Depois que a mulher dá à luz e recebe alta hospitalar, muitas vezes a atenção dela, dos familiares e até da equipe de saúde se volta quase exclusivamente para o recém-nascido. Mas é justamente aí que mora o perigo. O puerpério — período que começa logo após o nascimento do bebê — é uma fase que exige atenção especial à saúde da nova mãe.
Nesse período, o corpo passa por intensas transformações físicas, hormonais e emocionais. Além disso, o cansaço e a privação de sono, comuns nos primeiros dias após o parto, também podem impactar significativamente a saúde materna, segundo especialistas.
“O período do puerpério como um todo representa um risco maior para essa mulher. Mas o puerpério imediato, que vai até o 10º dia após o parto, é o período mais crítico”, explica Inessa Beraldo de Andrade Bonomi, vice-presidente da Comissão Nacional Especializada em Gestação de Alto Risco da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo).
É nesse momento que as mulheres têm maior risco de apresentar hemorragias, descontrole de síndromes hipertensivas e processos infecciosos.
Também há um risco aumentado de tromboembolismo (obstrução de um vaso sanguíneo por um coágulo de sangue). Entre as principais complicações, estão a trombose venosa profunda, caracterizada pela formação de coágulos nas veias, geralmente das pernas; e o tromboembolismo pulmonar, que ocorre quando um desses coágulos chega aos pulmões e dificulta a circulação sanguínea.
Redução da mortalidade materna
A atenção adequada durante o puerpério é considerada uma das estratégias mais importantes para reduzir a mortalidade materna, segundo a Febrasgo.
No Brasil, as principais causas de morte materna são, em sua maioria, complicações diretamente relacionadas à gestação, ao parto e ao pós-parto, como pré-eclâmpsia (condição caracterizada pelo aumento da pressão arterial durante a gravidez), hemorragia pós-parto e infecções puerperais.
Por isso, segundo a entidade, o acompanhamento nesse período é fundamental para identificar precocemente sinais de agravamento, evitar atrasos no diagnóstico e no tratamento e garantir acesso rápido à assistência quando necessário.
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Grupos de risco
Hoje, segundo a Febrasgo, a estimativa é de que entre 20% e 30% das gestações sejam de risco. Por isso, alguns grupos de mulheres precisam de acompanhamento ainda mais cuidadoso durante o puerpério.
Um deles é o das pacientes que tiveram pré-eclâmpsia. Isso porque a pressão alta nem sempre desaparece imediatamente após o parto e pode até se manifestar pela primeira vez nos dias seguintes ao nascimento do bebê. Quando não controlada, ela aumenta o risco de complicações graves, como convulsões, acidente vascular cerebral (AVC), insuficiência renal e outras alterações que podem colocar a vida da mulher em risco.
Além disso, segundo a especialista, a atenção deve ser redobrada para mulheres com diabetes e alterações da tireoide, como hipotireoidismo ou hipertireoidismo. Nesses casos, é importante que a condição seja reavaliada após o parto, já que as necessidades de acompanhamento e tratamento podem mudar com o fim da gestação.
Sinais de alerta
Embora algum desconforto seja esperado durante a recuperação pós-parto, determinados sintomas podem indicar complicações e não devem ser ignorados. A orientação é que a mulher procure avaliação médica imediatamente caso apresente sangramento vaginal intenso, febre, falta de ar, dor no peito ou dor abdominal forte.
Outros sinais de alerta incluem dor de cabeça intensa e persistente, alterações na visão, aumento da pressão arterial, convulsões, inchaço excessivo e sensação de mal-estar importante.
Também merecem atenção: secreção vaginal com odor desagradável e sinais de infecção na região da cirurgia ou dos pontos, como vermelhidão, dor, calor local ou saída de secreção.
Mastite: quando se preocupar?
A mastite também está entre as complicações que exigem atenção durante o puerpério. A condição consiste em uma inflamação da mama geralmente associada à amamentação e é mais comum entre mulheres que estão amamentando, já que a sucção do bebê pode provocar pequenas fissuras nos mamilos. Essas lesões facilitam a entrada de bactérias e aumentam o risco de infecção.
