Entrevistas

Hepatite A | Entrevista

Transplante de fígado | Entrevista

Veja entrevista sobre o vírus hepatite A, que está presente nas fezes e sua transmissão é oral-fecal, por infecção direta ou através de objetos contaminados. 

 

As hepatites AB e C são as patologias mais frequentes entre os vários tipos de hepatite que existem. O curioso, em relação a essas doenças, é que são provocadas por vírus que pertencem a famílias completamente diferentes, mas que têm em comum a característica de agredir células do fígado.

As hepatites B e C podem ser mais persistentes. Em alguns casos, o vírus é eliminado, mas em outros permanece no organismo para sempre. Na hepatite A, a mais comum de todas, isso não acontece. O vírus adquirido provoca a doença ou uma infecção inaparente e é eliminado do organismo. Felizmente para nós, porque o risco de contrair hepatite A não é pequeno.

O vírus da hepatite A está presente nas fezes e sua transmissão é oral-fecal, por infecção direta ou através de objetos contaminados. Pode provocar sintomas como febre alta, dores articulares, dores musculares e icterícia. No entanto, grande parte das pessoas se infecta sem apresentar nenhum desses sintomas ou apresenta sintomas tão frustros que nunca fica sabendo que esteve infectada. Numa minoria de casos, porém, a evolução é atípica e a única possibilidade de tratamento é o transplante de fígado. São também raros os quadros fatais de hepatite fulminante causados pela necrose maciça das células do fígado.

 

VÍRUS DA HEPATITE A

 

Drauzio Como age o vírus da hepatite A no fígado?

Gilberto Turcato – O vírus da hepatite A é adquirido por via oral através da água ou alimentos contaminados. Ele agride diretamente o fígado e causa uma doença aguda, autolimitada, que não se cronifica, isto é, o vírus não permanece no organismo do paciente como acontece com as hepatites B e C.

 

DrauzioQue tipo de alimentos podem transmitir esse vírus?

Gilberto Turcato – Todos que contenham água. Alguns vegetais já foram descritos, como as cebolas importadas do México que provocaram um surto de hepatite A nos Estados Unidos. Classicamente, porém, frutos do mar, ostras e mariscos, por exemplo, desde que não devidamente cozidos, podem transmitir a doença.

 

Drauzio Por quanto tempo esses alimentos devem ser cozidos para inativar o vírus?

Gilberto Turcato – O cozimento tem de ser prolongado pelo menos por 20 ou 30 minutos de fervura.

 

Drauzio Não sou especialista em culinária, mas normalmente não se cozinham frutos do mar por todo esse tempo.

Gilberto Turcato – Também não sou, mas sei que eles ficam endurecidos se passarem muito tempo cozinhando. No entanto, esse é o tempo de fervura necessário para destruir o vírus.

 

DrauzioQuando você vai para o litoral, você come ostra ou marisco, por exemplo?

Gilberto Turcato – Acho que sempre devemos ter cuidado ao consumir esse tipo de alimento. Aqui, no nosso litoral, não costumo comer ostras, que são ingeridas cruas. Recentemente, porém, fui a Santa Catarina onde há fazendas de criação de ostras em alto-mar. Não sei se foi a ostra, que se come crua, ou o marisco (que é cozido), mas tive uma crise de gastrenterocolite.

 

Drauzio As ostras são alimentos com mais probabilidade de transmitir a hepatite A?

Gilberto Turcato – Transmitem mais porque são ingeridas cruas. Essas conchas filtram a água do mar para retirar dela sua alimentação. Se a água estiver contaminada por esgotos, o que é comum no nosso litoral, especialmente nas regiões mais povoadas, é grande a possibilidade de sermos infectados pelo vírus da hepatite A.

 

Drauzio – É possível apanhar o vírus da hepatite A na própria água do mar?

Gilberto Turcato – É possível não só na água do mar, mas em água doce também. Por isso, repito que para inativar o vírus da hepatite A é preciso ferver a água durante 20 ou 30 minutos.

 

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SINTOMAS DA INFECÇÃO

 

Drauzio – Quanto tempo depois de adquirido o vírus aparecem os sintomas?

