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Enfermagem | Entrevista



Não existe hospital que possa fazer medicina de ponta se não contar com um corpo de enfermagem homogêneo e bem preparado.

 

A maioria das enfermeiras do passado era treinada na prática da profissão. Aprendiam com as mais velhas a cuidar dos doentes e a portar-se de acordo com as normas e exigências que as circunstâncias e a ocasião exigiam. Eram mulheres abnegadas, experientes, mas com pouco preparo teórico que fundamentasse seu trabalho profissional.

No mundo moderno, enfermagem é uma carreira que exige formação universitária. Enfermeiros e enfermeiras estudam muito, fazem cursos de mestrado e doutorado, assumem postos nas universidades e exercem funções absolutamente fundamentais nos hospitais. Não existe hospital que possa fazer medicina de ponta se não contar com um corpo de enfermagem homogêneo e bem preparado.

FORMAÇÃO PROFISSIONAL

 

Drauzio – Enfermagem ainda é uma profissão predominantemente feminina?

Ivana Siqueira – Até alguns anos atrás, eu diria poucos anos, praticamente só havia mulheres enfermeiras. Atualmente, acredito que muitos homens estejam optando por essa profissão, motivados pelo fato de existir maior oferta de trabalho nos hospitais, não só no que se refere à assistência aos pacientes, mas também na área administrativa e de ambientação (serviço de recepção, lavanderia, auditoria, etc.) e nas universidades.

É importante destacar, porém, que a vocação para ser enfermeiro ou enfermeira está diretamente ligada ao cuidar dos doentes. Acima de tudo, é isso que faz as pessoas optarem por essa profissão.

 

Drauzio – Normalmente, quando os leigos pensam em enfermeiras, não fazem ideia do que as universidades exigem para preparar essas profissionais. Que matérias constam dos currículos das faculdades de enfermagem?

Ivana Siqueira – Atualmente, nos hospitais em que trabalho e de onde vem minha experiência, enfermeiros e enfermeiras estão chegando cada vez mais preparados. Nas universidades, os cursos de graduação duram quatro anos em período integral, ou seja, são quatro anos estudando o dia inteiro anatomia, fisiologia, ética, administração, farmacologia, bioquímica, estatística e fundamentos de enfermagem, tais como aplicar injeções, ministrar remédios etc.

 

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Apesar do currículo intenso e multidisciplinar, cada vez mais os profissionais da área estão procurando cursos de especialização em ostomia, terapia intensiva, administração hospitalar, urologia e ortopedia, por exemplo. Em geral, são cursos de um ano que, além de agregar conhecimento, habilitam os profissionais para ingressarem no mercado de trabalho de forma mais competitiva.

Há ainda os que se matriculam nos cursos de pós-graduação, apesar de serem poucas as universidades preparadas para oferecer esses cursos, pois a maioria não conta com mestres e doutores como parte de seu corpo docente.

De qualquer modo, o mestrado pode ser realizado em dois anos. Já para o doutorado, o prazo é de quatro anos e exige a defesa de uma tese inédita. Elaborá-la demanda um trabalho árduo porque, em geral, as pessoas estão trabalhando e estudando ao mesmo tempo.

Estou há 19 anos na profissão e acredito que ainda não terminei minha formação apesar de ter defendido tese recentemente. Acredito também que, por exigência do mercado de trabalho, os novos profissionais estão imbuídos dessa necessidade de especialização e doutorado.

 

DIFERENTES FUNÇÕES OCUPACIONAIS

 

Drauzio – Considerando sua experiência profissional de quase 20 anos, que diferença você vê entre a enfermagem de hoje e a que existia quando você se formou?

Ivana Siqueira – Atualmente, a profissão é muito mais complexa e, por conseguinte, mais complexas são as áreas educacionais que têm por objetivo preparar esses profissionais que atuam na linha de frente dos hospitais.

Ser enfermeiro é uma escolha vocacional, que não mais se restringe a cuidar dos pacientes, embora esse seja um mérito primordial e louvável. Na verdade, o conceito de humanização, individualização e hospitalidade no atendimento não basta para o exercício da profissão. É preciso agregar muito conhecimento, um requisito que vem marcando o diferencial nos hospitais.

