Drauzio

Assintomáticos | Artigo

assintomáticos com máscara sentados em vagão de metrô

Metanálise traz dados sobre os assintomáticos, que contraem o vírus da covid-19, mas não desenvolvem sintomas da doença.

 

Esse coronavírus é muito esquisito. Tem gente que pega e não sente nada, outros desenvolvem quadros gripais com poucos ou muitos sintomas; outros, ainda, precisam ser internados nas UTIs com risco de perder a vida.

Na coluna de hoje, prezado leitor, vamos rever o que a literatura médica diz a respeito dos afortunados que não desenvolvem sintomatologia, tema de um artigo que acaba de ser publicado por Bianca Nogrady, na revista “Nature”.

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Nas primeiras semanas da epidemia, as estimativas eram que até 80% das pessoas infectadas permaneceriam assintomáticas. Com o aumento do número de casos, a observação clínica reduziu essa porcentagem para cerca de 40%. Avaliações atuais, entretanto, chegaram a números bem mais modestos.

Publicada em outubro, uma análise conjunta de 13 estudos (metanálise) que envolveram 21.708 participantes, revelou que os realmente assintomáticos representam apenas 17% do total. Os demais desenvolvem sintomas no período máximo de 7 a 13 dias contados a partir do dia da transmissão do vírus.

Na metanálise, foram classificados como assintomáticos apenas aqueles que nunca desenvolveram sintomas, no curso da covid-19.

A contradição entre os 17% de assintomáticos, nessa publicação, e os números bem mais altos do passado é explicada pela inclusão indevida, no grupo das assintomáticas, de pessoas na verdade pré-sintomáticas, isto é, ainda sem as queixas que surgirão dias mais tarde.

Há interesse especial em conhecer a frequência segundo a qual os assintomáticos transmitem o vírus, uma vez que eles passam despercebidos na contagem geral dos casos. A maioria dos que fazem o teste RT-PCR é justamente constituída pelos que apresentam sintomas.

Estimar quantos permanecem assintomáticos tem importância epidemiológica, porque, sem perceber que estão infectados, eles exercem o papel de transmissores anônimos.

Tudo indica que não ficaremos livres desse coronavírus antes de vacinar a maior parte da população.

Na casuística estudada, surgiu outro dado importante: o risco de indivíduos sem sintomas transmitirem o vírus é 42% mais baixo do que aquele representado pelos sintomáticos.

Como parte de um inquérito recente conduzido na cidade de Genebra, na Suíça, os pesquisadores desenvolveram um modelo para avaliar a disseminação do vírus entre pessoas que moram juntas. A análise dos dados os levou à conclusão de que o risco de uma pessoa assintomática transmitir o vírus para quem vive na mesma casa é quatro vezes menor do que o de alguém com sintomas.

Os epidemiologistas defendem que o grupo assintomático tem importância na disseminação da epidemia, uma vez que atuaria como transmissor anônimo do vírus. Apesar do risco mais baixo de disseminar a infecção, quem não está doente tem maior probabilidade de sair para as ruas sem máscara e de formar aglomerações do que de permanecer isolado em casa.

Outros, embora concordem que essas pessoas transmitem o vírus, discordam da conclusão de que tenham papel preponderante na disseminação comunitária, baseados no argumento de que aqueles sem sintomas não andam por aí tossindo, espirrando e infectando superfícies. Como a maioria dos infectados são sintomáticos, o esforço deveria ser concentrado em identificá-los precocemente e isolá-los, medidas que eliminariam a maior parte das novas infecções.

Para verificar se a quantidade de vírus adquirida no momento da transmissão explicaria a presença ou não de sintomatologia, Muge Cevic e colaboradores ingleses conduziram uma metanálise de 79 estudos que compararam o número de partículas virais presentes na orofaringe de pacientes com ou sem sintomas. A carga viral nos dois grupos foi semelhante, mas os assintomáticos eliminaram o coronavírus mais depressa e deixaram de ser transmissores num período mais curto.

A eficiência em eliminar o vírus mais cedo, entretanto, não significa que tenham respostas imunológicas mais potentes e duradouras. Pelo contrário, as evidências mostram que os anticorpos neutralizantes persistem por mais tempo na circulação daqueles que desenvolveram as formas mais graves da doença.

Tudo indica que não ficaremos livres desse coronavírus antes de vacinar a maior parte da população. Aqueles que pretendem escapar ilesos e proteger os seus da epidemia vão passar 2021 de máscara, lavando as mãos com frequência e evitando aglomerações, o oposto do que os ignorantes e os irresponsáveis fazem hoje.

Sobre o autor: Drauzio Varella

Drauzio Varella é médico cancerologista e escritor. Foi um dos pioneiros no tratamento da aids no Brasil. Entre seus livros de maior sucesso estão Estação Carandiru, Por um Fio e O Médico Doente.

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