Existem diversas classes de medicamentos eficazes, dotados de poucos efeitos colaterais, para evitar o descontrole da pressão. Porém, o número de hipertensos que não se tratam ou que o fazem de forma irregular é muito alto.

 

Descontada a descoberta dos antibióticos, o tratamento da hipertensão talvez tenha sido o maior avanço da medicina do século passado.

Por incrível que pareça, até a década de 1950, os médicos defendiam que abaixar a pressão dos hipertensos seria prejudicial à saúde, porque diminuiria o aporte de sangue aos tecidos, aumentando o risco de ataques cardíacos, derrames cerebrais, insuficiência renal e outras doenças graves.

Um dos primeiros a contradizer esse dogma foi Walter Kempner, em Boston, que prescrevia para os portadores de pressão alta uma dieta rígida de arroz e frutas, com baixos teores de gordura, proteína, calorias e sal. Embora difícil de seguir, esse regime alimentar provocava perda de peso e queda da pressão.

Apesar dos bons resultados em casos de hipertensão grave associada à insuficiência renal, o trabalho do grupo de Kempner, publicado em 1948, foi largamente ignorado pela comunidade acadêmica.

Ao redor de 1950, surgiram as primeiras drogas dotadas da propriedade de reduzir a pressão arterial. Nessa época, um dos pioneiros na área, Robert Wilkins, introduziu na Universidade de Boston a conduta de combinar diversos medicamentos hipotensores com mecanismos de ação diferentes, sempre que a resposta a um único agente fosse insatisfatória.

 

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Empregada até hoje, essa estratégia foi tão animadora que Wilkins escreveu em 1952: “Nenhum caso de hipertensão associado à função renal íntegra deve ser considerado impossível de tratar, até que se prove o contrário”.

Com base nesses conhecimentos, o número de pessoas medicadas aumentou de forma explosiva, especialmente depois que os diuréticos do grupo da tiazida se tornaram disponíveis, no fim dos anos 1950.

O primeiro ensaio clínico que demonstrou os benefícios do tratamento nos casos de hipertensão maligna foi publicado em 1958. Cerca de dez anos mais tarde, dois estudos de grande impacto mostraram que a diminuição da pressão mínima (diastólica) causava reduções impressionantes no número de eventos cardiovasculares.

Trabalhos posteriores deixaram claro que por meio da associação de drogas anti-hipertensivas é possível evitar em média 35% a 40% dos derrames cerebrais, 20% a 25% dos infartos do miocárdio e mais da metade dos casos de insuficiência cardíaca congestiva. Tornaram-se raros os quadros de hipertensão maligna e de acidentes vasculares cerebrais hemorrágicos em pessoas tratadas adequadamente.

Desde então, surgiram diversas classes de medicamentos eficazes, dotados de poucos efeitos colaterais. Curiosamente, no entanto, o número de hipertensos que não se tratam ou que o fazem de forma irregular é muito alto.

Para dar ideia das dimensões do problema no Brasil, o jargão médico aplica nesses casos a imprecisa regra dos 50%: “Metade dos hipertensos desconhece sua condição. Dos que estão a par dela, metade não se trata. Dos que a conhecem e recebem tratamento, metade não toma os remédios com regularidade”. Conclusão: apenas 12,5% dos pacientes manteriam a pressão arterial sob controle, número que não deve estar distante da realidade.

Esse problema não é apenas nosso. Nos Estados Unidos, 28% dos hipertensos ignoram sua condição. Dos que receberam o diagnóstico, 65% mantêm níveis de pressão acima de inaceitáveis 14 por 9.

Hipertensão arterial é uma pandemia. A Organização Mundial da Saúde calcula que no mundo exista 1  bilhão de hipertensos, número que aumentará para 1,5 bilhão em 2025. Com o aumento da expectativa de vida e a disseminação da epidemia de obesidade, que não poupa sequer os países em desenvolvimento, esses números só tendem a crescer.

Reverter tal situação implica garantir acesso à assistência médica, aos medicamentos, à informação e, o mais difícil de tudo, em convencer a adotar estilos de vida mais saudáveis, todos os que apresentam fatores de risco para desenvolver hipertensão: os obesos, os mais velhos, os sedentários, os que têm história familiar, os que exageram na bebida e os pré-hipertensos (portadores de pressão máxima entre 12 e 13 cm e/ou de pressão mínima entre 8,0 e 8,9 cm, conforme o conceito atual).

Não consigo encarar esse quadro com otimismo, leitor. Convencer seres humanos a andar, comer com parcimônia, reduzir o consumo de sal e evitar abuso de álcool é a tarefa mais inglória da medicina.