Agora, os órgãos de saúde, a vigilância sanitária, o Ministério da Saúde estão muito mais competentes e ligados ao controle do funcionamento hospitalar. Como os enfermeiros trabalham em diversos setores dos hospitais, também participam do estabelecimento de linhas permanentes de controle para que exista uma estrutura administrativa e assistencial de qualidade. Portanto, cabe aos enfermeiros desde o cuidar assistencial até o manejo dos grupos de enfermagem que constituem quase 45% da mão de obra nos hospitais.

 

Drauzio – Quando você cita esse número, está considerando enfermeiros, auxiliares e atendentes?

Ivana Siqueira – Estou considerando enfermeiros, auxiliares e técnicos de enfermagem.  Para todas essas funções existem cursos preparatórios. Para os técnicos em enfermagem, o curso dura de um ano e meio a dois anos; para os auxiliares, um ano e para os enfermeiros é exigido curso universitário com quatro anos de duração.

Como já disse, esses profissionais elencam quase 40% da mão de obra dos hospitais. É um grupo numeroso que precisa ser administrado em termos de recursos humanos e estar motivado para seguir os padrões de atendimento ditados não só pela profissão, mas pela linha adotada pelo hospital. Quem comanda essa equipe são as enfermeiras nos vários níveis de hierarquia. Por exemplo, o serviço de higiene e limpeza é comandado por enfermeiras e falar em higiene e limpeza num hospital é falar em tecnologia, em microbiologia, em conceitos novos de bioquímica.

Se pensarmos, então, que já atravessamos tempos de economia conturbada e difícil no Brasil, dá para entender a preocupação com os custos dentro dos hospitais. Uma vez que para auditar uma conta, um prontuário é preciso entender o que neles está escrito, é preciso conhecer todos os procedimentos, muitos enfermeiros são requisitados para participar dos serviços de auditoria e estabelecem uma ponte com as seguradoras e convênios médicos e até com os órgãos públicos.

 

Drauzio – Com que outros ramos de atividade os enfermeiros de hoje podem envolver-se? 

Ivana Siqueira – Outro campo de atividade está nos serviços domiciliares, no home care, ou enfermagem domiciliária. Esse novo nicho profissional tem sido aproveitado também por médicos, fisioterapeutas, fonoaudiólogas e até por psicólogas. As vantagens estão na diminuição de custos (costuma ser mais barato manter um doente com assistência em casa do que no hospital), na proximidade do paciente com a família que consegue retomar pelo menos parte de suas atividades cotidianas e na diminuição do risco de infecções hospitalares. Paciente internado há muito tempo está, sem dúvida, mais exposto a infecções. A soma de todas esses quesitos torna o tratamento domiciliar mais agradável e potencialmente de boa qualidade.

Os enfermeiros têm auxiliado a retirar o paciente mais cedo do hospital e a preparar sua ambientação no lar. Eles ensinam os familiares a cuidar dessas pessoas em casa, embora estejam disponíveis também recursos e infraestrutura especializados oferecidos pelas empresas de home care.

 

O CUIDAR DO DOENTE

 

Drauzio – Sempre digo que o padrão de atendimento médico nos hospitais é dado pela enfermagem muito mais do que pelos médicos. Nós passamos com o doente em média quinze minutos por dia e os enfermeiros, a noite e o dia todo. Você acha que a profissão também evoluiu no sentido de cuidar do paciente, o que na minha opinião é a essência da profissão enfermagem?

Ivana Siqueira – Acho que evoluímos muito em várias áreas sem perder a vocação de cuidar das pessoas. Sempre digo para as enfermeiras que trabalham comigo, que somos as zeladoras de nossas unidades. Os médicos cuidam bem do paciente, mas vão embora e ele fica sob os cuidados do grupo de enfermagem. Nossa participação é grande no que se refere ao conhecimento de suas individualidades e das de seus familiares.

Seguir a orientação dos médicos e saber quais são as prescrições em termos de horários para adaptá-los ao ambiente hospitalar, tratamento, remédios, doses, hidratação, jejum, exames é responsabilidade dos enfermeiros. Na verdade, os hospitais contam com farmacêuticos, mas eles não convivem com os pacientes e somos nós que fazemos a intermediação com eles e com outros profissionais.

