Dr. Drauzio entrevista o político, jornalista e professor Jean Wyllys, militante do combate à homofobia, à intolerância e de outras causas sociais.

 

A esquerda e os meios de comunicação

Imprensa

“Todo jornal é uma arena, onde têm muitas forças em conflito, porém eles saem com a cara dos seus donos. E os jornais estão ligados a grandes corporações e, quando não estão ligados a famílias, estão ligados a políticos que têm um objetivo muito claro. Embora eles empreguem pessoas de esquerda, comprometidas com a justiça social, redução da pobreza, defesa das minorias e liberdades, há interesses que estão acima dessas pessoas que trabalham ali.”

Controle da mídia

“Não vamos defender uma regulamentação dos meios de comunicação que implique numa censura. Ninguém quer a censura, nem quer o controle dos meios do conteúdo nem que eles virem porta-vozes de partido ou ideologia. Eu defendo uma imprensa livre, mas livre inclusive de oligopólios, monopólios, do controle de famílias fechadas. Uma imprensa que seja plural.”

Importância da TV

“Sempre fui noveleiro, a novela me despertou para autores que a escola não tinha me apresentado. Eu acho que a TV é um produto a ser levado a sério. Eu reclamo muito que a esquerda tem esse problema também, de não levar a comunicação de massa a sério. […] Lembrei de uma frase de Jean Baudrillard, filósofo francês, que estuda a cultura de massa, que diz o seguinte: ‘quando milhões de pessoas trocam um comício pelo último capítulo de novela, isso não pode ser transformado num mero equívoco.”

 

BBB e candidatura

Popularidade após o BBB

“De repente eu fui convertido nisso e minha vida deu um desvio e eu pensei: Eu preciso fazer algo pra colocar minha vida de novo no trilho. E como fazer isso? […] A ideia era pegar esse legado da popularidade e conciliar com ativismo político, ativismo de direitos humanos, como professor universitário, que era uma forma de juntar as duas coisas.”

Candidatura

“Em 2006, eu recebi de ACM NEto um convite pra ser vereador em Salvador na chapa dele. ‘Agradeço, mas não tenho nenhuma identificação ideológica nem programática com teu partido, não vou aceitar.’ Aí fui chamado para participar do seminário LGBT que acontece na Câmara dos Deputados e um mês depois fui chamado pra uma audiência pública no Senado para tratar do PLC122. Quando eu terminei essa audiência, uma amiga minha me levou para apresentar aos senadores petistas. E o Mercadante falou comigo que eu deveria me candidatar, que a comunidade LGBT carece de uma representação de qualidade […] Nesse mesmo ano encontrei a Heloísa Helena no cortejo afro em salvador e ela me disse que eu deveria me filiar ao PSOL. Bom, três pessoas disseram q eu deveria me candidatar, é porque o universo esta me mandando um sinal. […] Aí, em 2009 eu me filiei ao PSOL.”

Atuação no parlamento

“Um deputado cumpre dois papéis: um papel legislativo propriamente dito (propor leis, votar leis, impedir que certas leis sejam aprovadas, porque lei injusta tem q ser derrubada, mesmo) e um trabalho político que envolve a fiscalização do Executivo, e promover o debate politico. […] Eu acho que um deputado federal que entre com esse espirito, com a ideia de que ele não vai ter necessariamente ganhos legislativos, mas pode promover o impacto político, já ajuda bastante. A gente recuperou a Comissão de Direitos Humanos, impediu o projeto da cura gay, o Estatuto da Família, que está barrado devido à nossa atuação. Eu fico feliz.”

 

Relação com o pai

Alcoolismo

“Eu associei muito ao meu pai o fato de ele ter problema com alcoolismo, não parar no emprego. […] Quando eu saí para o colégio interno, quando comecei a olhar meu pai com certa distância, que eu comecei a compreender esse homem, meu sentimento foi se transformando por ele. Eu fazia planos, ‘quando eu chegar em casa vou abraçar meu pai, vou ter uma atitude de carinho por ele’. Quando eu chegava em casa e ele estava bêbado, descia a parede de gelo e eu não conseguia fazer aquilo que eu imaginei. […] Ele sentado do meu lado e eu me dei conta, com aquele homem ali, que sempre teve uma presença física na minha vida, mas nunca uma presença afetiva. […] Do diagnóstico da doença até a morte dele, foram nove meses, quase que um parto ao contrário. […] Toda a doença dele foi um processo de perdão e eu tive o pai q eu queria e o afeto que eu procurei a vida inteira, foi na hora de ele partir.”

Infância e relações comunitárias

“Eu conduzi minha vida inteira para tentar reparar os danos contra a população da qual eu faço parte. É impedir que outros destinos imperfeitos se desenhem, se reconstruam, se reproduzam. […] Eu sou uma exceção. A regra é que uma pessoa nasça pobre e reproduza a pobreza; não porque ela quer, mas porque ela não tem chance, mesmo. Lá na Baixada da Candeia tinha muitos candomblés, uns oito ou nove, e a gente adorava ir às festas públicas dos terreiros, mesmo contra a vontade da minha mãe, porque tinha o momento do ajeum, que era o momento de dar comida para a comunidade do terreiro. E a gente ia para comer! […] Então tinha essa coisa da vizinhança, da troca de coisas, algo que os economistas não medem, uma solução de enfrentamento da pobreza que está se perdendo. Essas relações vicinais vêm se perdendo e se deteriorando na medida em que as pessoas vão sendo convertidas tão somente em consumidoras de bens que elas não precisam necessariamente para viver.”

