Nos países industrializados, a mortalidade por doença coronariana está em queda. Nos últimos trinta anos, tal redução foi documentada pelo menos nos Estados Unidos, Holanda, Finlândia, Nova Zelândia, Escócia e Inglaterra.

O New England Journal of Medicine acaba de publicar um estudo que procura explicar as razões para essa redução ocorrida nos Estados Unidos, nas últimas décadas. Vale a pena analisá-las com atenção porque as doenças cardiovasculares constituem a principal causa de morte no Brasil.

As doenças coronarianas são consequência da deposição de placas de ateroma no interior de um ou mais ramos dessas artérias, causando redução do fluxo sanguíneo para as regiões do músculo cardíaco irrigado por elas.

A obstrução parcial das coronárias causa a angina, geralmente caracterizada por dores no peito associadas aos esforços físicos. Quando a obstrução se torna completa, surgem os sintomas característicos do infarto do miocárdio ou ataque cardíaco.

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No decorrer do século 20, a incidência dessas enfermidades sofreu profundas modificações no mundo todo. Nos Estados Unidos, a mortalidade por infarto atingiu o pico em 1968, para cair gradativamente nos anos seguintes. Esse fenômeno costuma ser atribuído a dois fatores:

1) Nos últimos 40 anos, houve uma revolução no tratamento da doença coronariana. Técnicas de tratamento testadas em grande número de pacientes tornaram-se disponíveis: pontes de safena, angioplastia com colocação de stents, uso de drogas que dissolvem coágulos, de estatinas para controlar o colesterol e de medicamentos inibidores da ACE;

2) Embora tímidas, houve reduções significantes na prevalência de alguns fatores de risco: o número de fumantes diminuiu e o controle da pressão arterial e do colesterol passou a ser levado a sério por médicos e pacientes. No entanto, a prevalência de obesidade, vida sedentária e diabetes aumentou de forma alarmante.

O estudo examinou a contribuição dos diversos fatores para a queda do número de óbitos por doença coronariana, na população americana de 25 a 84 anos, no período de 1980 a 2000. Em 1980, para cada 100 mil habitantes, morreram de infarto 543 homens e 263 mulheres. Em 2000, esses números haviam diminuído para 267 e 134, respectivamente. Portanto, o número de óbitos caiu pela metade.

Se os índices de 1980 tivessem permanecido constantes durante os 20 anos estudados, teriam ocorrido mais 341.745 mortes por ataque cardíaco.

A análise dos fatores responsáveis por essa alteração no quadro, demonstrou que as mudanças introduzidas no tratamento clínico e cirúrgico foram responsáveis por 47% da diminuição na mortalidade; e os fatores de risco, por aproximadamente 44%.

Cerca de 160 mil mortes foram evitadas ou adiadas graças a intervenções terapêuticas clínicas ou cirúrgicas. As mais importantes foram os tratamentos preventivos adotados para prevenir recidivas depois do primeiro infarto, seguidas por aqueles indicados no momento do infarto, pelo tratamento da insuficiência cardíaca, da hipertensão arterial, pelo uso de estatinas para baixar o colesterol e, finalmente, pelos tratamentos da angina crônica.

Já a redução dos fatores de risco evitou ou adiou 150 mil mortes. O maior número delas foi prevenido às custas do controle do colesterol, seguido pelo controle da pressão arterial, pela diminuição do número de fumantes e pelo aumento modesto dos índices de atividade física.
Em contraste, o aumento da massa corpórea da população foi responsável por 25 mil mortes, e o da prevalência de diabetes por 33 mil.

O estudo deixa claro que, para reduzir o número de mortes por ataque cardíaco, medidas preventivas simples como largar de fumar, controlar a pressão arterial, procurar seguir uma dieta saudável e, sobretudo, praticar atividade física, têm impacto equivalente ao da complexa tecnologia que a medicina desenvolveu para tratar os que já estão doentes. Isso, para não falar da diferença de custo entre as duas estratégias.