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Pediatria

Por que bebês não devem beber água antes dos 6 meses?

Oferta precoce pode reduzir a ingestão de leite, interferir na nutrição e trazer riscos ao organismo ainda em desenvolvimento

Em dias quentes, é comum que pais e cuidadores se perguntem se o bebê também precisa beber água. A dúvida faz sentido, mas, nos primeiros meses de vida, o organismo infantil funciona de forma diferente do adulto.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda que o aleitamento materno seja exclusivo até os 6 meses de idade. Isso significa que, nesse período, o bebê não deve receber água, chás, sucos ou qualquer outro alimento, salvo orientação médica específica. Nos casos de prematuridade, a recomendação deve considerar a idade corrigida da criança.

O leite materno já contém a água e os nutrientes necessários para manter o bebê hidratado, mesmo em dias quentes. Cerca de 88% de sua composição é formada por água, além de proteínas, vitaminas, minerais, lactose e fatores imunológicos importantes para o crescimento e o desenvolvimento.

O leite materno consegue hidratar a criança mesmo em dias muito quentes. Não é necessário oferecer água além daquela que já está presente no leite”, explica Mariele Rios, pediatra pós-graduada em aleitamento materno e professora de pediatria na Universidade de Itaúna, em Minas Gerais. 

A especialista reforça que essa composição não torna o leite “fraco”. Pelo contrário: ao longo da mamada, ele se adapta às necessidades do bebê. No início, é mais líquido e contribui para a hidratação; depois, torna-se mais rico em gordura e calorias, favorecendo a saciedade e o ganho de peso.

Veja também: 6 fatores que afetam a produção de leite materno

 

Por que oferecer água antes da hora pode ser prejudicial?

Antes dos 6 meses, o estômago do bebê ainda é pequeno. “Quando oferecemos água antes do momento adequado, ela compete por espaço no estômago com o leite materno. Isso pode fazer com que o bebê receba menos nutrientes importantes para o desenvolvimento”, afirma a médica. 

Além do risco nutricional, a oferta precoce ou excessiva de água pode favorecer desequilíbrios hidroeletrolíticos, já que os rins do bebê ainda estão em amadurecimento. Em situações mais graves, pode ocorrer intoxicação hídrica, condição relacionada à diluição do sódio no organismo e que exige atendimento médico. Também há risco de contaminações e infecções gastrointestinais, especialmente quando a água não é tratada adequadamente.

No caso dos bebês que usam fórmula infantil, a hidratação também deve seguir orientação profissional. A fórmula deve ser preparada exatamente conforme a recomendação do fabricante, respeitando a proporção correta entre pó e água. A diluição inadequada ou a oferta de água sem indicação pode comprometer a ingestão de nutrientes e trazer riscos à saúde.

 

Quando a água deve entrar na rotina?

A água deve começar a ser oferecida junto com a introdução alimentar, por volta dos 6 meses de idade (ou da idade corrigida, no caso de bebês prematuros). Antes disso, é importante observar sinais de prontidão, como conseguir sentar com apoio mínimo, manter a cabeça firme, demonstrar interesse pelos alimentos e apresentar redução do reflexo de empurrar a comida com a língua.

Com o início da alimentação complementar, a água passa a fazer parte da rotina em pequenas quantidades e de forma gradual. Ela complementa a alimentação, enquanto o leite materno ou a fórmula continuam tendo papel importante na nutrição e na hidratação.

A recomendação é oferecer pequenos volumes ao longo do dia, preferencialmente em copo aberto e sempre com supervisão. No início, é esperado que o bebê aceite apenas alguns goles. O mais importante é criar o hábito, sem pressão ou horários rígidos.

 

Como saber se o bebê está bem hidratado?

Alguns sinais ajudam a identificar se a hidratação está adequada. Após a primeira semana de vida, o bebê costuma apresentar pelo menos cinco ou seis fraldas molhadas ao longo de 24 horas, com urina clara e em bom volume. Outros sinais positivos incluem boca e língua úmidas, olhos brilhantes, presença de lágrimas ao chorar, comportamento ativo e boa disposição.

Já boca seca, urina escura, redução significativa do xixi, olhos fundos, choro sem lágrimas, irritabilidade intensa ou sonolência excessiva podem indicar desidratação e exigem avaliação médica. A atenção deve ser ainda maior quando esses sinais aparecem junto com febre, vômitos, diarreia ou recusa das mamadas.

Veja também: Como reconhecer sinais de desidratação?

 

O papel do pediatra

O acompanhamento com o pediatra é fundamental para orientar o aleitamento materno, o uso de fórmula quando necessário, a introdução alimentar e a oferta de água. O profissional também avalia crescimento, ganho de peso e necessidades individuais de cada criança.

O ideal seria que todas as famílias contassem com uma equipe ampla, incluindo nutricionista e outros profissionais de apoio, mas essa não é a realidade de grande parte da população. Por isso, o pediatra costuma ser uma das principais referências para orientar cuidados básicos e ajudar a família a construir uma rotina alimentar segura e saudável.

“O pediatra cuida da criança para que ela se torne um adulto saudável. Eu gosto muito da analogia de dizer que o pediatra é como um jardineiro: ele avalia o solo, avalia a semente e tenta entender do que aquela criança precisa para crescer com o máximo do seu potencial”, compara Rios.

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