Segundo psicóloga, jovens pensam em camisinha somente para se prevenir de uma gravidez indesejada, mas se esquecem das infecções sexualmente transmissíveis, como sífilis, HPV e gonorreia.

 

Fazer sexo desprotegido não parece algo tão grave para a maioria dos jovens brasileiros, já que um terço dos adolescentes entre 14 e 25 anos alega não usar camisinha durante o ato sexual. Entre as mulheres, quase 40% disseram transar sem preservativo. Os números são preocupantes e fazem parte do II Levantamento Nacional de Álcool e Drogas (Lenad), realizado pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), com 1.742 entrevistados entre 14 e 25 anos, divulgado no início de abril de 2014, em que foi analisado o comportamento dos jovens  em relação à vida sexual, uso de drogas e cuidados com a saúde.

Na opinião da psicóloga Ilana Pinsky, uma das coordenadoras do estudo, o alto número pode ser explicado por alguns motivos, como o fato de os jovens não terem presenciado a epidemia da aids que se alastrou pelo país em meados da década de 1980. “Nós que vivemos aquela época sabemos a seriedade do problema. Muitos jovens, por conta das medicações que existem atualmente para controlar a doença, pensam que a aids  é algo reversível. Entretanto, é uma enfermidade que necessita de cuidados para a vida inteira”, explica.

A estudante Paula Almeida*, 17 anos, revela que já fez sexo desprotegido em duas situações. A primeira foi durante a viagem de formatura do ensino médio, para Porto Seguro, no ano passado. “Foi algo que fiz sem pensar, os dois estavam meio eufóricos, sabe. Mas como eu conhecia o cara com quem estava ficando, achei que não haveria problema. Eu até perguntei se ele tinha camisinha, mas daí ele falou que estava sem. Na hora você vai no embalo, não tem como”, relata.

 

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“Numa festa, na casa de uns amigos, rolou de novo. Mas agora eu tenho mais consciência. Na hora você não se dá conta de que está fazendo besteira. Somente no dia seguinte mesmo. Mas de manhã cedo eu já corri para a farmácia para comprar a pílula do dia seguinte. Não vou fazer mais isso. Passei o maior sufoco depois, com medo de uma gravidez”, recorda a estudante.

Quase um terço das jovens (32%) com idade entre 14 e  25 anos já engravidou ao menos uma vez. O índice de aborto (provocado ou espontâneo) nessa faixa etária é de 12.4%, ou seja, mais de uma em 10 meninas entre 14 e  20 anos já interrompeu uma gravidez.

Na verdade, ainda segundo a psicóloga Ilana Pinsky, os jovens pensam em camisinha somente para se prevenir de uma gravidez indesejada, mas se esquecem das infecções sexualmente transmissíveis, como sífilis, HPV e gonorreia.

“A pílula do dia seguinte não previne contra as IST. Ainda em relação as garotas que fazem sexo desprotegido, acredito que existe uma dificuldade de elas se colocarem diante dos parceiros e exigirem esse cuidado. É preciso haver um trabalho preventivo mesmo, para quebrar alguns mitos como, por exemplo, de que transar de camisinha é complicado, que inibe o prazer, o rapaz broxa. Mas essa falta de assertividade não é só em relação ao sexo. Muitas andam de carro com motoristas embriagados. O que nós vemos é que muitas vezes elas não se sentem confortáveis para exigir mais proteção do parceiro”, finaliza.

 

* A pedido da entrevistada, seu nome foi alterado.