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Diabetes tipo 2 em crianças: por que os casos estão aumentando?

Fatores como obesidade, privação de sono e genética estão associados a maior ocorrência de casos nessa faixa etária

Em crianças e adolescentes, o diabetes tipo 1 (doença autoimune, na qual o pâncreas não produz insulina) é o tipo mais frequente. Já o diabetes tipo 2 (caracterizado pela resistência à insulina) é uma doença mais comum depois dos 40 anos de idade, geralmente associada a sedentarismo, obesidade e hipertensão, além de fatores hereditários.

Contudo, nos últimos anos, tem se observado um aumento dos diagnósticos em pessoas mais jovens, inclusive crianças e adolescentes

“O diabetes tipo 2 [nessa faixa etária] praticamente duplicou nos últimos 15 a 20 anos. Dados americanos mostram que havia uma incidência no início do século ao redor de 9 crianças e adolescentes com diabetes tipo 2 para cada 100 mil. Mais ou menos 15 anos depois, entre 2017 e 2020, a incidência era de quase 18 em cada 100 mil”, afirma Luciano Giacaglia, endocrinologista e coordenador do Departamento de Pré-Diabetes da Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD).

Uma série de fatores contribui para o surgimento da doença de forma precoce, o que eleva o risco de complicações no longo prazo. 

Veja também: Diabetes tipo 1, tipo 2 e gestacional: conheça as diferenças

 

Obesidade está presente na maioria dos casos

Um dos principais fatores associados ao aumento de casos de diabetes tipo 2 precoce é a obesidade infantil. Em 2025, um relatório do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) revelou que a obesidade superou a desnutrição e já atinge 1 a cada 10 crianças no mundo. 

Segundo o especialista, mais de 80% dos casos de diabetes tipo 2 estão associados a obesidade ou sobrepeso. E a obesidade, por sua vez, geralmente está associada a sedentarismo e consumo excessivo de alimentos processados e hipercalóricos, o que também favorece o desenvolvimento do diabetes. 

 

O que mais explica o aumento de diabetes tipo 2 em crianças e jovens

A obesidade não é a única vilã. O baixo nível socioeconômico é outro fator associado ao aumento de casos da doença. O médico destaca que, nos Estados Unidos, há um crescimento desproporcional de diabetes tipo 2 em crianças e adolescentes de minorias étnicas, como negros, indígenas e hispânicos. 

“Além disso, existem suspeitas relacionadas ao estresse psíquico. Outro aspecto seriam os poluentes presentes na atmosfera e no solo, que poderiam interferir com a ação da insulina, em um fenômeno que a gente chama de disruptores endócrinos”, afirma. 

A privação e baixa qualidade do sono, especialmente ligada ao uso de aparelhos eletrônicos, também favorecem o quadro, de acordo com ele.

Por fim, a hereditariedade desempenha um papel importante, principalmente quando somada aos outros fatores listados. 

“A genética familiar é determinante, um dos principais aspectos envolvidos no desenvolvimento do diabetes tipo 2, de maneira que, mais do que uma causa, o que está acontecendo é que existe uma antecipação de um fenômeno que provavelmente ocorreria em idades mais tardias”, explica Giacaglia. 

 

Riscos do diabetes tipo 2 em idade precoce

O diagnóstico da doença em crianças propicia um risco elevado de complicações tardias, já que os pacientes ficam expostos por mais tempo aos níveis aumentados de glicemia. As complicações mais comuns são as doenças cardiovasculares, como infarto, acidente vascular cerebral (AVC), insuficiência cardíaca e doença arterial periférica (que aumenta, ainda, o risco de amputações). 

“Ao mesmo tempo, a gente tem as doenças microvasculares, como a retinopatia, que pode levar à cegueira; tem os quadros de catarata associados ao diabetes; as doenças do rim, a nefropatia glomerular do diabetes, levando a insuficiência renal e necessidade de diálise ou transplante renal; a neuropatia periférica, com comprometimento da sensibilidade da motricidade e do equilíbrio da pessoa; e as doenças neurodegenerativas, que têm um vínculo forte com o diabetes, principalmente o Alzheimer”, detalha o endocrinologista. 

Veja também: Por que os casos de AVC têm crescido entre os mais jovens?

 

Tratamento do diabetes tipo 2 em crianças

Segundo o médico, o tratamento do diabetes tipo 2 na infância não difere muito do tratamento na fase adulta, sendo baseado principalmente nas modificações de estilo de vida. As principais medidas incluem: 

  • dieta saudável, equilibrada para as necessidades calóricas de cada um; 
  • atividade física regular;
  • hábitos adequados em relação à higiene do sono;
  • conscientização e suporte de saúde mental para as crianças que necessitam de apoio psicológico; 
  • uso de medicações e terapias já aprovadas para a doença.

Recentemente, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) liberou a tirzepatida (de nome comercial Mounjaro) para crianças com diabetes tipo 2 a partir de 10 anos. A indicação é feita exclusivamente para pacientes com o diagnóstico da doença. 

“Nesta faixa etária, está indicado também a possibilidade do uso de metformina e outros agonistas de GLP-1, incluindo liraglutida e semaglutida”, afirma Giacaglia. 

 

Como prevenir?

A prevenção passa, necessariamente, pela redução dos fatores de risco. Isso inclui: 

  • manter uma dieta equilibrada;
  • praticar atividades físicas regularmente;
  • ter uma boa qualidade sono (com redução do uso de eletrônicos);
  • ter tempo de lazer, respeitando as necessidades de cada faixa etária; 
  • evitar ambientes nocivos e áreas de maior poluição. 

Em relação à alimentação, especificamente, o especialista orienta que é importante reduzir a ingesta de alimentos com alto teor de açúcares e carboidratos processados, aumentar o consumo de vegetais e frutas íntegras, evitar alimentos industrializados e suco de frutas, manter um consumo adequado de proteínas e ingerir a quantidade adequada de água.

A responsabilidade, no entanto, não pode ser apenas da família. Políticas públicas são fundamentais para auxiliar na prevenção do diabetes e outras doenças crônicas nessa fase. 

“É necessário também o apoio do governo, facilitando acesso a alimentos saudáveis; garantindo o sossego social, principalmente em áreas de grande ruído, que interrompe o sono das pessoas; a disponibilidade de espaços para a prática de atividades físicas e áreas de lazer com maior segurança para os jovens e crianças; e uma estruturação de programas de educação para os pais, para auxiliá-los nas mudanças de estilo de vida”, destaca Giacaglia.

Para ele, é importante ainda assegurar o acesso a profissionais de saúde mental e de educação física, com aumento da carga de atividade física nas escolas, além da modificação de merendas, para que as crianças que se alimentam fora de casa possam comer de forma saudável. 

Veja também: Quanto mais cedo, melhor: os benefícios da atividade física na infância

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