Drauzio Varella

Os riscos da automedicação na pandemia

Medicamentos e vitaminas só devem ser utilizados com prescrição e orientação médica. Entenda o porquê nesta matéria.

Medicamentos e vitaminas só devem ser utilizados com prescrição e orientação médica. Entenda o porquê nesta matéria.

 

“Estou com dificuldade de me concentrar em casa. Tomei Ritalina, vamos ver se melhora.”  Uma postagem em uma rede social exemplifica muito bem um hábito já comum na vida dos brasileiros: a automedicação. Apesar de parecer inofensivo, tomar medicamentos sem prescrição e acompanhamento médico pode trazer riscos à saúde.

Existem diversos motivos que levam uma pessoa a se automedicar. O primeiro deles é confiar na recomendação de um conhecido, amigo ou familiar. e achar que os medicamentos podem ser utilizados de forma indiscriminada.

Na pandemia do novo coronavírus, a automedicação ganhou ainda mais espaço.

Com receio de ir aos consultórios e hospitais e se infectar, parte da população recorre às “farmacinhas” caseiras sem avaliar adequadamente os riscos que podem correr ao negligenciar sintomas que podem indicar alguma condição mais grave.

As diversas informações falsas sobre o dito “tratamento precoce” contra a covid-19, e o apoio político em cima dessa questão, mesmo sem comprovação científica de que tenham eficácia, é outro ponto importante. A hidroxicloroquina e a ivermectina passaram a ser consumidas de forma desenfreada, muitas vezes sem prescrição médica. 

De acordo com uma pesquisa do Datafolha publicada em maio de 2021, um a cada quatro brasileiros utilizou algum medicamento para “tratar precocemente” ou “prevenir” a infecção pelo novo coronavírus, que além de ineficaz, pode trazer graves prejuízos ao organismo.


Quando tomar medicamentos por conta própria?

 

Em geral, a automedicação foca no sintoma e não na causa do problema. Por isso, recomenda-se apenas que sintomas leves, como dor de cabeça e febre, sejam medicados com analgésicos e antitérmicos. 

“Se esse problema não se resolve em um ou dois dias (48h), se orienta procurar um médico, que é quem pode diagnosticar o que está ocorrendo”, afirma Patrícia Mastroianni, professora assistente do Departamento de Fármacos e Medicamentos da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Universidade Estadual de São Paulo (UNESP).

Nas drogarias, o farmacêutico pode indicar qual o medicamento recomendado para sintomas leves e orientar sobre seu uso, forma de administração, dosagem e horário. Caso note a possibilidade de algo mais grave, ele também pode encaminhar o paciente a um médico.  “Esse é um protocolo de saúde pública, que ajuda a desafogar o sistema de saúde. Uma pessoa pode evitar ir a um pronto-socorro em um primeiro momento por um sintoma que pode ser controlado”, afirma Mastroianni.

Os medicamentos para esses sintomas mais simples são vendidos sem prescrição médica, por isso é muito importante usá-los de modo racional, evitando seu uso excessivo, que pode causar efeitos adversos.  “À medida que um medicamento está no mercado, a gente vai conhecendo mais o processo do uso, o quanto é seguro e o risco-benefício da automedicação. A lista de medicamentos [disponíveis] vai aumentando. Historicamente, vários medicamentos que antes eram vendidos sob prescrição, passaram a não exigir mais receita”, ressalta a professora.

Veja também: Tudo Sobre Medicamentos 5 | Uso consciente

 

Tratamento precoce contra a covid-19?

Divulgado pelo governo federal como medicamentos preventivos, mesmo sem comprovação científica, a hidroxicloroquina e a ivermectina podem causar diversos problemas de saúde quando utilizadas de forma indiscriminada e sem acompanhamento. As vendas desses medicamentos cresceram em 2020, respectivamente, 857% e 126%. Já existem registros em todo o Brasil de pacientes com quadros de hepatite medicamentosa decorrente do uso e que precisaram fazer transplante de fígado.

Outro risco é o de insuficiência renal. Como a hidroxicloroquina é excretada pelos rins, parte da droga pode se acumular nos órgãos, prejudicando seu funcionamento. Se usada em grandes quantidades, esse risco aumenta ainda mais. Lesões na retina e alterações no coração também podem ocorrer.

