Como se a dengue fosse pouco, bate à porta o vírus chikungunya, transmitido pelo mesmo mosquito.

Em dezembro de 2013, aconteceu um surto de febre chikungunya na ilha de Saint Martin, que se espalhou para outras ilhas do Caribe e para as Américas Central e do Sul. Oito meses mais tarde, a Organização Mundial da Saúde confirmava um total de 576 mil casos nas Américas, o dobro do mês anterior.

No Brasil, o Ministério da Saúde contabilizou 337 casos no dia 11 de outubro de 2014, número que saltou para 824 em duas semanas, distribuídos principalmente entre Oiapoque (330 casos), no Amapá, Feira de Santana (371 casos) e Riachão do Jacuípe (82 casos), na Bahia.

A disseminação rápida é atribuída à ausência de imunidade na população e à distribuição dos mosquitos-vetores capazes de transmitir o vírus: Aedes aegypti e Aedes albopictus, os mesmos da dengue.

Chikungunya é um arbovírus descrito em 1952, numa epidemia na Tanzânia. O nome veio da língua Kimakonde, com o significado de “homem que anda arqueado”, referência às dores articulares da enfermidade.

Como a história da dengue e da febre amarela, a do chikungunya é indissociável do comportamento humano. O aquecimento e a seca que assolaram o norte da África há cinco mil anos, forçaram espécies ancestrais de Aedes arbóreos a adaptar-se aos ambientes em que os homens armazenavam água.

Assim, o Aedes aegypti se desenvolveu como uma subespécie dependente do nicho ecológico criado por agrupamentos humanos. Iniciado há 500 anos, o tráfico de escravos africanos se encarregou de espalhar pelo mundo o mosquito e os vírus que o infectavam.

A partir de então, dengue, febre amarela e chikungunya causaram epidemias nos cinco continentes.

A febre chikungunya, que emergiu na África, chegou à Ásia e às Américas há dois ou mais séculos, provocando uma epidemia em Jacarta, em 1779, e pandemias em diversas partes do hemisfério ocidental, na década de 1820.

Tradicionalmente, esses surtos foram atribuídos à dengue, uma vez que o vírus chikungunya só foi reconhecido a partir dos anos 1950.

Ao contrário da dengue, no entanto, em que o número de infecções assintomáticas é pelo menos três ou quatro vezes maior do que as sintomáticas, a infecção pelo chikungunya causa doença em 72% a 95% das pessoas picadas pelo mosquito infectado.

Depois de um período médio de incubação de três a sete dias, surgem: febre alta (acima de 39ºC) de início abrupto, cefaleia, dores musculares, conjuntivite, náuseas, vômitos e vermelhidão pelo corpo. Mas, o que predomina são as dores articulares, debilitantes, que acometem simetricamente diversas juntas, especialmente as das mãos e pés.

Uveíte, retinite, hepatite, miocardite, meningoencefalite e bolhas na pele são complicações mais raras.

O quadro evolui para a cura em sete a dez dias. Mortes são eventos muito raros, restritos aos mais velhos debilitados por doenças como diabetes, enfisema, insuficiência cardíaca e outras.

O diagnóstico é confirmado por exames de sangue (cultura viral, RT-PCR ou IgM).

Não existem medicamentos específicos para atacar o vírus. O tratamento é paliativo: repouso, hidratação oral ou intravenosa, analgésicos e antipiréticos.

O problema maior com o chikungunya são as dores articulares, que não se limitam apenas à fase aguda; podem persistir por meses ou anos. Estima-se que um ano mais tarde, de 20% a 50% dos infectados ainda sentirão dores fortes, incapacitantes.

Na atual epidemia que assola as ilhas francesas do Caribe, cerca de 15% dos habitantes procuraram atendimento médico. Os epidemiologistas calculam que uma vez instalada a doença numa área povoada pelo Aedes, pelo menos 30% da população será infectada, a menos que se adotem medidas intensivas de combate ao mosquito.

O chikungunya será uma ameaça para nós? Já é, como demonstra a velocidade de disseminação na Bahia e no Amapá. Com a chegada das chuvas, quando a dengue inferniza milhões de brasileiros, não haverá como conter o chikungunya, que não mata, mas deixa todo mundo doente.

E, pior, com dores articulares crônicas que sobrecarregarão nosso já combalido sistema de saúde.