Drauzio

Três pesquisas | Artigo

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Três pesquisas na área de medicina trazem informações reveladoras à ciência: a mortalidade entre os homens é maior naqueles que andam menos; seres humanos são capazes de enviar sinais químicos que revelam estados emocionais; e aspirina apresenta perigos para crianças.

 

Andar para viver mais

 

O benefício do exercício físico de baixa intensidade na expectativa de vida de homens mais velhos foi avaliado por uma equipe de pesquisadores de diversas universidades americanas. O estudo começou em 1980 e envolveu 707 homens não fumantes, de 61 a 81 anos de idade, acompanhados por um período de 12 anos.

Nesse período aconteceram 208 mortes. A mortalidade entre os homens que andavam menos do que uma milha (1,6 km) por dia foi o dobro da encontrada entre os que andavam mais do que duas milhas (3,2 km) diárias.

Morreram de doenças cardiovasculares 6,6% dos homens do grupo que andavam menos e 2,1% dos que andavam mais. As mortes por câncer também foram significativamente superiores nos mais sedentários: 13,4% versus 5,3%, enfatizando o conceito de que o câncer é uma doença prevenível, em muitos casos.

O número total de mortes ocorridas entre os mais ativos no período de 12 anos foi o mesmo que aconteceu em apenas 7 anos no grupo que andava menos do que uma milha por dia.

O presente estudo mostra que o exercício físico aumenta a longevidade, mesmo quando de baixa intensidade e iniciado numa fase mais tardia da vida. Afinal, o corpo humano é uma máquina desenhada para o movimento.

 

O cheiro da felicidade e do medo

 

Como outros animais, seres humanos são capazes de enviar sinais químicos que revelam estados emocionais. Pesquisadores da Rutgers University, em Filadélfia, aplicaram um chumaço de algodão nas axilas de 25 homens e mulheres, enquanto assistiam a um filme alegre. Depois repetiram a experiência com um filme que provocava medo. A seguir, os chumaços de algodão foram colocados em frascos de vidro e rotulados com código. Uma semana mais tarde, 77 indivíduos de ambos os sexos tentaram identificar pelo olfato as sensações de felicidade e medo impregnadas no algodão contido em cada frasco. Homens e mulheres detectaram o “cheiro de medo” numa frequência maior do que aquela atribuída ao acaso. O “cheiro de felicidade” exalado nas axilas de ambos os sexos, no entanto, foi captado com mais precisão pelas mulheres; os homens foram capazes de identificá-lo apenas nas axilas femininas.

Embora evidências de que sinais olfatórios carreguem informações sobre estados emocionais já tenham sido descritas em diversas espécies, esta é a primeira demonstração nos homens.

 

Veja também: Três pesquisas II

 

O perigo da aspirina nas crianças gripadas

 

Desde 1980, o Centers for Diseases Control (CDC), nos Estados Unidos, alerta médicos e pais a não administrar derivados do ácido acetil salicílico (AAS, aspirina, Melhoral, etc.) para crianças com resfriados, gripes ou catapora. Lá, desde 1986, todos os produtos contendo aspirina trazem no rótulo a advertência de que seu uso em crianças portadoras dessas doenças pode trazer complicações.

O uso indiscriminado de antitérmicos contendo aspirina é prática comum no Brasil. No caso das crianças, essa prática pode ter uma consequência rara, mas grave: a síndrome de Reye.

A síndrome de Reye foi descrita em 1963, na Austrália, durante uma epidemia de gripe. É caracterizada por vômitos profusos e distúrbios neurológicos que incluem alterações da personalidade e deterioração do nível de consciência. Com a evolução do quadro, surgem irritabilidade extrema, agitação, confusão mental, delírio e coma. Cerca de um terço das crianças acometidas pela síndrome vai a óbito (que é mais frequente nos menores do que cinco anos).

Pesquisadores do CDC publicaram uma análise da incidência da síndrome de Reye em crianças norte-americanas de 1981 a 1997. No período foram identificados no país 1207 casos, em menores de dezoito anos. Em 1980, antes do alerta à população, ocorreram 555 casos. Desde 1987, depois do alerta, o número de casos esteve abaixo de 36 por ano.

Dado o grande número de antitérmicos existentes no mercado e a alta letalidade da síndrome de Reye, é fundamental que o Ministério da Saúde obrigue os fabricantes de medicamentos que contenham derivados do ácido acetilsalicílico a colocar no rótulo a advertência que esse tipo de medicamento, tão popular, não deve ser administrado para crianças com catapora, gripes ou resfriados.

Sobre o autor: Drauzio Varella

Drauzio Varella é médico cancerologista e escritor. Foi um dos pioneiros no tratamento da aids no Brasil. Entre seus livros de maior sucesso estão Estação Carandiru, Por um Fio e O Médico Doente.

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