No embrião em desenvolvimento, há uma verdadeira guerra entre genes maternos e paternos para ver quem vai prevalecer. Leia no artigo do dr. Drauzio.

 

A genética clássica imaginava que no embrião os genes maternos e paternos se dispunham aos pares ordenadamente. As características finais dos filhos seriam determinadas por essa combinação harmoniosa de genes. Viesse do pai ou da mãe, as propriedades de um gene seriam as mesmas.

Assim, para o filho tanto faz se o pai tiver olhos castanhos e a mãe azuis, ou vice-versa. Genes para olhos castanhos são sempre dominantes e, quando formam par com os que codificam cor azul, impõem sua característica, seja ela paterna ou materna. Esse dogma clássico da genética foi abalado na década de 1990. Quando se trata do embrião, a relação entre os sexos paternos está longe de ser amorosa. É uma guerra, como diz Shirlei Tilghman, da Universidade de Princeton, numa entrevista à revista “Science”. E, continua: “não importa quanto amor pareça existir entre o casal, seus genes podem ser tudo, menos amigáveis. Seu campo de batalha é o embrião em desenvolvimento. Nele, ocorre uma guerra molecular entre os genes do pai que fazem de tudo para promover sua propagação e os da mãe que contra-atacam para garantir que não serão derrotados”.

 

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No campo de batalha embrionário, genes maternos lutam para silenciar os paternos e vice-versa, através de mecanismos bioquímicos ainda mal conhecidos (mas muito estudados). Veja o caso dos genes que controlam o crescimento fetal: a intenção dos genes da mãe é manter o crescimento do feto dentro de determinados limites, para evitar problemas de parto e consumo de energia excessiva (quanto maior o filhote, mais energia a mãe terá que investir na sua criação). O interesse dos genes masculinos é oposto: quanto maior o feto, maior a possibilidade de sobrevivência e propagação das características paternas.

A existência de interesses sexuais opostos em relação ao tamanho dos filhos é descrita nos animais e nas plantas. Mas é nos mamíferos que ela se estabelece de maneira mais nítida, porque neles o feto parasita a mãe por longo período de tempo. O interesse evolucionista do macho é fecundar o maior número de fêmeas que puder e conseguir que cada uma invista o máximo de energia no tamanho da prole. O da fêmea é controlar o crescimento e poupar energia para futuras concepções, provavelmente em parceria com outros machos.

O fenômeno descrito acima, segundo o qual um gene silencia o do sexo oposto, é chamado de imprinting. Em ratos, ele foi demonstrado com elegância pelo grupo de Princeton: fêmeas monogâmicas acasaladas com machos poligâmicos deram à luz recém-nascidos que pesam mais do que 20 gramas. O acasalamento inverso, fêmeas poligâmicas com machos monogâmicos, gera filhotes com 10 gramas, ao nascer. Conclusão: quanto maior a oferta de espermatozoides diferentes geneticamente, menor o investimento feminino em cada gravidez.