Gilberto Turcato – Nem todos que pegam os vírus apresentam sintomas da infecção. Aliás, é uma minoria que tem os sintomas clássicos. É comum os sintomas serem semelhantes aos de outras infecções (febre, náuseas, enjoo, mal-estar), o que dificulta identificar a doença. Quando aparecem icterícia e dores articulares, fazer o diagnóstico fica mais fácil.

 

DrauzioQuando surgem os sintomas clássicos – febre alta, dores musculares e a icterícia que deixa os olhos amarelos – quanto tempo se passou desde o momento da infecção pelo vírus?

Gilberto Turcato – O período de incubação, isto é, do início do contágio até a apresentação dos sintomas, leva em média de duas a seis semanas.

 

EVOLUÇÃO DA DOENÇA

 

Drauzio – Você disse que a pessoa pode não apresentar sintomas ou que eles são vagos e ela continua levando vida normal e não percebe que teve hepatite. Outras vezes, os sintomas são mais acentuados. Em média, quanto tempo dura o quadro clínico e como ele evolui?

Gilberto Turcato – Em geral, o quadro se resolve espontaneamente em um ou dois meses. Algumas vezes, porém, há a possibilidade de haver uma “complicação”, ou seja, uma evolução atípica da doença que se caracteriza pela colestase, isto é, o prolongamento do período de icterícia acentuada. Também pode acontecer aquilo que se chama de recorrência da hepatite A. O paciente parece estar vencendo a infecção, mas os sintomas reaparecem e as enzimas do fígado voltam a alterar-se.

 

Drauzio Os sintomas iniciais (febre eventualmente alta, dores musculares e articulares) costumam desaparecer bem antes da icterícia?

Gilberto Turcato – Os sintomas são mais acentuados no período que antecede e no início da icterícia e duram uma ou duas semanas. Depois disso, a pessoa vai melhorando, as enzimas hepáticas começam a voltar aos níveis normais e só então a icterícia começa a regredir.

 

TRATAMENTO

 

Drauzio Quando eu era estudante, o tratamento de hepatite A era somente sintomático (como é ainda hoje), mas um dos cuidados mais importantes era manter o doente deitado enquanto durasse a icterícia e a função hepática não se normalizasse. Sempre achei essa conduta estranha porque, como você disse, em grande parte dos casos, os pacientes não apresentam sintomas nem ficam sabendo que foram infectados. Como é visto hoje o repouso na hepatite A?

Gilberto Turcato – Eu também me lembro bem dessa recomendação para a qual talvez existissem algumas explicações. A hepatite A é uma doença epidêmica, que ocorre muito em situações extremas. Nas guerras, por exemplo, observou-se que os soldados na frente de batalha evoluíam pior do que os que ficavam em repouso no hospital ou nas instalações médicas. Obviamente, nessa resposta pesavam outros fatores que não apenas o repouso, mas ele se transformou numa indicação para o tratamento da doença.

Atualmente, o repouso não é obrigatório nem tem importância maior. É claro que, quando os sintomas são desconfortáveis, a própria pessoa se impõe certo repouso, mas isso não faz parte da orientação médica nem influi na evolução da doença.
A ideia de repouso ligada ao tratamento da hepatite A ainda predomina em grande parte da população. Ao tomar conhecimento da infecção, as pessoas perguntam se terão de ficar de cama por 40 dias. Embora bastante difundida, tal conduta não tem embasamento terapêutico.

 

Drauzio – Quer dizer que você não aconselha repouso para quem tem hepatite A?

Gilberto Turcato – Não. Entretanto, toda doença aguda que traz desconforto obriga a pessoa a diminuir suas atividades quando os sintomas se manifestam mais intensos, mas não é necessário permanecer na cama e só levantar para ir ao banheiro como se recomendava antigamente.
Outra lenda que precisa ser desfeita diz respeito à importância de comer doces e sorvetes e evitar as outras comidas. Talvez pessoas com hepatite A procurem alimentos com mais açúcar porque são de mais fácil digestão. Em qualquer doença, até numa gripe um pouco mais forte, ninguém tem o mesmo apetite.

 

Drauzio Alimentos gordurosos são contraindicados nessa fase em que o fígado está funcionando mal?

Gilberto Turcato – Alimentos gordurosos trazem desconforto para o paciente, mas nada indica que tragam prejuízo para a função do fígado.

 

HEPATITE FULMINANTE E USO DE ÁLCOOL

 

Drauzio Na verdade, a hepatite A é uma doença que evolui de forma mais ou menos independente, uma vez que não existe nenhum remédio que ajude o paciente a controlá-la.

