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Drauzio Entrevista | Lilia Schwarcz



Lilia Schwarcz fala sobre D. João, Getúlio, escravidão e racismo histórico no Brasil.

 

A antropóloga e historiadora Lilia Schwarcz bate um papo com o dr. Drauzio sobre sua História do Brasil escrita com a historiadora e cientista política Heloisa Starling, desde o genocídio indígena com a chegada dos portugueses, a instauração da escravidão, até o racismo impregnado no país e os anos mais recentes após a República. Assista no final do post à entrevista completa e conheça o canal da Lilia no YouTube.

Entrevista realizada em julho de 2015.

 

Brasil: Uma Biografia

“Nós fizemos um plano de fazer um livro muito narrativo. A Heloisa vem da história e da ciência política; eu venho da história e da antropologia. A gente queria convencer o leitor de que História não é um acúmulo de datas. Que História são as questões que você faz e que organizam as datas. Outra questão era trazer temas da cultura para a linha de frente. Em geral a gente conta uma história política, econômica, e a cultura vem a reboque, como consequência, como floreio, mas ela não tem essa densidade de explicar e construir um momento. Então, nós tínhamos essa preocupação muito grande de que a cada momento da história os vários elementos da cultura iam aparecendo: as músicas, os costumes, os rituais, o teatro, a literatura, a pintura. A gente não sabia aonde ia dar, mas era uma intenção. […] Em geral a gente vê Antropologia de um lado, História do outro, e eu queria mostrar quando é que essas disciplinas se encontravam. E sobretudo, o livro também partia dessa ideia de que era preciso desmontar uma série de verdades arraigadas entre nós, entre elas a questão do genocídio indígena. Nós sabemos hoje que o encontro foi um grande desencontro. Os indígenas morriam de doenças absolutamente desconhecidas para eles, mas a gente sabe também que morriam muito pelas guerras provocadas pelos europeus e pela escravidão. A linguagem da escravidão começa com os indígenas.”

 

Silenciamento de indígenas

“A ideia da tela A Primeira Missa, de Victor Meirelles, é colocar a floresta, a Igreja ao centro rodeada pelo Estado e os indígenas em uma situação absolutamente passiva, aprendendo com a civilização, quando nós sabemos que as guerras foram terríveis. Essa situação passiva não podemos verificar quando se observam os dados. E há um outro silenciamento nesta tela. No Rio de Janeiro, naquela pequena África que circundava o paço, 75% da população era negra — escrava ou não –, mas a pintura, a literatura, a poesia, se voltaram para um ‘tempo sem tempo’, uma ‘geografia sem geografia’ e sobretudo um tempo que não tinha escravos africanos.”

 

Escravidão no Brasil

“O que me impressionou muito foi a reação da plateia brasileira ao sair de uma sessão do filme ‘Doze Anos de Escravidão’. As pessoas saíam muito aliviadas dizendo ‘puxa, que bom que aqui não foi desse jeito’. E aí, a gente vai ver os dados — que estão neste livro –, e a média de vida de um escravizado no campo nos Estados Unidos era de 35 anos. Baixo, né? No Brasil, era de 25 anos. Nos anúncios de fuga de escravos, os escravos de 40 anos eram descritos como desdentados, com cabelos brancos, alquebrados, e eles usam esses sinais para captura do escravo. Portanto, não me parece que sejam mentirosos, porque o interesse de um senhor que coloca um anúncio é a captura. Então, uma coisa que a gente tem que entender é que aqui foi mesmo diferente dos Estados Unidos. Porque aqui, a escravidão tomou o território todo, o Brasil recebeu 40% da população africana que deixou compulsoriamente o continente e fomos o último país a abolir a escravidão no Ocidente.”

 

Racismo histórico

“O Brasil é um país que combina perversamente inclusão cultural com exclusão social. O nosso problema é lidar com essa lógica dos dois lados da moeda. O fato de não termos leis discriminatórias fala muito a nosso favor. Por outro lado, se pegarmos os nossos Censos, é muito fácil verificar como populações morrem mais cedo, nascem menos, são muito preconceituadas no trabalho, na escola. E se pegarmos os dados do Judiciário, nós sabemos que se pegarmos um negro e um branco que estão entrando no sistema da Justiça pela mesma penalidade, o negro tem 25% de chance a mais de acabar na cadeia que o branco. Isso sem pensar sobre o que são as batidas policiais, que visam, claro, carros mais antigos, mas todo mundo sabe qual é a cor mais parada pelos policiais. Na época da escravidão, ex-escravos libertos que percorressem o interior do país com um passaporte podiam ser apreendidos por ‘suspeita de ser escravo’. Hoje nós sabemos como toda uma geração de meninos negros é socializada na ideia de mostrar humildade diante da polícia, senão vão apanhar feio. Esse são elementos teimosos da nossa história que estão absolutamente presentes no nosso cotidiano.”

 

A injustiça com D. João

“D. João foi uma figura muito maltratada pela nossa historiografia durante muito tempo. Ele gostava de comer coxinha de galinha? Parece que gostava. Ele era indeciso? Muito. Ele foi mal estrategista? Não. Se a gente pensar, muitas Coroas perderam sua hegemonia nesse momento. Basta pensar no que aconteceu com a Coroa Espanhola, do lado de Portugal.”

 

Sucesso de Portugal no Brasil

“Os portugueses criaram diferentes sistemas coloniais. No Oriente eles tinham um tipo de colonização; na África, uma colonização de fronteira, só de entrepostos. No Brasil, eles pretendiam fazer uma colonização desse tipo. Portugal se reinventou construindo uma colônia de exploração. As capitanias funcionavam assim: daqui desse canto do litoral, até onde você quiser ir entrando, é seu. A partir da costa, em trechos retos, não respeitava acidente geográfico, não respeitava nada. E qual foi o pulo do gato? A escravidão. Portugal não tinha população para povoar esse lugar, era preciso entrar com o trabalho compulsório. E aí, a escravidão compulsória africana virou um grande negócio. No final de século XVI, o tráfico rendia mais que a cana-de-açúcar, porque era uma maneira de manter os navios sempre cheios: ia cana, voltava escravizado. E como Portugal dominava as pontas, era uma lucratividade incalculável. Como saída, foi uma saída absolutamente inventiva.”

 

República e Getúlio

“A Primeira República é um experimento social da maior importância. Tem todo tipo de greve, tem a Revolta da Chibata, tem Canudos, tem todo tipo de movimentação social que a gente não via no Império. Se você quiser contar, num átimo, a História do Brasil, conta a história do Getúlio. Ele foi um populista e foi um ditador. Era um líder muito difícil de domesticar, e não vale a pena tentar achatá-lo a partir de um primeiro momento, um segundo ou do momento em que ele se mata. […] Outra dificuldade de Getúlio Vargas é que ele é modal, para a gente pensar no nosso modelo de política. Essa ideia de que um bom político é quase um pai. Qual o problema desse tipo de compreensão? É que nós pensamos a política como um efeito da relação pessoal, e não pública.”

 

Corrupção no Brasil

A corrupção e as efervescências na democracia brasileira dos anos 2010.

 

Entrevista completa