As estruturas do corpo humano que dão suporte à fala sofrem desgaste, por isso é importante tomar alguns cuidados com a voz.

 

* Edição revista e atualizada.

 

Para haver emissão da voz, o ar inspirado que entrou pelas narinas ou pela boca e chegou aos pulmões tem que fazer o caminho de volta no sentido ascendente e percorrer a laringe. É nesse órgão que se localizam as cordas vocais, pregas que se afastam ou se aproximam com a passagem do ar e produzem o som.

Outras áreas do nosso corpo — faringe, boca, língua, dentes e nariz — estão envolvidas no processo da voz. Elas nos ajudam a produzir todos os fonemas vocálicos e consonantais com os quais formamos sílabas, palavras, frases, textos para comunicar o que pensamos e sentimos.

Como as impressões digitais, a voz é uma característica individual que não se repete idêntica em nenhuma outra pessoa. Por razões diversas, há vozes parecidas; mas absolutamente iguais, nunca. Nossa voz é nossa marca.

 

A VOZ E SEU DONO

 

Drauzio Por que as pessoas têm vozes diferentes?

Maria Aparecida Coelho – Do ponto de vista físico, o processo de produção da voz é igual para todos. Respiramos, o ar vai para os pulmões e na volta encontra as cordas vocais que vibram com sua passagem e produzem um som.  Ao percorrer as cavidades de ressonância, que são diferentes de um indivíduo para outro, esse som adquire as características peculiares da voz de cada um.

Entretanto, o tipo de educação e a convivência com outras pessoas também ajudam a moldar a voz. Por isso, é comum encontrar vozes parecidas dentro da mesma família. Nesse caso, estão associados fatores genéticos e ambientais. “Todo o mundo confunde a minha voz com a da minha mãe ou com a da minha irmã” é um comentário que ouvimos muitas vezes.

Existem casos, porém, de pessoas não consanguíneas que têm vozes parecidas. É frequente o fenômeno ocorrer com pais e filhos adotivos, ou mesmo com amigos, porque a voz também vai sendo moldada com a convivência. Esse processo que ajuda a moldar nosso comportamento, nossos gestos e nossa voz aos do interlocutor, sempre que há empatia com outra pessoa, chama-se “convergência”.

 

DrauzioMuitas vezes, não é só o jeito de falar, o timbre da voz também vai ficando semelhante…

Maria Aparecida Coelho – Fica semelhante porque há uma busca de sintonia, de ressonância entre as pessoas. Por exemplo, quando conversamos com alguém que fala baixinho e existe empatia entre nós, é comum baixarmos o tom da voz, como sinal de que estamos entendendo o que diz, gostamos dele e queremos que continue falando. De certa forma, esse mecanismo é inconsciente e seu objetivo é mostrar que estamos ali, em sintonia e pretendemos continuar conversando.

 

DrauzioNossa voz é diferente das outras porque anatomicamente somos diferentes e únicos na natureza e porque, na emissão da voz, entram fatores como personalidade e estado de espírito, por exemplo.

Maria Aparecida Coelho – Tudo isso nos ajuda a compor um conjunto, a nossa voz, que é única, individual e, como as impressões digitais, um elemento de identificação.

Na verdade, a voz não depende só de fatores biológicos e genéticos. Como a comunicação é um comportamento aprendido, ou seja, como dependemos de ouvir outras pessoas falando para desenvolver nossa própria comunicação, essa influência externa tem peso muito grande. Assim como a língua materna, outros elementos da comunicação, como o timbre de voz, o ritmo, as curvas melódicas e a maneira de articularmos as palavras, são aprendidos e desenvolvidos, em grande parte, graças a essa exposição. Além disso , nossa comunicação também recebe forte influência do estado emocional e de fatores como personalidade, temperamento e caráter. O conjunto de situações a que fomos expostos ao longo da vida e a forma como aprendemos a reagir a essas situações, também deixarão sua marca em nossa comunicação.

 

ESPELHO DAS EMOÇÕES

 

DrauzioO especialista em voz é capaz de reconhecer algumas características da pessoa em função da qualidade da voz?

