Depois da cirurgia refrativa, é muito comum que o paciente pense que não é mais necessário consultar o médico. Porém, a cirurgia só modifica a parte de fora do olho (córnea). A retina continua sendo a de uma pessoa com 4 graus de miopia. Por isso, é importante continuar com o acompanhamento, conforme orientação do especialista.
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