“A mulher que tem aumento do volume mamário, com hiperemia (aumento do fluxo sanguíneo) e dor local, e que tem febre associada, precisa procurar ajuda porque muitas vezes a gente precisa associar um antibiótico para melhorar essa mastite”, explica Karina Belickas, ginecologista do Hospital e Maternidade Santa Joana, em São Paulo (SP).
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Incontinência urinária
A incontinência urinária também é uma queixa frequente no puerpério, especialmente entre mulheres que tiveram parto vaginal. Nesses casos, pode haver perda involuntária de urina ao realizar esforços físicos, como tossir, espirrar, rir ou carregar peso.
Embora muitas mulheres considerem esse problema uma consequência normal do pós-parto, especialistas alertam que ele merece avaliação médica.
Além das alterações provocadas pela gestação e pelo parto, a perda urinária pode estar relacionada a outras condições, como uma infecção ainda não diagnosticada. Dependendo da causa, o quadro pode melhorar com acompanhamento especializado e fortalecimento da musculatura do assoalho pélvico por meio da fisioterapia pélvica.
“Muitas mulheres precisam de fisioterapia e fortalecimento da musculatura pélvica, mas, em alguns casos, a causa pode ser uma infecção urinária que ainda não foi diagnosticada. Por isso, quando surgem perdas urinárias, é importante investigar o que está por trás do problema”, afirma Belickas.
Saúde mental
Mulheres que já conviviam com algum transtorno psiquiátrico antes da gestação têm maior risco de apresentar agravamento dos sintomas durante o puerpério.
“E isso ocorre devido à oscilação hormonal que ocorre após o parto (uma queda importante de progesterona), a privação de sono e cansaço (qualquer pessoa, mesmo não puérpera) em contextos de privação de sono vão ter aumento de irritabilidade, estresse, labilidade de humor”, diz Belickas.
Também podem contribuir para o sofrimento emocional as frustrações relacionadas à diferença entre o puerpério idealizado e a realidade. Entre elas estão eventuais dificuldades na amamentação, o choro constante do recém-nascido, problemas relacionados ao sono do bebê e possíveis doenças ou intercorrências envolvendo a criança.
A médica lembra ainda que a falta de sono — comum devido aos cuidados com o recém-nascido — também está associada a transtornos psiquiátricos que podem surgir nesse período, como a depressão puerperal e o blues puerperal (ou baby blues).
Segundo a Febrasgo, nos casos mais graves podem surgir pensamentos de autoagressão, risco de violência contra si mesma ou contra o bebê e sintomas psicóticos.
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Importância da consulta pós-parto
A consulta pós-parto é recomendada para acompanhar a recuperação da mulher e identificar precocemente possíveis complicações. O atendimento costuma ser realizado nos primeiros dias após o nascimento do bebê e permite avaliar se as alterações provocadas pela gravidez estão regredindo conforme o esperado.
Durante a consulta, o médico verifica a recuperação do útero, a amamentação, a presença ou não dos lóquios (secreção eliminada após o parto) e avalia aspectos como vacinação, alimentação, retorno às atividades físicas e retomada da vida sexual. O acompanhamento também ajuda a identificar problemas que podem surgir durante o puerpério e que exigem tratamento.
“A consulta puerperal é extremamente importante como o fechamento do ciclo gravídico-puerperal e também para que possamos observar se essa paciente está apresentando alguma complicação”, destaca Bonomi.
O papel da rede de apoio
A rede de apoio tem uma função importante durante o puerpério, segundo especialistas. Como a mulher está se recuperando do parto enquanto se adapta aos cuidados com o bebê, familiares e pessoas próximas podem ajudar a identificar sinais de alerta que nem sempre recebem a devida atenção nos primeiros dias após o nascimento.
Mudanças importantes no estado geral da puérpera, como desânimo intenso, mal-estar, febre, aumento do sangramento vaginal, secreção com mau cheiro ou dores persistentes devem ser observadas. Nos casos de cesariana, também é importante ficar atento a sinais de infecção na ferida cirúrgica, como dor, vermelhidão ou saída de secreção.
“A família tem um papel fundamental na identificação dos fatores de risco e dos sinais de gravidade para essa gestante”, afirma Bonomi.
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