Maria Aparecida Coelho – O especialista não é infalível; é humano e pode errar. Mas, como os antigos bons mecânicos que pelo som do motor reconheciam o defeito do automóvel, o especialista em voz é capaz de reconhecer uma pequena patologia, deslize ou disfunção vocal, assim como é capaz de identificar alguns traços de personalidade e de caráter. Vou mais longe. Não é só o especialista em voz. De certo modo, acho que todos fazemos isso, ainda que inconscientemente. Falando pelo telefone, ou ouvindo alguém no rádio, nos primeiros cinco minutos, construímos a imagem daquela pessoa e, com alguma chance de acertar, conseguimos arriscar palpites sobre sua personalidade, nível cultural e socioeconômico.

 

DrauzioO estado de espírito transparece num instante. A pessoa atende o telefone e pelo jeito de falar alô percebemos que está triste naquele dia.

Maria Aparecida Coelho – O tipo de entonação com que essas três letrinhas da palavra alô foram pronunciadas basta para revelar se a pessoa está brava, triste ou chateada. No entanto, é preciso ter ouvidos sensíveis para captar esses sentimentos.

 

TIPOS DE VOZ

 

Drauzio – O que faz uma voz ser agradável ou desagradável?

Maria Aparecida Coelho – Não existe modelo de voz bonita. As vozes têm de ser bem-vindas ao ouvido que deve recebê-las de forma amena, sem choques nem batidas.

 

Drauzio – Quais são as vozes que agridem?

Maria Aparecida Coelho – Vozes mais estridentes, metálicas e mais infantis, ou carregadas de raiva e tensão, costumam agredir os ouvidos. As mais relaxadas e graves, em geral, são mais bem aceitas. No entanto, é preciso saber que há sempre uma alternativa para tornar a voz mais bem-vinda ao ouvido.

 

DrauzioQuando comecei a fazer campanhas educativas na rádio Jovem Pan, estava  ouvindo uma gravação ao lado de um sonoplasta, um senhor com muita experiência no ramo, e percebi que minha voz era nasalada. Perguntei-lhe, então, o que poderia fazer para melhorá-la. “Nada”, disse ele. “Tem gente que nasce com voz bonita; tem gente que nasce com voz feia. A sua voz não é boa para o rádio” e encerrou o assunto. A voz é uma dádiva da natureza que não pode ser mudada?

Maria Aparecida Coelho – Sou radicalmente contra esse ponto de vista. Mesmo em condições biológicas desfavoráveis da laringe, sempre é possível encontrar um jeito de amenizar a voz e fazê-la ganhar algumas características positivas. É claro que quanto melhores forem as condições da laringe, mais espaço terei como fonoaudióloga para trabalhar. Existem, por exemplo, manobras que ajudam a reposicionar a laringe, o que permite que a voz soe mais agradável.

Se a voz é nasalada ou metálica, há como atenuar essas características com exercícios de foco ressonantal. No caso específico do rádio e da TV, assim como no de outros profissionais da voz, costumamos obter resultados muito bons, porque, em geral, eles percebem de imediato o impacto positivo que a melhora da voz pode ter em seu trabalho.

 

Veja também: Artigo sobre identificação de vozes entre disléxicos

 

INFLUÊNCIA DA PERSONALIDADE

 

DrauzioVocê disse que a personalidade influi muito na voz. Quais seriam as principais características  da voz de uma pessoa ansiosa e de uma pessoa autoritária?

Maria Aparecida Coelho – Geralmente, as características mais marcantes das pessoas ansiosas são velocidade ao falar (elas falam muito rápido e quase não dão tempo para o outro falar), ausência praticamente total de pausas durante a fala e certa incoordenação pneumofônica, ou seja, entre a respiração e a fala, uma vez que precisamos nos abastecer de ar para distribuí-lo pelas frases até voltarmos a respirar novamente. Essa tomada de ar, que deve ser brevíssima para garantir a coerência e a continuidade do que está sendo dito, nas pessoas ansiosas, é abrupta, intensa e, muitas vezes, audível, o que perturba a fluidez da conversa.

Já as pessoas autoritárias e dominadoras, em geral, produzem vozes mais graves e mais colocadas. Falam sem abrir muito a boca, mas com articulação firme e pouca expressão facial para tornar menos provável a intervenção do interlocutor.

Pessoas mais tímidas, submissas ou introvertidas falam baixo e o timbre é, geralmente, mais agudo. O mais interessante é que muitas dessas características como voz aguda, fraca demais, ou fala lenta, podem representar uma adaptação do passado. Em outras palavras: algumas características que observamos hoje em  nossa voz representam o que conseguimos obter em termos adaptativos ao longo da existência, com as estratégias às quais tivemos acesso, em algum período da vida.