Hoje é dia de suspender tal remédio? Podemos adiantar o horário do banho? O paciente tem-se locomovido pouco, não seria bom chamar o fisioterapeuta? A alimentação não está adequada para esse paciente, é bom entrar em contato com a nutricionista – são situações do cotidiano hospitalar resolvidas pela enfermagem. Atualmente, as equipes de trabalho são numerosas e multiprofissionais e cabe às enfermeiras alavancar os outros profissionais para participarem de forma atuante no tratamento dos pacientes.

 

Drauzio – Não se pode esquecer de que cabe a elas distribuir o tempo do doente para que ele faça todos os exames pedidos pelo médico naquele dia.

Ivana Siqueira – De fato, a administração desse tempo acaba sendo feita pela enfermeira. Como é sua função intermediar os serviços, ela entra em contato com os outros setores do hospital para agendar exames e requisitar serviços de outros profissionais sempre tentando respeitar a individualidade do paciente. Por isso, precisa conhecê-lo bem e essa proximidade pessoal nunca vai ser superada por maiores que sejam os avanços tecnológicos.

Uma visita do grupo de enfermagem ao paciente, se possível conjuntamente, ajuda a conhecê-lo melhor e a descobrir seus desejos e necessidades. Como essa conversa nunca é jogada fora, é preciso reservar um tempo na agenda corrida do dia a dia para um bate-papo.

 

CONHECIMENTOS NECESSÁRIOS

 

Drauzio – O conhecimento específico é cada vez mais necessário para o bom desempenho profissional da enfermagem. Em grande número de prescrições feitas pelos médicos, está escrito “se necessário”, e quem vai julgar a real necessidade do medicamento é a enfermeira que precisa estar preparada para tomar essa decisão.

Ivana Siqueira – As enfermeiras têm que saber examinar os pacientes, saber auscultar, percutir o abdômen, avaliar a dor que estão sentindo. Hoje, existem réguas que tentam quantificar o nível da dor para obter números referenciais e comparativos; existem escalas que dão ideia do estado mental do paciente, de sua capacidade de locomoção e de como desenvolve as atividades diárias. Esses artefatos ajudam e o profissional de enfermagem deve utilizá-los, mas eles não substituem o conhecimento que precisam dominar.

 

Drauzio – Além desse conhecimento geral, há conhecimentos específicos como os necessários pra cuidar das ostomias, que você já citou. É o caso do paciente que fez um colostomia, ou seja, uma cirurgia em que um pedaço do intestino fica ligado à pele do abdômen e usa bolsas que, muitas vezes, irritam a pele se não forem cuidadas por pessoal especializado. Os enfermeiros saem da faculdade preparados para essas situações?

Ivana Siqueira – De forma muito geral. Atualmente, algumas faculdades dispõem de cursos de especialização para cuidados com os ostomizados. São cursos de seis a oito meses de duração que preparam enfermeiros para cuidar de ostomias, ou seja, de verdadeiras bocas que exteriorizam as alças intestinais ou o tubo urológico, no caso de pacientes com tumores na bexiga ou na uretra. Os cuidados com esses pacientes são extremamente especializados e têm a ver com a preservação do indivíduo contra agentes infecciosos. Existem muitos dispositivos no mercado, alguns muito caros, mas é preciso saber como utilizá-los e como escolher o melhor para cada situação.

 

Drauzio – Há outras áreas que exigem enfermagem especializada?

Ivana Siqueira – Outra área crescente é a dos curativos. Antigamente, todos faziam curativos. Bastava prestar atenção em alguns cuidados primordiais. Hoje, o curativo passou a exigir a presença de profissionais especializados no tratamento de feridas, como as úlceras de pressão, as famosas escaras, que podem aparecer nos pacientes que ficam acamados por muito tempo. Trata-se de uma área bastante complexa e, muitas vezes, enfermeiro especializado e dermatologista levam meses cuidando de uma perna com ferida, do pé de um diabético ou de uma úlcera de pressão na região sacra.

