“Minha história começa com um infarto aos 28 anos”, revela André Luis Batista Pereira, 40 anos, com um constante sorriso que esconde a convivência com uma doença perigosa, instável e que mata mais do que se imagina. Esse evento tão precoce fez com que os médicos desconfiassem que seus altos níveis de colesterol não eram devidos apenas ao estilo de vida, mas sim consequência de uma doença pouco conhecida pela classe médica e pela população, a hipercolesterolemia familiar (HF).

Entenda como o colesterol elevado pode levar ao infarto e a outras complicações

Basicamente, o nome difícil significa colesterol alto devido a causas genéticas. Nesses casos, apenas a mudança de estilo de vida não é suficiente para baixar os níveis de colesterol. Alimentação saudável, prática de exercícios físicos e todas as outras medidas que são recomendadas pelos órgãos de saúde, como parar de fumar e de beber em excesso,  não são o bastante. Quem sofre de HF tem de saber que vai precisar usar medicamentos continuamente e que tem uma doença incurável. “É um casamento sem divórcio. Eu nasci com ela, vivo com ela. Só desejo não morrer por causa dela”, diz André, que hoje é fundador e diretor da Associação Hipercolesterolemia Familiar.

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“Quando infartei, tinha duas artérias 80% obstruídas e uma 100%, por conta do LDL (o chamado colesterol ruim) que estava em 409 mg/dl — dependendo do indivíduo, a taxa máxima recomendada pelos médicos é de 190 mg/dl. Depois disso, foram feitos exames de investigacão em minha família. Detectaram que minhas duas irmãs — uma com 20 e poucos anos e outra com apenas 16 anos e bem magra — também tinham níveis altíssimos de LDL. E foi aí que minha mãe lembrou que o meu pai havia morrido de infarto fulminante e colesterol alto aos 48 anos.”

Antes do infarto, André já fazia exames com regularidade e sabia que seus  índices de colesterol costumavam oscilar. Quando estavam altos, ele era tratado com o uso de estatinas, como qualquer outro paciente com níveis altos de LDL, por curtos períodos. O problema é que, mesmo sendo examinado constantemente, nenhum médico havia perguntado o histórico de sua família e muito menos desconfiado de HF.

Depois de exatos 10 anos, André infartou mais uma vez. Talvez ele, seu pai e tantas outras pessoas pudessem ter evitado o infarto se a HF tivesse sido diagnosticada rapidamente e tratada da maneira correta.

Entretanto, a realidade não é assim: a HF é doença silenciosa, que não causa nenhum sintoma (em raros casos, pode haver acúmulo de gordura nos pés e na região dos olhos) e atinge uma em cada 200 pessoas.

Mas, apesar do susto, André pode se considerar um homem de sorte. Marcelo Bertolami, cardiologista e diretor científico do Instituto Dante Pazzanese de Cardiologia, em São Paulo, alerta que, mundialmente, metade das pessoas que infartaram (independentemente de terem ou não HF) não teve nenhum sintoma antes do episódio. E pior: desses, 50%  não tiveram uma segunda chance e morreram.