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Os pulmões | Entrevista

ilustração em 3D de corpo humano, com pulmões em destaque

Os pulmões são órgãos de extrema importância para o bom funcionamento do organismo; cigarro e poluição são seus piores inimigos

 

Os pulmões são a maior superfície de contato do nosso corpo com o meio externo. Se fosse possível desdobrar alvéolo por alvéolo, eles ocupariam uma área equivalente a uma quadra de tênis. (veja verbete sobre os pulmões aqui.)

“No interior dos pulmões, não há apenas ar. Eles possuem uma rede de vasos sanguíneos muito extensa, para permitir que o sangue circule e entre em contato com o ar. Quando o ar e o sangue se encontram, o oxigênio do ar passa para o sangue e, por meio deste, é enviado aos tecidos do corpo, que dependem de oxigênio para continuar funcionando. Assim como o oxigênio entra na corrente sanguínea, o gás carbônico presente no sangue venoso, resultado final de grande parte de nosso metabolismo celular, é eliminado. Tudo isso acontece nos alvéolos pulmonares, estruturas em forma de saco que constituem a menor unidade funcional do sistema respiratório.” (Guia Prático de Saúde e Bem-Estar).

O cigarro e a poluição são os maiores responsáveis pelo aparecimento de doenças respiratórias que podem danificar irremediavelmente os pulmões.

Veja também: Como é construído o pulmão?

APARÊNCIA DOS PULMÕES

 

Drauzio – Numa cirurgia, quando se abre o tórax do paciente, qual a aparência dos pulmões?

Riad Younes – Os pulmões assemelham-se a duas bexigas localizadas ao redor do coração. São cor-de-rosa, desde que a pessoa não fume nem resida em cidades poluídas como São Paulo, Cidade do México, Pequim, Los Angeles, etc.

Exceção feita à boca e ao estômago, o pulmão é um dos poucos órgãos internos que têm contato direto com o exterior. O ar que respiramos, filtrado pelas vias aéreas superiores, chega aos pulmões praticamente livre de impurezas. Caso parte delas não seja retida, serão acionados mecanismos de defesa que prenderão a sujeira, não permitindo que ela passe para o sangue e circule pelo corpo inteiro.

 

FALTA DE OXIGÊNIO

 

Drauzio – Como se sente uma pessoa a quem falte oxigênio?

Riad Younes – Imagine prender a respiração, dar um mergulho e ficar algum tempo debaixo d’água. Sem dúvida, o desconforto provocado pela falta de oxigênio o obrigará a voltar à tona e a encher novamente os pulmões. Essa sensação de sufoco marca o estágio inicial de falta de ar intensa. Mais um pouco, e a quantidade de gás carbônico não eliminado sobe tanto no sangue que a pessoa entra numa fase de torpor, de sonolência, como se estivesse anestesiada. O cérebro, desnorteado, não reconhece os fatos, o nível de consciência declina e a pessoa entra em coma apesar do alerta de sobrevivência recebido diante da menor oferta de oxigênio. Pode-se concluir, portanto, que os momentos iniciais são desagradáveis e angustiantes. Instalada a sonolência, porém, o sofrimento tende a desaparecer, embora ainda haja sinais visíveis de esforço para respirar. Confirmam tal suposição sobreviventes que não se lembram da experiência terrível de asfixia por que passaram.

Nos fumantes, os alvéolos vão sendo destruídos progressivamente e transformam-se em sacos grandes e espessos que saltam dos pulmões como cachos de uva com os bagos vazios. Essas bexigas cheias de ar impedem a aproximação dos glóbulos vermelhos e, como consequência, a oxigenação do sangue torna-se deficiente e a respiração fica penosa. Se afastada a causa, a doença pode estacionar, mas nunca regride, porque a destruição pulmonar é irreversível.

 

MECANISMOS DE DEFESA

 

Drauzio – Como funcionam os mecanismos de defesa do pulmão?

Riad Younes – São de vários tipos. Uns, mais simples, funcionam como barreiras mecânicas para reter partículas de sujeira, fumaça ou poluição, que serão expelidas sob a forma de catarro.

No aparelho respiratório, há células que produzem uma secreção – o muco – que vai sendo empurrada para fora pelos cílios existentes no seu revestimento interno, num movimento que faz lembrar o do vento num campo de trigo. Esse processo contínuo e ininterrupto promove a expulsão do material indesejável, pois as partículas que venceram a barreira imposta pelas vias aéreas superiores e alcançaram pulmões e brônquios, grudam no muco e são eliminadas. Nos fumantes e moradores de locais bastante poluídos, a quantidade de partículas nocivas ao pulmão é muito grande e exige das células maior produção de muco. Esse esforço extra, porém, pode não ser suficiente para expeli-las e elas se depositam nos alvéolos.