Assim, a voz que temos hoje pode ser resultado de estratégias obsoletas e pode, inclusive,  não nos representar. Quando isso acontece, ou seja, quando sentimos que nossa voz não nos representa, é hora de buscar ajuda especializada. Há muito o que fazer para ajustar as características da voz com as características pessoais e profissionais.

 

VOZ: DA INFÂNCIA À VELHICE

 

DrauzioO que acontece com a voz no decorrer da vida, desde a infância até a velhice?

Maria Aparecida Coelho – A laringe, órgão que produz  a voz, não está pronta quando a criança nasce. Está semipronta. Durante a infância, vai se desenvolvendo, mas só amadurece totalmente na adolescência, quando ocorre a mudança de voz, que deixa de ser infantil e adquire as características próprias do adulto.

Nessa fase, pode ocorrer um certo descompasso, principalmente nos homens. Por ação dos hormônios, a laringe cresce bastante e as pregas vocais ficam maiores, mais espessas e mais pesadas. Portanto, vibram mais devagar e produzem sons mais graves. Além disso, tem de haver uma acomodação entre a musculatura do pescoço e a laringe, que precisa descer verticalmente e posicionar-se mais embaixo. Isso leva tempo. Laringe alta no pescoço, como é na infância, pode gerar voz muito fina, desafinada. Esse desacerto incomoda muito os adolescentes, que sofrem nesse período e, por vergonha, evitam falar em público. Depois, a voz entra num processo de estabilização e permanece assim até a terceira idade, quando pode mostrar sinais de envelhecimento como a pele e o cabelo.

 

Drauzio Quais são os sinais do envelhecimento que se manifestam na voz?

Maria Aparecida Coelho – A voz fica mais cansada, digamos, e a pessoa perde um pouco da potência vocal. Antes, podia falar numa sala, por exemplo, para ser ouvida por quarenta e cinco pessoas, naturalmente. Mais tarde na vida, essa atividade demandará  maior esforço vocal.

Outra característica é que, na terceira idade, a voz das mulheres tende a ficar mais grave e a dos homens, mais aguda. Com o passar dos anos, porém, a tendência é o timbre se aproximar e quase não haver diferença entre as vozes dos idosos.

 

TRATAMENTO FONOAUDIOLÓGICO

 

DrauzioVamos imaginar que uma pessoa com voz estridente ou grossa demais, ou com dificuldade de articulação dos sons procure uma fonoaudióloga. Como se desenvolve o trabalho?

Maria Aparecida Coelho – Considerando que a pessoa não apresente nenhuma patologia nas cordas vocais e que tudo nelas esteja normal, é preciso identificar qual será a demanda vocal  dessa pessoa para adequar a abordagem do tratamento a suas necessidades específicas. Por exemplo, faz diferença saber se é um professor que vai usar a voz em sala de aula para muitos alunos ou se é uma telefonista que só fala ao telefone.

A seguir, é feita uma avaliação dos principais parâmetros a serem abordados e são testados e introduzidos os exercícios vocais. Por exemplo, a vibração da língua para pronunciar o /r/ sonorizado – rrrrrrrrrrrrrrrrr — massageia as cordas vocais  e ajuda a projetar a voz. Além dessa técnica, há inúmeras outras com o mesmo princípio, que podem ser utilizadas.

Algumas pessoas não articulam bem as palavras. Não é que falem errado, apenas falam sem mexer muito a boca, o que pode distorcer alguns sons, especialmente os que são soprados, como o /s/ e o /x/. Nesse caso, elas fazem exercícios com esses fonemas isolados para perceberem qual o movimento exato que terão de fazer com a boca para a produção desses sons. Só depois passam para as sílabas, palavras e frases que contêm esses fonemas.

É bom lembrar que sons mal articulados exigem maior atenção do interlocutor, que pode se desinteressar pelo assunto por causa disso. Aliás, nos últimos tempos, um  novo grupo tem recorrido aos cuidados do fonoaudiólogo. Ele é constituído por pessoas sem patologias vocais, que gostariam de aprimorar sua comunicação de modo a expressar melhor seu conhecimento técnico. São médicos, engenheiros, executivos, entre tantos outros, que dominam perfeitamente seu campo de trabalho, mas perdem pontos na hora de compartilharem esse conhecimento em público. Por conta dessa demanda, vários fonoaudiólogos vêm ministrando treinamentos  e/ou coaching de comunicação com resultados extremamente positivos.