De acordo com a professora Patricia, existe ainda o risco para a população que tem diabetes. Como a hidroxicloroquina pode provocar quadros de hipoglicemia grave, pessoas que já tomam medicamentos para baixar a glicemia podem ficar ainda mais sujeitas. “Até porque quem tem prescrito o ‘kit covid’ não é o médico da atenção básica, aquele que faz o cuidado integral. Então ele não sabe o histórico do paciente e coloca a saúde dele em risco. Uma prescrição leviana e inadequada”, ressalta a professora.

Veja também: Hidroxicloroquina e o perigo da automedicação | Coronavírus #30

 

Medicamentos controlados

Medicamentos como clonazepam (Rivotril) e metilfenidato (Ritalina) em teoria não chegariam às mãos do consumir sem uma prescrição médica, pois uma via da receita seria retida para controle da Anvisa. Entretanto, não são raros os casos em que amigos ou familiares dão um comprimido com o intuito de ajudar outra pessoa. A boa intenção pode se transformar em um problema de saúde a longo prazo.

“Tem farmácias que vendem sem receita. Um médico prescreveu duas caixas de Rivotril e você só comprou uma, mas na farmácia deram baixa nas duas, então eles conseguem vender uma sem receita. Tem paciente que vai marcando consulta até conseguir uma receita e tem médicos que se sentem coagidos a prescrever, e muitas vezes não são os psiquiatras”, alerta Mastroianni.

O clonazepam é um medicamento controlado que age diretamente no sistema nervoso central e é indicado em casos de transtorno de ansiedade, crises epiléticas, síndrome do pânico, entre outros. É comum que as pessoas tomem esse medicamento para dormir com mais facilidade, sem indicação médica.

Entre os principais riscos desse uso estão a demência, risco de quedas e prejuízos na memória. A professora da Unesp ainda alerta que “a falta de uso contínuo e de uso terapêutico aumenta muito o risco de dependência”.

Já o metilfenidato é indicado para transtorno de déficit de atenção/hiperatividade (TDAH), mas parte da população utiliza sem ter necessidade, quando julga precisar se concentrar em uma prova ou no trabalho. A droga pode causar hipertensão pulmonar, pressão alta, alteração no metabolismo, hipertireoidismo, além de dependência.

“Então esses medicamentos não deveriam existir? Não é isso. Existem modelos de uso”, afirma Patricia. É essencial a prescrição e acompanhamento médico para usar esses medicamentos de forma segura.

Veja também: Por que tomar medicamentos por conta própria é perigoso? | Coluna #82

E as vitaminas, posso tomar?

Além dos medicamentos, as vitaminas são outro ponto que merecem atenção. Por se tratarem de elementos necessários para o funcionamento do organismo, não se imagina que em excesso elas podem fazer mal.

A vitamina C, por exemplo, é facilmente encontrada em frutas, legumes e verduras, mas existe a ideia de que é necessário tomar comprimidos efervescentes, com o intuito de prevenir gripes e resfriados. Entretanto, não há evidências de que isso funcione de fato.

“A recomendação é chupar uma laranja por dia. A concentração de vitamina C [na fruta] é suficiente (50mg). Se você toma um comprimido efervescente (500 mg) ele te dá muito mais que o necessário. Então você absorve 50 mg se estiver deficiente, os outros 450 mg são eliminados na urina”, reforça a professora. Nesse caso, o principal problema é que a vitamina C em excesso pode formar cálculos renais.

Outras vitaminas, como a D, em excesso também podem provocar hipervitaminose, causando náuseas, vômitos, fraqueza, perda óssea e problemas renais. Mastroianni observa que “as pessoas percebem eventos adversos ou intoxicação e vão tratar como se fossem sintomas. O problema não precisa ser tratado, precisa retirar esse medicamentos e vitaminas”.

A recomendação geral é simples: se não é um sintoma comum, como febre e dor de cabeça, só tome medicamentos e vitaminas com orientação e acompanhamento médico.

Veja também: Excesso de vitaminas | Entrevista

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