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Infectologia

Dengue pode aumentar risco de Guillain-Barré nas semanas após infecção, mostra estudo da Fiocruz

Pesquisa analisou dados do SUS e identificou associação com síndrome neurológica rara

Além da febre alta e das dores intensas no corpo, a dengue também pode desencadear uma complicação neurológica rara e grave: a síndrome de Guillain-Barré (SGB). Um estudo da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) mostrou que pessoas infectadas pelo vírus da dengue têm risco 16,7 vezes maior de desenvolver a síndrome nas seis semanas após a infecção.

Transmitida pela picada do mosquito Aedes aegypti, a dengue é uma infecção viral que pode variar de quadros leves a complicações graves. Já a síndrome de Guillain-Barré é uma doença neurológica rara em que o sistema imunológico passa a atacar os próprios nervos, causando fraqueza muscular progressiva e até paralisia.

“Infecções virais, incluindo a dengue, podem desencadear respostas autoimunes porque o sistema imunológico passa a reagir contra estruturas do próprio organismo, como os nervos periféricos, levando a fraqueza muscular e paralisia. O risco geralmente é mais acentuado nas duas primeiras semanas após a infecção, quando a resposta imune está mais intensa”, explica Ho Yeh Li, infectologista e membro do Comitê Científico de Arboviroses da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI). 

 

O que apontou o estudo

Para chegar aos resultados, os pesquisadores analisaram dados de 5.055 pessoas internadas com a síndrome de Guillain-Barré no Sistema Único de Saúde (SUS) entre 2023 e 2024. 

Entre os avaliados, 89 pacientes desenvolveram a condição nas seis semanas seguintes à dengue. Os pesquisadores também observaram que o risco associado à dengue é semelhante ao visto em outras infecções já conhecidas por desencadear a síndrome, como influenza e a bactéria Campylobacter jejuni

Apesar de incomum, a síndrome pode afetar cerca de 36 pessoas a cada grupo de 1 milhão de casos de dengue. Em 2025, o Brasil registrou 1,6 milhão de infecções pela infecção viral.

“Quanto maior o número absoluto de casos de dengue, maior tende a ser o número de complicações raras, como a síndrome de Guillain-Barré”, explica Marcus Tulius Teixeira, neurologista e secretário do Departamento Científico de Neuroinfecção da Academia Brasileira de Neurologia (ABN).

Veja também: Dengue e a falsa sensação de recuperação

 

Diagnóstico precoce é fundamental para o tratamento adequado

Após a dengue, alguns sintomas neurológicos devem servir de alerta e exigem avaliação médica imediata. Entre os principais sinais, estão: 

  • fraqueza progressiva nos braços ou pernas;
  • dificuldade para andar;
  • formigamentos que se espalham pelo corpo;
  • dores nos nervos;
  • paralisia facial;
  • dificuldade para engolir;
  • falta de ar;
  • sonolência excessiva;
  • confusão mental;
  • convulsões;
  • rigidez na nuca;
  • retenção urinária.

O diagnóstico da síndrome de Guillain-Barré associada à dengue começa pela confirmação da infecção viral.

“A investigação neurológica é feita após entrevista clínica, exame neurológico e análise do líquor (líquido que envolve o cérebro e a medula espinhal). Em alguns casos, exames de imagem, como a ressonância magnética, também podem ser necessários para descartar outras doenças”, completa Li.

Para o neurologista, identificar a doença precocemente permite iniciar rapidamente tratamentos como imunoglobulina intravenosa e plasmaférese, procedimentos que reduzem a ação desregulada do sistema imunológico. Quando aplicados no início do quadro, eles podem diminuir a progressão da síndrome, reduzir o risco de insuficiência respiratória e acelerar a recuperação.

“As diretrizes mostram que esses tratamentos funcionam melhor quando começam nas primeiras semanas da doença. Depois disso, a chance de conter rapidamente a inflamação diminui e os nervos passam a precisar de mais tempo para se recuperar”, completa Teixeira.

 

Dengue e outras complicações neurológicas

Embora a síndrome de Guillain-Barré seja uma das complicações neurológicas mais conhecidas associadas à dengue, ela não é a única. A infecção também pode afetar o sistema nervoso de diferentes formas, provocando desde alterações cognitivas e confusão mental até convulsões e problemas motores. Entre as mais frequentes, estão: 

  • encefalopatia: é a manifestação neurológica mais frequente relacionada à dengue. Pode causar sonolência, confusão mental, delírios, redução do nível de consciência, convulsões e, em casos graves, coma. Geralmente está associada às formas graves da doença e às alterações sistêmicas provocadas pela infecção;
  • encefalite e meningite: são complicações menos frequentes, porém graves, causadas pela invasão direta do vírus no sistema nervoso central. Nesses casos, há febre, dor de cabeça intensa, alteração do estado mental, convulsões e déficits neurológicos;
  • distúrbios do movimento: em casos raros, a dengue também pode desencadear tremores, dificuldade de coordenação motora e movimentos involuntários, normalmente nas primeiras semanas após a infecção;
  • alterações cognitivas e neuropsiquiátricas: alguns pacientes relatam sintomas persistentes após a dengue, como fadiga intensa, sonolência, dificuldade de concentração, lapsos de memória, tontura e alterações cognitivas, quadro que alguns especialistas chamam de “síndrome pós-dengue”.

 

Importância do estudo para a vigilância da dengue

Desde 1998, já havia relatos de casos de síndrome de Guillain-Barré após a dengue, mas ainda não havia uma análise capaz de medir esse risco com precisão. 

Os autores defendem que a síndrome passe a ser incluída nos protocolos de vigilância como possível complicação pós-dengue. O objetivo é facilitar o diagnóstico precoce e o início rápido do tratamento.

Como ainda não existe um antiviral específico contra a dengue, especialistas reforçam que medidas de prevenção, como combate ao mosquito Aedes aegypti e vacinação, continuam sendo fundamentais para reduzir casos graves e complicações neurológicas.

“Em epidemias de dengue, aumenta o número absoluto de casos de SGB, o que eleva a necessidade de retaguarda hospitalar, assim como estratégias de tratamento. Os pacientes com a síndrome podem necessitar de ventilação mecânica, ou outras estratégias terapêuticas específicas, além de aumentar o risco de internação prolongada”, conclui Li.

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