Maioria das vítimas de estupro são crianças e adolescentes. Crime em geral é perpetrado por parentes, o que torna a denúncia ainda mais difícil.

 

Semana passada, Maria se queixou de cólicas abdominais que iam e vinham. Está presa há 12 anos, para cumprir pena de 88.

Começou a assaltar aos 14 anos, três anos depois de fugir da casa em que vivia com a mãe, dois irmãos mais novos e o padrasto, protagonista da tragédia que corre solta na periferia das cidades brasileiras, sob o olhar complacente de uma sociedade insensível e covarde.

Maria tem o ar decidido das mulheres que não se subjugaram às adversidades do ambiente que as forjou. Encara o interlocutor com olhar duro, desconfiado, no entanto frágil, quando se emociona. Nas poucas ocasiões descontraídas, o sorriso ilumina o rosto inteiro.

 

Veja também: Artigo do dr. Drauzio sobre estupradores

 

O padrasto, pai dos irmãos mais novos, era trabalhador – zé povinho, segundo ela. A mãe, diarista em casas de famílias que moravam a duas horas de trem e ônibus na ida e a duas horas e meia na volta, deixava por conta dela a obrigação de levar e buscar as crianças na escola, dar banho, jantar e colocá-las na cama.

Quando completou 11 anos, Maria recebeu a primeira investida do padrasto. Veio sob o pretexto de uma massagem nas costas, procedimento que ela aceitou com estranheza.

— Nem conheci meu pai. Minha mãe não tinha o hábito nem tempo para agrados.

Na segunda vez, os carinhos chegaram ao sexo da menina. Assustada, ela pulou do sofá, mas foi agarrada junto à porta e violentada, com a boca tapada pela mão firme do agressor, que quase a sufocou.

Dessa tarde em diante, virou outra criança. Perdeu 6 quilos. Quando se aproximava a hora de o padrasto chegar do trabalho:

— Meu coração palpitava descompassado, as mãos congelavam, suava frio, achava que ia morrer de pânico. Me trancava para chorar no banheiro.

Ameaçada de morte caso contasse à mãe ou a qualquer pessoa, foi violentada ainda três vezes, até criar coragem de pedir ajuda:

— Quando acabei de falar, minha mãe me deu um tapa que tirou sangue da boca. Me chamou de mentirosa, que eu queria ver a desgraça dela.

Enquanto ignorantes autointitulados defensores da família se distraem discutindo conceitos abstratos como ‘ideologia de gênero’, viramos as costas à violência sexual praticada todos os dias contra as nossas crianças.

Na manhã seguinte, Maria procurou Juci, uma prima de 17 anos, que fugira de casa para viver com Genivaldo, o Valdo, dono da biqueira mais concorrida do Jardim Bonfiglioli, zona sul de São Paulo.

O casal a recebeu em casa, como filha.

— Foi a fase mais feliz da minha vida. Voltei pra escola. O Valdo foi um pai, cozinhava, jantávamos juntos, víamos filmes na TV, fazia pipoca.

A felicidade foi interrompida pela execução de Valdo na esquina da biqueira, três anos mais tarde.

Juci foi para a casa dos avós na Bahia. Maria se juntou a um grupo de amigos do traficante, especializados em roubo a bancos.

Perdeu a conta de quantas agências assaltaram. No início, sua função era vigiar a porta, para avisar a quadrilha pelo celular à primeira aproximação estranha. Com o tempo e a experiência, passou a ser a responsável pelo planejamento da fuga e a comandar a ação no interior da agência.

Não casou nem teve filhos. Desconfio que nunca namorou.

— Peguei bronca de homem. No assalto, fico com pena das mulheres, tenho compaixão. Os homens? É sem piedade. Sinto prazer de humilhar, de meter a arma na cabeça e mandar ajoelhar nos meus pés.

Em 13 anos de trabalho médico na Penitenciária Feminina de São Paulo, atendi centenas de presidiárias com histórias de estupro na infância. Violência sexual contra crianças existe em todas as classes sociais, mas, na periferia de nossas cidades, é epidemia.

Segundo o Ipea, das 60 mil queixas de estupro apresentadas nas delegacias, em 2016, cerca de 50% ocorreram com crianças abaixo de 13 anos, e 20% com adolescentes entre 14 e 17 anos.

Portanto, 70% das vítimas são menores de idade, estupradas dentro de casa, em sua maioria, pelo padrasto, pelo pai, tios, avós e vizinhos, tragédias encobertas pelos familiares e pelas próprias vítimas indefesas e mortas de vergonha.

É o mais subnotificado dos crimes. Os especialistas calculam que chegam às delegacias no máximo 10% dos casos. Entre os meninos atacados na infância, a subnotificação é ainda maior.

A certeza da impunidade e a incompetência da Justiça, reflexo do acovardamento da sociedade, estão por trás da perpetuação desses crimes hediondos.

Enquanto ignorantes autointitulados defensores da família se distraem discutindo conceitos abstratos como “ideologia de gênero”, viramos as costas à violência sexual praticada todos os dias contra as nossas crianças.