Hipertensão maior entre negros pode ter ligação com passado escravista

Várias hipóteses tentam desvender por que a hipertensão é tão incidente entre os negros. Entenda como a doença afeta essa população.

Beatriz Zolin

Beatriz Zolin é estudante de Jornalismo e estagiária no Portal Drauzio Varella. Tem interesse por assuntos relacionados à saúde e sociedade, sexualidade e psicologia.

Várias hipóteses tentam desvender por que a hipertensão é tão incidente entre os negros. Entenda como a doença afeta essa população.

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Publicado em: 26 de abril de 2022

Revisado em: 26 de abril de 2022

Várias hipóteses tentam desvender por que a hipertensão é tão incidente entre os negros. Entenda como a doença afeta essa população.

 

Um minieditorial dos Arquivos Brasileiros de Cardiologia conta que, durante o período da escravidão africana, os ingleses lambiam o suor dos negros para decidir quem embarcaria nos navios negreiros. Sem saber, os escravistas estavam escolhendo aqueles que conseguiam reter mais sódio no organismo, sobrevivendo à desidratação e à falta de comida às quais eram submetidos. 

Uma vez no Novo Mundo, com o excesso de sal na alimentação, esses escravizados desenvolveram hipertensão – tendência que teria sido repassada para as gerações futuras. Surgiria daí, então, a maior suscetibilidade da população negra à pressão arterial alta. 

Essa, no entanto, é só uma das hipóteses.

“Outra possibilidade que explica a maior incidência da hipertensão na população negra é a de que os indivíduos que moravam em determinadas regiões da África, muito quentes e com baixa quantidade de sal disponível, acabaram desenvolvendo a capacidade de reter o sódio”, explica a dra. Aline Tito, cardiologista e sócia fundadora do Grupo Ifé Medicina. Essa característica teria permanecido até os dias atuais.

Há ainda uma terceira teoria que envolve a pressão alta e a pigmentação da pele. Supõe-se que um dos genes responsáveis pela biossíntese da melanina, proteína que dá cor à pele, também seria capaz de elevar a pressão arterial. Portanto, quanto mais escura a pele, maior a chance de desenvolver hipertensão.

Ainda que não exista uma confirmação sobre o tema e que o Brasil não tenha pesquisas extensas nesse sentido, o fato é que os indivíduos afrodescendentes (tanto americanos quanto latinos) demonstram mais dificuldade de controlar a pressão arterial.

 

O que o sal tem a ver com a hipertensão?

O sódio (sal) serve para transmitir informações entre as células nervosas, auxiliar na contração muscular, regular o equilíbrio hídrico do corpo e controlar o volume sanguíneo.

Essa última função é influenciada pela aldosterona, hormônio que, durante a filtragem do sangue, retém o sódio e excreta o potássio. De acordo com o volume de sangue captado pelo rim, a produção de aldosterona é mais ou menos incentivada.

“Se o organismo identificar que o volume sanguíneo está baixo, a aldosterona será estimulada e reterá mais sódio. Por isso, nos indivíduos negros com maior sensibilidade, o sal acaba se acumulando na circulação do sangue”, afirma a dra. Aline.

Por consequência, o fluxo sanguíneo aumenta. “Quando a gente coloca sal em um copo d’água, vemos que ele absorve parte do líquido. No sangue, acontece a mesma coisa: o sódio acaba ‘atraindo’ um maior volume de sangue, aumentando a pressão dentro das artérias”, ilustra.

Veja também: Por que o excesso de sal faz mal à saúde? | Artigo

 

A hipertensão no Brasil: além da genética

De acordo com um levantamento realizado pela Secretaria de Vigilância em Saúde do Ministério da Saúde em 2018, 24,9% dos adultos negros relataram ter hipertensão arterial. Entre as mulheres negras, o diagnóstico é mais frequente (27,4%) do que nos homens negros (22,2%). 

Em ambos os sexos, a incidência aumenta na faixa dos 65 anos ou mais (61,5% em homens e 68% em mulheres) e também nas categorias de menor escolaridade.

“Em comparação com os brancos, a gente vê muito mais casos de acidente vascular cerebral (AVC), por exemplo. E a principal causa do AVC é a hipertensão”, destaca a dra. Aline. 

Por outro lado, ela lembra que o componente genético não é suficiente para justificar a incidência da pressão alta na população negra.

“A influência genética nas causas da hipertensão é de cerca de 30% a 40%. Mas existem outros fatores que interferem, como o contexto social, os hábitos e as relações ambientais. Desde que feitas com regularidade, a alimentação adequada, a prática de atividade física e o controle do peso são medidas efetivas no controle da pressão”, pontua.

No entanto, essa não é a realidade para grande parte dos brasileiros. Como exemplo, a cardiologista destaca a parcela da população que não consegue praticar exercícios físicos por passar a maior parte do dia no trabalho ou que não consome tantas frutas em sua dieta porque elas não estão incluídas na cesta básica. Considerando a situação socioeconômica do Brasil, esses indivíduos são, em sua maioria, negros.

Veja também: Estilo de vida e doenças cardíacas | Entrevista

 

Tratamento e prevenção

Além da questão social, o combate à hipertensão entre os negros passa também por uma ação individual. Mesmo que a pessoa não tenha sintomas, como dor de cabeça, dor no peito e cansaço, a hipertensão deve ser tratada o quanto antes.

Quando diagnosticado, o paciente será orientado a adotar mudanças no estilo de vida, como controlar o peso, dormir melhor, se movimentar mais, entre outras medidas. Se isso não for o suficiente para reverter o quadro, a entrada de alguns medicamentos pode ser necessária. 

Entre as dicas de prevenção, estão não abusar do sal na comida, evitar o estresse, controlar o diabetes, não consumir muitos alimentos gordurosos, não fumar e moderar a ingestão de álcool.

Conteúdo desenvolvido em parceria com a Afrosaúde https://afrosaude.com.br/

Veja também: Complicações da hipertensão | Entrevista

 

 

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