Além disso, o desenvolvimento da oncologia exigiu a especialização também dos enfermeiros. Administrar um quimioterápico é quase uma ciência e requer conhecimento sobre os protocolos médicos utilizados, nos quais se conjugam drogas específicas e agentes anti-heméticos (remédio contra os vômitos), analgésicos, etc. E mais: durante a aplicação da quimioterapia é preciso avaliar o estado geral dos pacientes que, muitas vezes, estão até monitorizados por aparelhos.

 

CONTROLE DAS INFECÇÕES HOSPITALARES

 

Drauzio – O controle das infecções no hospital também é parte inerente da profissão das enfermeiras.

Ivana Siqueira – À medida que o tempo vai passando, mais “bichinhos” são descobertos e mais resistentes eles ficam, porque os antibióticos estão aí, à venda nas farmácias e, muitas vezes, sendo usados de maneira errada e sem critério.

No entanto, algumas medidas simples podem ser adotadas para o controle das infecções hospitalares. A lavagem de mãos é procedimento prioritário nesse controle. Todo profissional consciente do ramo da saúde que lava as mãos está contribuindo para evitar que a infecção hospitalar se dissemine.

Outra medida importante é o uso de máscaras e de luvas, artefatos comuns e baratos, que ajudam a prevenir infecções. As máscaras protegem o doente que pode estar imunossuprimido e o próprio profissional da saúde. Com o advento da aids, as luvas passaram a ser mais utilizadas, mas há ainda profissionais que resistem argumentando que elas comprometem o tato.

Tudo é questão de treinamento e de consciência. As luvas protegem o profissional não só contra a aids, mas contra a infecção pelos vírus das hepatites e de outras doenças contagiosas. Elas evitam o contato com o agente biológico presente em excreções e secreções, como sangue e derivados, fezes, urina.

Por fim, os aventais constituem outro recurso elementar no controle de infecções de pele como catapora ou herpes-zóster disseminado pelo corpo dos mais idosos ou dos imunossuprimidos. O avental impede o contato com a roupa de cama ou com as vestes do doente e a transmissão de micro-organismos patológicos para outros pacientes.

 

Drauzio – Seguramente, a lavagem das mãos ainda é o procedimento isolado mais importante.

Ivana Siqueira – Lavar as mãos com água e sabão nos hospitais, consultórios ou em casa ainda é o recurso mais simples e eficiente para prevenir infecções, sejam hospitalares ou domésticas.

 

DESINFECÇÃO DO AMBIENTE

 

Drauzio – E os cuidados gerais com a desinfecção do ambiente hospitalar?

Ivana Siqueira – Álcool a 70% é um agente importante e barato para a desinfecção das superfícies em hospitais. Quando a desinfecção precisa ser mais acentuada, como é o caso dos inaladores, de algumas fibras endoscópicas ou dos serviços de alta rotatividade, empregamos o glutaraldeído ou outros agentes químicos quaternários.

Não só nos hospitais, mas nos consultórios e cabeleireiros, a preocupação existe e os materiais são esterilizados em estufa. O óxido de etileno, que é um gás, permite a esterilização em alto nível e extermina com todos os agentes possíveis, com qualquer tipo de vida que possa existir.

 

FUTURO DA PROFISSÃO

 

Drauzio – Como você vê o futuro da enfermagem?

Ivana Siqueira – A enfermagem não é uma profissão com perspectivas apenas para o futuro. Já neste momento, é uma profissão para a qual existe campo de trabalho para homens e mulheres, pois deixou de ser uma atividade meramente feminina e os homens estão sendo bem recebidos no mercado de trabalho.

Os hospitais estão sempre contratando enfermeiros, mas a área da educação, que está crescendo muito também, passou a absorver parte desses profissionais. Na verdade, a participação dos enfermeiros tem sido importante para a construção da qualidade da saúde em nosso país.

Para mim, enfermagem é uma profissão bonita, que traz muito prazer para as pessoas com vocação para cuidar de outras. Quando agregada de conhecimento, é uma das profissões que mais oferecem retorno diário porque é possível acompanhar de perto a evolução dos pacientes.

 

 

Sobre o autor: Maria Helena Varella Bruna

Maria Helena Varella Bruna é redatora e revisora, trabalha desde o início do Site Drauzio Varella, ainda nos anos 1990. Escreve sobre doenças e sintomas, além de atualizar os conteúdos do Portal conforme as constantes novidades do universo de ciência e saúde.