Gilberto Turcato – Não existe nenhum remédio. No entanto, é importante deixar claro que num número muito pequeno de pacientes, talvez menor do que 1%, a hepatite A pode evoluir mal e caracterizar o que se chama de hepatite fulminante, um quadro dramático em que o fígado perde toda a função e que seria necessariamente fatal se não houvesse a possibilidade de fazer um transplante de fígado, única solução para tentar salvar o paciente.

 

Drauzio O que faz a bebida alcoólica nessa fase em que as enzimas estão alteradas?

Gilberto Turcato – O álcool é uma substância que pode ser muito perniciosa para o fígado porque o agride num momento em que está inflamado. Não só na hepatite A, mas também na B e na C, dependendo da quantidade ingerida, o álcool provoca consequências graves.
Por isso, se recomenda a abstinência total do álcool durante todo o quadro de hepatite e posteriormente, quando a pessoa já se sente bem e as enzimas voltaram ao normal, por pelo menos mais três meses. Como a inflamação persiste por algum tempo, é preciso aguardar a recuperação total do órgão. Nos casos de hepatite B, o período de abstinência é maior.

 

RISCO MAIOR NA INFÂNCIA

 

Drauzio – Qual o grupo etário mais atingido pela hepatite A?

Gilberto Turcato – Como a transmissão do vírus da hepatite A se dá por via oral ou oral-fecal, ou seja, a pessoa ingere o vírus, é infectada e o elimina através das fezes, o contato pessoal ou com algum objeto contaminado é responsável pela maioria dos casos da doença. Portanto, crianças correm risco maior de serem acometidas por um surto, quer pela proximidade física que favorece o contato pessoal, quer por brinquedos ou outros objetos que passam de mão em mão. Além disso, essa é a faixa etária em que normalmente se entra em contato com o vírus.
Pessoas recolhidas em instituições fechadas, como pacientes com problemas mentais, também se enquadram no grupo de risco.

 

Drauzio Você mencionou o manuseio de objetos com forma de transmitir o vírus da hepatite A. Quanto tempo ele sobrevive no meio ambiente?

Gilberto Turcato – Não sei dizer ao certo, mas ele permanece no meio ambiente viável e com capacidade de infectar por alguns dias.

Drauzio Você disse que o vírus da hepatite A pode viver dias num ambiente. Isso cria um potencial muito grande de transmissão. Imagine uma criança com as mãos infectadas na escola ou num parque de diversões. Qual a prevalência da infecção pelo vírus da hepatite A e quantas pessoas chegam à idade adulta sabendo ou não que tiveram a doença?

Gilberto Turcato – Estatísticas de países desenvolvidos mostram que mais ou menos 60% ou 70% das pessoas adultas tiveram contato com o vírus. No Brasil, talvez o número seja um pouco maior porque, na infância, a disseminação desse vírus é mais frequente.

 

Drauzio Como se sabe que a pessoa teve contato com o vírus?

Gilberto Turcato – Através da sorologia. Existe um exame de sangue que mede anticorpos específicos para a hepatite A.

 

VACINA

 

DrauzioA vacina contra a hepatite A é eficaz?

Gilberto Turcato – O desenvolvimento dessa vacina é relativamente recente, mas ela já mostrou oferecer bom grau de proteção contra o vírus e ser bastante eficaz para impedir a evolução da doença.

 

Drauzio – Como e quando deve ser tomada?

Gilberto Turcato – Ela é recomendada a partir do primeiro ano de vida. Além de a resposta ser melhor, foge-se do período em que a carteira de vacinação está mais sobrecarregada.

 

DrauzioA vacina contra a hepatite A não está entre as vacinas obrigatórias recomendas pelo Ministério da Saúde. Por quê?

Gilberto Turcato – Provavelmente porque a hepatite A é uma doença de evolução benigna e há outras prioridades que precisam ser atendidas. O ideal, porém, é que as crianças sejam vacinadas.

 

Drauzio – Os adultos também devem receber essa vacina?

GilbertoTurcato – Dependendo da atividade, sim. Por exemplo, professores de escolas infantis em contato direto com crianças correm risco maior de adquirir a infecção, por isso merecem ser vacinados.

 

Drauzio Como é o esquema de vacinação?