Os alvéolos não produzem o muco protetor, mas contam com outros mecanismos de defesa: glóbulos brancos especializados, que prendem as partículas indesejáveis (bactérias, restos de poluição, fumo, sujeira) e não as soltam mais. À medida que a retenção aumenta, os pulmões perdem o tom rosado próprio da mistura de sangue com ar e adquirem manchas negras. Quanto mais se fuma ou mais poluído é o ar, mais eles escurecem, passando de rosa a cinza e depois a inteiramente pretos.

Vendo um pulmão, sabe-se de imediato se pertence a um fumante ou a alguém que reside em lugar altamente poluído. O do fumante, em especial, é negro e com bolhas de enfisema. Imagine uma pessoa respirando direto a fumaça do escapamento de um caminhão durante vários anos. Não se notará diferença de cor entre esse pulmão e o do fumante.

 

Veja também: Doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC)

 

ENFISEMA

 

Drauzio – Em linhas gerais, o que caracteriza o enfisema? 

Riad Younes – Enfisema nada mais é do que uma área do pulmão destruída irremediavelmente. Na extremidade dos pulmões existem bolsas microscópicas de superfície extremamente fina, os alvéolos, através de cujas paredes ocorre a troca gasosa: os glóbulos vermelhos recebem oxigênio e eliminam gás carbônico.

Nos fumantes, os alvéolos vão sendo destruídos progressivamente e transformam-se em sacos grandes e espessos que saltam dos pulmões como cachos de uva com os bagos vazios. Essas bexigas cheias de ar impedem a aproximação dos glóbulos vermelhos e, como consequência, a oxigenação do sangue torna-se deficiente e a respiração fica penosa. Se afastada a causa, a doença pode estacionar, mas nunca regride, porque a destruição pulmonar é irreversível.

O ar-condicionado, se usado com moderação, não representa grande inimigo. É incomum encontrar um paciente que tenha tido pneumonia, porque tomou chuva, vento ou se expôs ao ar condicionado.

 

CÂNCER DE PULMÃO NAS MULHERES

 

Drauzio – Se cigarros de baixo teor fossem sinônimo de segurança, não haveria mulheres com câncer de pulmão, já que são raras as que preferem outros cigarros. Há dados a esse respeito?

Riad Younes – Estatísticas mundiais sugerem que os homens estão deixando de fumar e as mulheres estão fumando mais. No Hospital do Câncer de São Paulo, Os pulmões | Entrevistapesquisas demonstram que, nos anos 1980, havia uma mulher para cada quatro ou cinco homens com câncer de pulmão. Hoje, há uma mulher para cada 2,5 homens e a tendência é diminuir ainda mais essa diferença. Se as mulheres fumam tanto ou mais que os homens, ficarão tão ou mais doentes do que eles. Talvez esse tenha sido um saldo negativo da liberação feminina. Além disso, a carga de propaganda sobre as meninas, vinculando o fumo à promessa de sucesso, competência e realização, intensificou-se consideravelmente nas últimas décadas. Se considerarmos que 80% das pessoas começam a fumar entre os 14 e 21 anos e o aumento de câncer de pulmão nas mulheres, essa estratégia publicitária surtiu danos irreparáveis para a saúde feminina.

Parece, também, que o tabaco prejudica mais as mulheres que estariam mais propensas a desenvolver câncer de pulmão. Infelizmente, mesmo em não fumantes, a incidência desse tipo de câncer é mais elevada nas mulheres do que nos homens.

 

AR-CONDICIONADO

 

Drauzio – O ar-condicionado goza de má fama quando se trata de problemas pulmonares. Ele merece esse título de vilão?

Riad Younes – O ar-condicionado, se usado com moderação, não representa grande inimigo. É incomum encontrar um paciente que tenha tido pneumonia, porque tomou chuva, vento ou se expôs ao ar condicionado.

No entanto, é preciso observar que o ar-condicionado tem duas características evidentes: resfria e resseca o ar. Do resfriamento, o corpo sabe defender-se, mas o ar mais seco representa um problema para quem não possui um sistema de umidificação adequado, especialmente se o nariz estiver entupido e a pessoa respirar pela boca. O ar seco irrita os brônquios que produzem mais muco, mais catarro. Daí ao aparecimento de rinites, sinusites e bronquites, a distância pode ser muito pequena.

Por outro lado, o equipamento de ar-condicionado exige manutenção nem sempre feita no tempo oportuno e com o cuidado necessário. Por isso o filtro, que deveria assegurar a retenção das partículas nocivas à saúde, deixa de cumprir seu papel e espalha bactérias que infestam o ambiente, em geral, sem ventilação, visto que lugares fechados garantem melhor desempenho do sistema. É antológico o caso de um ministro brasileiro, vítima de infecção pulmonar provavelmente provocada pelo mau funcionamento do ar condicionado a que estava exposto.

