A cada ano fico mais parecido com meu pai. A forma de ajeitar os óculos, as manias e os trejeitos com os quais eu implicava, o mesmo gosto de ver a família reunida à mesa, que me tolhia a liberdade dominical na adolescência. Tudo igual; como se fosse destino.

Desde que aprendi a escrever, todos diziam que nossas letras eram semelhantes, observação que me enchia de orgulho, porque eu achava a dele o máximo: inclinada para a direita, cada palavra escrita num único movimento, todas as letras do mesmo tamanho, traçadas com mão firme.

Sempre interpretei a semelhança, como simples imitação do menino alfabetizado em contato com o pai que ele admirava. Anos atrás, no entanto, quando vi pela primeira vez a assinatura do pai dele, meu avô, tomei um choque: a letra era quase igual a minha; as maiúsculas desenhadas com as mesmas curvas.

Você dirá que meu pai foi influenciado pela caligrafia de meu avô, que assim passou para o neto as mesmas características. Só que meu avô veio da Espanha para o Brasil com doze anos, sozinho e analfabeto. Nunca foi à escola, aprendeu a escrever por conta própria, e morreu quando meu pai tinha cinco anos. Se não teve oportunidade de influenciar o filho, que dirá o neto.

Chegamos ao ponto, leitor: o velho debate entre os genes e a experiência vivida.

Veja também: Evolução do sexo e sobrevivência

Durante anos, os estudiosos se colocaram em posições antagônicas. De um lado, os defensores do determinismo genético, segundo os quais os genes limitariam nosso comportamento aos desígnios ditados por eles. De outro, os que consideravam o comportamento humano moldado pela somatória das experiências individuais.

A partir dos anos 1990, com a explosão da neurogenética, aprendemos que as influências genéticas existem, são fundamentais, mas que os genes interagem com ambiente de forma muito mais complexa, mutável e imprevisível do que poderia sonhar nossa vã filosofia de tempos atrás.

Diversas décadas de estudos com irmãos gêmeos idênticos, famílias e crianças adotadas, demonstraram que cerca de metade de nossas características comportamentais, encontram-se sob influência direta da genética. No entanto, procurar um gene responsável pela personalidade extrovertida, pela fluência verbal ou pela facilidade para aprender música é tarefa inglória.

Os genes que influenciam o comportamento não agem de forma isolada, como os que codificam a proteína responsável pela cor dos olhos azuis. Eles interagem com uma constelação de outros, localizados nas proximidades ou em áreas distantes dos cromossomos.

Para complicar ainda mais, o impacto do ambiente interfere com a expressão gênica de forma tão decisiva, que um mesmo acontecimento vivido por dois gêmeos idênticos, poderá ativar a expressão de determinados genes num deles e silenciá-la no outro.

A convivência social é capaz de induzir alterações gênicas de longa duração, fenômeno descrito em ratos, em 2003. Ratas que lambem, acariciam e amamentam a ninhada, têm filhos que respondem com menos ansiedade ao estresse e repetem com suas crias cuidados semelhantes aos recebidos. Ao contrário, os que foram abandonados por suas mães, reagem com mais intensidade ao estresse e cuidam menos dos filhos.

Estudos neurogenéticos realizados com os dois grupos de ratos (mal-cuidados versus bem-cuidados) mostram que a atenção materna induz alterações moleculares nos genes dos filhotes que codificam receptores cerebrais para glucocorticoides (hormônios envolvidos na resposta ao estresse) e estrógeno (hormônio sexual).

Começam a ser descritas as primeiras modificações duradouras na estrutura molecular dos genes, causadas por influências sociais e estímulos do ambiente. Os efeitos da mesma informação social sobre as funções cerebrais que sofrem influência dos genes envolvidos no comportamento, diferem de um indivíduo para outro, como as impressões digitais.

O conhecimento das bases moleculares do comportamento social permitirá entender melhor distúrbios como depressão, autismo, esquizofrenia e muitos outros.

A antiga dicotomia entre os genes e o ambiente é coisa do passado. É tão absurda como ouvir a música e discutir se vem do piano ou do pianista.

As moléculas que constituem nosso DNA não traçam nosso destino, mas sob a influência dos estímulos ambientais sofrem arranjos e rearranjos que explicam a incrível diversidade humana.