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Menstruação retrógrada: quando o fluxo menstrual faz o caminho inverso

Embora o processo em si não seja uma doença, especialistas alertam para a importância de investigar cólicas intensas e outros sinais que comprometem a qualidade de vida

Menstruar é algo fisiológico, mas o que acontece dentro do corpo durante esse período ainda gera muitas dúvidas. Por exemplo, você sabia que nem todo o fluxo segue o caminho esperado? Às vezes, fragmentos do endométrio pegam um “atalho” para trás, subindo pelas tubas uterinas em direção ao abdômen.  Esse processo é conhecido como menstruação retrógrada.

Apesar de frequentemente associada à endometriose, a menstruação retrógrada não é considerada uma doença em si. Pelo contrário: evidências científicas sugerem que ela pode ser um fenômeno relativamente comum, ainda que restem dúvidas sobre sua frequência exata e possíveis diferenças entre quem desenvolve ou não a endometriose.

 

O que é menstruação retrógrada?

A menstruação retrógrada acontece quando parte do fluxo menstrual não é eliminada exclusivamente pela vagina e retorna pelas tubas uterinas em direção à cavidade abdominal. Ela pode ocorrer em muitas mulheres sem causar problemas de saúde.

Segundo Sérgio Podgaec, ginecologista e presidente da Sociedade Brasileira de Endometriose e Cirurgia Minimamente Invasiva (SBE), o fenômeno pode ocorrer devido às contrações uterinas durante o período menstrual, à anatomia do sistema reprodutor e à própria dinâmica do fluxo. “Em geral, não é considerado uma doença isolada, mas um fenômeno fisiológico que pode ocorrer em muita gente”, explica.

Veja também: Coisas que acontecem no corpo durante a menstruação: o que é normal?

 

Por que ela é associada à endometriose?

A relação entre menstruação retrógrada e endometriose começou a ser estudada há quase um século. Uma das explicações mais conhecidas para a origem da doença é a chamada teoria de Sampson, proposta em 1927.

De acordo com ela, células endometriais presentes no fluxo menstrual retrógrado poderiam alcançar a cavidade pélvica, aderir a estruturas como ovários, intestino, bexiga e peritônio, sobreviver e continuar se desenvolvendo fora do útero.

“Essa teoria ajuda a explicar muitos casos de endometriose pélvica, mas não explica toda a doença. A endometriose é multifatorial”, afirma Podgaec. Ou seja, ela depende de uma combinação de diferentes fatores no organismo para se manifestar.

Atualmente, os pesquisadores associam o maior risco da doença a fatores como a primeira menstruação muito precoce, ciclos menstruais curtos ou um histórico familiar da condição, que pode ser reflexo de uma predisposição genética que facilita a sobrevivência dessas células fora do útero. Além disso, a ciência estuda a influência de alterações imunológicas, do ambiente hormonal e de processos inflamatórios nesse cenário.

A relação entre menstruação retrógrada e endometriose desperta interesse porque a doença está longe de ser rara. Segundo o Ministério da Saúde, alinhado a estimativas globais, ela afeta entre 5% e 15% das mulheres em idade reprodutiva.

Pesquisadores buscam entender, por exemplo, se existem diferenças na quantidade, frequência ou características do material menstrual que retorna pelas tubas entre mulheres com e sem endometriose.

 

Quando a dor não deve ser ignorada

Se por um lado, cólicas leves ou moderadas são comuns durante a menstruação, alguns sintomas não devem ser encarados como parte natural do ciclo. Os sinais que merecem investigação médica incluem:

  • cólica menstrual intensa ou incapacitante;
  • dor pélvica persistente;
  • dor durante as relações sexuais;
  • dor para evacuar ou urinar, especialmente durante o período menstrual;
  • sangramento urinário ou intestinal relacionado ao ciclo;
  • fadiga importante;
  • dificuldade para engravidar.

O desconhecimento e a normalização desses sintomas fazem com que muitas mulheres demorem anos até receber o diagnóstico correto. O especialista aponta que ideias como “gravidez cura a endometriose”, “se o exame de imagem deu normal, a doença está descartada”ou “toda pessoa com a condição ficará infértil” são mitos que precisam ser combatidos.

De acordo com ele, sintomas que interferem na rotina, nos estudos, no trabalho, nas atividades físicas ou na vida sexual devem ser avaliados por um profissional. A recomendação também vale para adolescentes.

“Não é necessário esperar anos para investigar. Quanto mais cedo a suspeita é levantada, maiores são as chances de controle da dor, preservação da qualidade de vida e planejamento adequado do tratamento”, conclui Podgaec.

Veja também: Endometriose na adolescência: sintomas, diagnóstico e tratamento

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