 

DrauzioQuais são os distúrbios de voz mais fáceis e mais difíceis de serem corrigidos nas pessoas normais, sem nenhuma patologia anatômica?

Maria Aparecida Coelho – É mais fácil corrigir o volume de voz de uma pessoa que fala alto do que o de uma pessoa que fala baixinho, porque esse é um parâmetro vocal relacionado com a personalidade e com o padrão de voz ouvido durante a vida inteira. Embora seja sempre possível conseguir um ganho, é improvável que ela passe a falar alto. Normalmente, o trabalho com pessoas que falam baixo visa à melhora da ressonância vocal, à abertura das cavidades oral e nasal e à amplitude da articulação para que a comunicação seja clara apesar do som mais fraco, uma vez que ser compreendido é a finalidade primeira de quem procura ajuda.

 

DrauzioO trabalho não se restringe à voz, mas engloba a articulação da palavra como um todo?

Maria Aparecida Coelho – Se o trabalho focalizar exclusivamente a dificuldade maior da pessoa, pode não evoluir satisfatoriamente. Embora se procure sempre melhorar essa dificuldade, outras habilidades podem ser desenvolvidas e trazem sempre algum ganho para o paciente.

 

Drauzio – Quais são as vozes que mais se beneficiam com o tratamento?

Maria Aparecida Coelho – São as vozes masculinas que, durante a muda vocal na adolescência, passaram por alguns deslizes e não se acomodaram como deveriam. São homens que ficaram com voz de “taquara rachada” apesar de possuírem laringe absolutamente normal e apta para produzir um som bonito. Nesse caso, a mudança pode ser tão grande que, às vezes, o paciente experimenta certo constrangimento ao usar a nova voz, quase sempre grave e sonora, nos locais que frequenta habitualmente.

 

CUIDADOS COM A VOZ

 

DrauzioO que faz bem e o que faz mal para a voz?

Maria Aparecida Coelho – A voz é grata a qualquer cuidado mínimo que se tenha com ela. Como é fruto de atividade muscular, sua produção demanda um gasto energético muito grande, especialmente para os profissionais de alta performance vocal.

Três regras, portanto, devem ser especialmente respeitadas por aqueles  que usam a voz profissionalmente: sono, nutrição e hidratação.

É durante o sono que as fibras musculares relaxam e se regeneram,  ficando aptas para o uso intenso novamente. Portanto, respeitar um período  de sono restaurador  e o intervalo entre as performances vocais aumenta muito a longevidade vocal.

Optar por uma alimentação balanceada, composta por  fibras, frutas e verduras em quantidade adequada, é de grande valia, também. Maçã é uma fruta frequentemente recomendada  para os profissionais da voz, porque tem efeito adstringente, graças à pectina, presente em sua composição.  Apesar de não ter o poder de melhorar diretamente a voz, ela é benéfica porque atua “ limpando” a faringe e “estimulando” a musculatura mastigatória, que é a mesma que usamos para falar.

Finalmente, como todo trato vocal é revestido por mucosas, manter a umidade é essencial. A hidratação sistêmica, por meio de ingestão de água ao longo do dia, assim como a hidratação tópica pela inalação de soro fisiológico também são bons coadjuvantes para saúde vocal.

Além disso, é sempre bom  lembrar que não se deve maltratar a voz pelo uso intensivo e desnecessário, nem se deve gritar ou falar em ambientes ruidosos e enfumaçados.

 

Drauzio E fazer gargarejos também ajuda?

Maria Aparecida Coelho – Os gargarejos são paliativos. Têm sua função, quando a pessoa está com dor de garganta, com faringite. Gostaria de chamar atenção para o uso rotineiro  de chás, como os de romã ou de gengibre, e para essas frutas que, às vezes, são apresentadas como benéficas para a voz. É preciso lembrar que nem os chás nem as frutas passam pelas cordas vocais e é bom que não passem. Como vão direto para o esôfago e o estômago, o teor de acidez que contêm pode provocar distúrbios nesses órgãos. Se a pessoa quer caprichar nos cuidados com a voz, o melhor é recorrer à velha receitinha caseira de gargarejo com água e sal, ou simplesmente fazer um gargarejo  com a água do chuveiro depois de uma noite bem dormida. O contato da água morna com a mucosa melhora a circulação sanguínea na região, favorecendo uma boa produção vocal.