Gilberto Turcato – Há duas vacinas disponíveis. Uma preconiza administrar duas doses com intervalo de seis meses. A outra requer a aplicação de três doses nesses seis meses.
Não se pode deixar de mencionar também uma vacina conjugada contra as hepatites A e B, administrada em tempo zero, um mês e seis meses depois.

 

DrauzioTem gente que toma a primeira dose, perde a data da segunda e acha que não adianta mais continuar tomando a vacina. Esse é um conceito que precisa ser revisto.

Gilberto Turcato – Na verdade, em seis meses deve-se completar o ciclo de três doses da vacina. Se a pessoa perder a data da segunda dose, poderá tomar noutro momento desde que complete a vacinação no sexto mês.

 

ORIENTAÇÕES AOS FAMILIARES

 

Drauzio Que orientações você dá aos familiares que tem uma criança com hepatite A numa casa em que além dela e dos pais moram irmãos e o avô?

Gilberto Turcato – É muito importante a família ficar sabendo que a transmissão da hepatite A ocorre através da rota oral-fecal-oral e que os cuidados de higiene são fundamentais para prevenir o contágio. É importante também ressaltar que algumas pessoas correm risco maior com a infecção aguda da hepatite A. Por exemplo, quem tem uma doença hepática crônica provocada pelos vírus B e C, quando adquirem a hepatite A, a doença se mostra muito mais grave. Para essas pessoas, assim como para aquelas que terão contato familiar com o paciente, a indicação é tomar a vacina.

 

DrauzioQuando aparece um caso na família, dá tempo de vacinar todos os familiares?

Gilberto Turcato – Normalmente dá tempo de vacinar e proteger os familiares. O problema, porém, é que o diagnóstico da hepatite A, em geral, é feito no período de maior risco de transmissão da doença e é possível que as pessoas já tenham se infectado.
Todavia, se no mesmo domicílio morar um indivíduo imunossuprimido ou em más condições de saúde, usa-se a gamaglobulina policlonal comum para fazer uma imunoprofilaxia passiva, ou seja, dar anticorpos prontos para protegê-lo contra a infecção da hepatite A.

 

Drauzio – Não valeria a pena dar gamaglobulina para a família inteira?

Gilberto Turcato – Não. Isso precisa ser muito bem pensado, além de cara, a gamaglobulina é um medicamento intravenoso que pode trazer alguns riscos e efeitos colaterais importantes.

 

CUIDADOS COM A HIGIENE

Drauzio Que cuidados uma família deve tomar para evitar a transmissão quando tem uma criança com hepatite A?

Gilberto Turcato – Deve tomar os cuidados básicos de higiene. Insistir na lavagem das mãos antes das refeições e depois de usar o banheiro é fundamental.

 

Drauzio – Os cuidados com a higiene da pessoa infectada incluem a separação da roupa de cama e dos talheres, por exemplo?

Gilberto Tucarto – O mais importante é a lavagem das mãos. A lavagem cuidadosa é suficiente para eliminar o vírus das mãos e impedir a transmissão de pessoa-pessoa. Além disso, devem ser observados os cuidados habituais de higiene. Obviamente, se houver possibilidade de contaminação grosseira, como fezes fora do vaso sanitário, a limpeza precisa ser criteriosa. Para isso se prestam os desinfetantes usados normalmente nos banheiros, como a água sanitária.

 

Drauzio – Nos casos mais graves de hepatite A, naqueles que de repente os sintomas voltam e a função hepática se altera novamente, que cuidados devem ser tomados?

Gilberto Turcato – Na verdade, são complicações desagradáveis que determinam maior tempo de evolução da doença e exige controle maior com exames e mais visitas ao médico. Entretanto, a evolução continua sendo boa porque a hepatite A não se instala cronicamente como as outras hepatites.

 

Drauzio Quem teve hepatite A pode doar sangue?

Gilberto Turcato – Diferentemente das outras hepatites, quem teve hepatite A pode doar sangue sem problema nenhum.

Sobre o autor: Maria Helena Varella Bruna

Maria Helena Varella Bruna é redatora e revisora, trabalha desde o início do Site Drauzio Varella, ainda nos anos 1990. Escreve sobre doenças e sintomas, além de atualizar os conteúdos do Portal conforme as constantes novidades do universo de ciência e saúde.

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