Ser magro não significa, necessariamente, estar livre de problemas de saúde. Embora muita gente ainda associe magreza a bem-estar, avaliar o peso de forma isolada não revela alterações no organismo.
Essa associação não é novidade. Ao longo do tempo, a magreza passou a ser ligada à disciplina e ao autocuidado, um padrão que hoje se reforça nas redes sociais, frequentemente com foco maior na aparência do que na saúde.
“Mulheres e adolescentes sofrem mais com essa pressão estética, o que pode distorcer a percepção sobre o que é estar saudável. Em pessoas magras, isso pode tornar invisíveis doenças que não apresentam sinais visíveis e gerar expectativas irreais em relação ao próprio corpo”, explica Isadora Vianna Fernandes, médica de família e comunidade e diretora da Sociedade Brasileira de Medicina de Família e Comunidade (SBMFC).
Magro por fora, com excesso de gordura por dentro
Nem todo corpo magro é metabolicamente saudável. Na prática, algumas pessoas consideradas magras pelo IMC (índice de massa corporal) podem ter uma composição corporal desfavorável: maior acúmulo de gordura visceral, localizada na região abdominal e associada a maior risco cardiovascular, e menor quantidade de massa muscular.
Esse perfil é conhecido como TOFI, sigla em inglês para thin outside, fat inside (magro por fora, com excesso de gordura por dentro). Apesar da aparência dentro do padrão considerado saudável, o organismo pode apresentar alterações metabólicas importantes.
“São indivíduos aparentemente saudáveis, mas metabolicamente doentes. A distribuição da gordura no corpo tem mais impacto sobre o risco de doenças do que o peso isolado”, afirma Fernanda Salles Reis, endocrinologista do Hospital Sírio-Libanês de Brasília.
Doenças “silenciosas”: quando os sinais não aparecem no espelho
Estar dentro do peso não elimina riscos ao organismo. Algumas doenças podem se desenvolver de forma silenciosa, sem mudanças visíveis na aparência. De modo geral, pessoas com IMC dentro da faixa considerada normal podem apresentar condições como:
- Resistência insulínica e diabetes tipo 2
Alterações na glicemia podem ocorrer de forma silenciosa, sem sintomas claros no início. A resistência à insulina só é identificada por exames e pode aumentar o risco de evolução para diabetes.
- Dislipidemia
Níveis alterados de colesterol e triglicerídeos podem ocorrer independentemente do peso, inclusive em pessoas com IMC dentro da faixa normal. Sem sintomas evidentes, essa condição eleva o risco cardiovascular ao longo do tempo.
- Hipertensão arterial
A pressão alta pode se desenvolver sem relação direta com o peso e permanecer sem sintomas por anos.
- Esteatose hepática
Conhecida como gordura no fígado, a esteatose hepática geralmente é uma condição silenciosa que pode evoluir e comprometer a função hepática se não for identificada por exames de imagem ou dosagem de enzimas hepáticas.
- Deficiências nutricionais
Uma alimentação desequilibrada, mesmo sem excesso de calorias, pode levar à falta de nutrientes essenciais como ferro, vitaminas B12 e D.
- Síndrome metabólica
Trata-se de um conjunto de alterações, como aumento da glicose, pressão e gordura abdominal.
- Osteopenia e osteoporose
Baixo peso e ingestão insuficiente de nutrientes podem afetar a densidade óssea. Muitas vezes, essas alterações só são percebidas após exames específicos ou fraturas.
- Sarcopenia
A perda ou baixa quantidade de massa muscular pode ocorrer mesmo em pessoas magras, especialmente com sedentarismo. Essa condição impacta o metabolismo e pode aumentar o risco de fragilidade óssea e doenças crônicas.
- Doenças cardiovasculares
A hipertensão e o acúmulo de placas de gordura nas artérias podem se desenvolver sem sintomas no dia a dia. Essas condições podem evoluir para problemas cardiovasculares, como infartos e AVCs.
A importância de exames preventivos e acompanhamento médico
Avaliar se uma pessoa magra está realmente saudável exige ir além do peso corporal. Nesse contexto, alguns exames são fundamentais para identificar alterações que não aparecem na balança.
Entre os principais estão os exames laboratoriais, como hemograma, glicemia de jejum e hemoglobina glicada, colesterol total e frações, triglicerídeos e lipoproteína (a). Também entram nessa avaliação a ureia e a creatinina, que analisam a função renal, além das enzimas hepáticas TGO e TGP, importantes para o fígado.
Além disso, medidas clínicas simples fazem diferença, como avaliação da circunferência abdominal e a aferição da pressão arterial. Em alguns casos, o ultrassom de abdome pode ser indicado para investigar a presença de gordura no fígado.
Genética, hábitos e estilo de vida também entram na conta
Os hábitos de vida têm papel decisivo na saúde, independentemente do peso. Alimentação equilibrada, prática regular de atividade física, vacinação em dia, uso de preservativos e evitar substâncias nocivas ajudam a reduzir riscos.
“A saúde deve ser entendida de forma ampla, envolvendo não só indicadores clínicos e metabólicos, mas também a rotina, a saúde mental e o contexto social e familiar”, destaca Isadora Vianna.
Por outro lado, sedentarismo, uso indiscriminado de suplementos ou medicamentos, privação de sono, tabagismo, consumo de álcool e sofrimento emocional podem comprometer o organismo mesmo em pessoas magras.
A genética também influencia a saúde. Mesmo que glicemia, pressão e colesterol estejam normais, ter histórico familiar de doenças cardiometabólicas aumenta o risco ao longo do tempo.
“Muitas dessas condições evoluem de forma silenciosa e, em alguns casos, só são diagnosticadas após eventos graves, como um infarto. Por isso, a importância de exames preventivos”, finaliza Fernanda Salles.
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