 

Homossexualidade, preconceito e Igreja

Infância gay

“Todo mundo foi criança, e nós, gays e lésbicas, fomos crianças. Tivemos uma infância. E há uma especificidade na nossa infância, isso precisa ser reconhecido. Enquanto a gente não reconhecer que existe a infância gay, LGBT, e que essa infância é alvo de uma violência ali, naquele momento, a gente não vai enfrentar a raiz da homofobia e os males que nos afligem. Fui fazer um tema de um seminário LGBT da Câmara sobre infância LGBT e o material do seminário foi utilizado pelo Jair Bolsonaro e pelo Marco Feliciano para me difamar e difamar os intelectuais que falaram no evento. E difamou a partir de uma associação que está no imaginário de muita gente, entre homossexualidade e pedofilia. A ideia de que a gente quer tratar da infância LGBT porque a gente é, no fundo, um pedófilo, e a gente quer abusar das crianças. Isso é uma estupidez, uma maldade, porque os dados da violência sexual […] contra a aponta que a vítima preferencial são as meninas e que o algoz quase sempre é alguém próximo dela, o pai, o padrasto, o tio, o irmão mais velho.”

Bolsonaro, Feliciano e Olavo de Carvalho

“Eles me detestam tanto e concentram tanta força em me difamar porque eu sou a antítese do que se prega publicamente sobre a homossexualidade. A ideia de que ser homossexual é estar automaticamente em um destino mim perfeito: ser marginal, ser fracassado. E eu provo o contrário. Um pai que chegue para o filho e diga assim ‘eu não quero que você seja viado porque viado é tudo o que não presta, viado não é bem sucedido na vida’, aí ele diz assim ‘ué, mas aquele deputado ali é viado. E é deputado’. […] Talvez por isso eles se incomodem tanto e por isso haja tanta exortação ao meu silêncio.”

Orientação sexual

“Ninguém opta pela orientação sexual, orientação é algo que se constrói, e é muito complexo porque há aspectos culturais, biológicos. E se a gente não vai fazer interrogações sobre a origem da heterossexualidade, por que a gente tem que se interrogar o tempo inteiro sobre a origem da homossexualidade? Basta tratar como algo dado. Algumas pessoas vêm à vida e desenvolvem uma orientação, um afeto, um desejo por pessoas do mesmo sexo, do mesmo gênero. Isso deveria ser aceito de bom grado, porque não tem a ver com o outro, tem a ver comigo. É a minha maneira de amar, de ser feliz. Por que você quer negar esse direito à felicidade?”

Homossexualidade na Igreja

“Ainda que a dualidade seja muito importante para a Igreja […], ela já deu exemplos de que nem sempre ela se posicionou do lado que ela dita que é certo. E eu falo não só da presença dos milhares de padres gays que estão na Igreja, inclusive praticando a homossexualidade apesar do voto de castidade […], mas também falo de outras questões em que a Igreja esteja envolvida. Por exemplo, a morte de mulheres na Idade Média acusadas de bruxas porque praticavam uma religião que não era a hegemônica, que eles queriam. Enfim, não vou citar todos os males, os erros que a Igreja cometeu. Eu acho que a Igreja como instituição pode errar, mas ela não pode permanecer no erro, ela deveria rever.”

 

Travestis e transexuais

Travestis nas classes mais pobres

“Mesmo tendo um sexo que a natureza deu feminino ou masculino, alguma coisa desde muito cedo diz que ela não pertence àquela pele.[…] E aquilo tem tanta força que ela faz uma ruptura com a família, ou a família faz a ruptura por ela. A primeira vez que um pai flagra um filho de 12 ou 13 anos vestido de mulher em casa, com as roupas da mãe, ele espanca e expulsa de casa. […] Quando você é expulso de casa e está na rua, desamparado, uma rede o acolhe, que em geral é a rede das pessoas travestis e transexuais que já romperam com suas casas e já vivem da prostituição. […] Então, no caso das travestis e transexuais, a prostituição é um destino, não é uma escolha. Eu luto pelo dia em que será uma escolha.”

Atendimento de travestis e transexuais no SUS

“Eu acompanhei uma sessão de aplicação de silicone industrial […] e é um horror, dá errado muitas vezes. E quando a gente fala para as pessoas que a gente precisa segurar no SUS esse processo para que as pessoas não morram, dizem ‘ah, mas o SUS não tem que se ocupar disso, a natureza deu um corpo para ela, por que ela quer mudar esse corpo?’. Eu digo a elas ‘pelo mesmo motivo que você alisa seu cabelo e pinta de vermelho.”

 

Trabalho acadêmico e o futuro

Trabalho em casa de detenção

“Estudei três formações discursivas sobre a chacina do Carandiru: os autos do processo, a cobertura do Notícias Populares e da Folha de São Paulo […] e a literatura. […] E discuti nesses três relatos porque a verdade dos 111 presos se impôs. […] Um dos pontos mais polêmicos da minha dissertação de mestrado foi o capítulo em que eu falo com oo pânico moral em torno da aids teve um papel que não pode ser desprezado na chacina.”

Futuro 

“Eu sonho pelo dia em que a gente não precise mais — mas no momento elas são importantes e necessárias — de políticas afirmativas de promoção da igualdade racial e de acesso da população negra à universidade, sonho pelo dia em que os homossexuais não sejam discriminados. Que as transexuais não tenham a prostituição como destino e que as prostituas que escolheram ser prostitutas possam ser respeitadas como profissionais do sexo. Eu sonho com uma sociedade melhor, de respeito […], de gente fina elegantes e sincera, com habilidade para dizer mais sim do que não. A gente precisa dizer mais ‘sim’.”

 

Assista abaixo à entrevista completa.