Alimentos geneticamente modificados foram submetidos a rigoroso escrutínio como nenhum outro avanço na agricultura.

 

No ano passado, ativistas destruíram um campo de estudos do arroz dourado, nas Filipinas. Tomo a liberdade de resumir o editorial que a revista “Science” publicou sobre esse evento.

Arroz dourado (Golden Rice) é uma variedade modificada geneticamente por técnicas moleculares, de modo a torná-la capaz de produzir betacaroteno, um precursor da vitamina A, componente essencial da molécula de rodopsina, encarregada de absorver os raios luminosos que incidem na retina.

 

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No mundo, meio milhão de crianças por ano ficam cegas por deficiência de vitamina A. Uma vez instalada a perda total da visão, metade delas vai a óbito em 12 meses.

A falta de vitamina A também compromete a integridade do sistema imunológico, aumentando o risco de diversas enfermidades. É uma doença da pobreza e da desnutrição, causadora de 1,9 a 2,8 milhões de mortes anuais, predominantemente entre mulheres e crianças com menos de cinco anos.

Arroz é o alimento principal de quase a metade da população do mundo, mas a variedade branca não é fonte de vitamina A.

Depois de anos de estudos laboratoriais, os grupos de Ingo Potrykus e Peter Beyer desenvolveram uma variedade geneticamente modificada de grãos capazes de acumular betacaroteno.

Comprovar que determinado alimento faz mal é fácil, porque aqueles que o ingerem ficam doentes. O oposto é quase impossível. Estudos desse tipo (chamados de negativos) exigem milhões de participantes acompanhados por décadas.

Depois, foram necessários 25 anos de pesquisas de campo realizadas pelo International Rice Research Institute em conjunto com o Phillipine Rice Research Institute, com o objetivo de desenvolver e testar em campo variedades capazes de exprimir quantidades de betacaroteno suficientes para eliminar a deficiência de vitamina A, nas populações em que o arroz é a base da dieta.

Levou tempo para ser obtida a patente que possibilitou a distribuição gratuita das sementes para lavradores pobres. Exigências exageradamente meticulosas para a realização de testes de segurança, com a finalidade de provar que a variedade não causaria danos ambientais, atrasaram por mais de uma década a liberação do arroz rico em betacaroteno.

Introduzidos no comércio há 18 anos, os alimentos geneticamente modificados foram adotados mais prontamente do que qualquer outra tecnologia na história da agricultura, justamente por beneficiar agricultores, consumidores e o ambiente.

Nenhum outro avanço na agricultura foi submetido a escrutínio tão rigoroso. Até hoje não houve demonstração de que eles causem problemas de saúde para seres humanos ou outros animais. Ainda assim, grupos de ativistas exigem provas de que eles não fazem mal.

Comprovar que determinado alimento faz mal é fácil, porque aqueles que o ingerem ficam doentes. O oposto é quase impossível. Estudos desse tipo (chamados de negativos) exigem milhões de participantes acompanhados por décadas.

Até hoje não existe comprovação científica definitiva de que cenoura, batata, alface ou banana fazem bem à saúde. Sequer demonstramos que são alimentos absolutamente seguros, incapazes de provocar alguma doença depois de consumidos durante cinquenta anos.