Em prédios com instalações centrais desses aparelhos, a situação se agrava. Na Filadélfia, durante uma convenção, ex-legionários americanos foram infectados por uma bactéria, a Legionela, que se desenvolveu no ar-condicionado central do hotel e provocou a morte de muitos dos participantes. Por isso, descuidos na manutenção devem ser evitados criteriosamente.

Tenha consciência de que a nicotina é uma droga poderosa. Livrar-se dela demanda esforço e persistência, mas vale a pena tentar. Seu pulmão precisa de ajuda para sobreviver.

 

Drauzio – Na medida do possível, o ideal seria evitar o ar-condicionado, mas como suportar a temperatura elevada de certas regiões do Brasil? E o que devem fazer, nesses tempos de violência, as mulheres que dirigem com os vidros fechados e ar-condicionado ligado?

Riad Younes – Na impossibilidade de evitá-lo, é prudente deixá-lo o menos frio possível e descobrir uma maneira de umidificar o ar, se o ambiente não tiver ventilação natural. Há gente que coloca um copo com água perto do aparelho, na esperança de diminuir o ressecamento. A superfície de evaporação de um copo é muito pequena. O melhor é usar um prato ou uma bacia. Mesmo assim, o resultado será insuficiente em se tratando de um cômodo maior. Embora pareça um contrassenso, há quem abra o chuveiro e deixe o vapor inundar o aposento. Claro que isso ajuda, mas o melhor é valer-se de umidificadores mecânicos que são, sem dúvida, mais eficientes.

Em tempos de violência como os nossos, poucos se aventuram a dirigir automóveis com as janelas abertas, mesmo nos dias de calor intenso. Se o carro possui ar-condicionado, ligá-lo significa um mínimo de conforto no trânsito alucinante das grandes cidades.

Apesar de os argumentos serem irrefutáveis, o ar que se respira nessas circunstâncias é viciado e precisa de renovação. Assim, em lugares menos arriscados, é bom abrir um pouco as janelas para que haja troca de ar dentro do veículo. E mais: se o aparelho passou meses desligado, deixe-o funcionar por alguns minutos antes de entrar no carro. Assim, evitará que a poeira retida nas engrenagens e, com ela, fungos e bactérias prejudiciais ao organismo estraguem seus pulmões.

 

TRATE BEM DE SEUS PULMÕES

 

  a) Dicas para não fumantes

  • Cuide dos pulmões como cuida de qualquer outro órgão do corpo;
  • Evite extremos de qualquer natureza, especialmente extremos de temperatura. O organismo possui um sistema muito eficiente para que o ar chegue aos pulmões por volta de 37o C, pois baixas temperaturas dificultam a passagem do oxigênio para o sangue. O processo de aquecimento começa no nariz (ou na boca) e continua pelo caminho sinuoso e altamente irrigado que o ar percorre até atingir os pulmões. Chegando aos brônquios menos aquecido do que deveria, pode estimular reações como bronquite aguda ou asma que, na verdade, são estratégias de defesa do pulmão. Os brônquios reagem primeiro para preservar o pulmão de maior desgaste;
  • Evite lugares com grandes concentrações de poluentes. Se isso não for possível, use máscaras ou descubra uma forma eficiente de reduzir a quantidade de poeira que possa entrar no pulmão;
  • Afaste-se, tanto quanto possível, de infecções. Tuberculose e certas pneumonias são contagiosas; evite o risco de contraí-las;
  • Esteja atento: se o catarro produzido por sinusites e rinites crônicas for aspirado, pode causar infecções pulmonares. Busque tratamento para essas patologias.

 

b) Dicas para os fumantes:

  • Diminua o número de cigarros fumados num dia;
  • Aumente o intervalo entre um cigarro e outro;
  • Deixe o cigarro descansar mais tempo no cinzeiro. Ele estará queimando no lugar do seu pulmão;
  • Tenha consciência de que a nicotina é uma droga poderosa. Livrar-se dela demanda esforço e persistência, mas vale a pena tentar. Seu pulmão precisa de ajuda para sobreviver;
  • Não se iluda: cigarros com filtro e piteiras não livram seu pulmão das substâncias tóxicas e cancerígenas que o maltratam. Se você ainda fuma, porém, prefira-os a cigarros sem proteção alguma;
  • Acredite: cigarros de baixo teor oferecem mais perigos. Alguns estudos provaram que esses cigarros estimulam duas reações nos fumantes: aumento do consumo diário de cigarros e necessidade de tragadas mais profundas e demoradas, porque o cérebro só suspenderá a exigência de nicotina quando estiver plenamente saciado.

Sobre o autor: Maria Helena Varella Bruna

Maria Helena Varella Bruna é redatora e revisora, trabalha desde o início do Site Drauzio Varella, ainda nos anos 1990. Escreve sobre doenças e sintomas, além de atualizar os conteúdos do Portal conforme as constantes novidades do universo de ciência e saúde.

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