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Nova vacina contra a dengue: como funciona e quem pode se proteger

Vacinas ampliam a proteção coletiva, enquanto medidas ambientais seguem fundamentais

A vacina contra a dengue é um imunizante desenvolvido para reduzir o risco de infecção pelo vírus da dengue, doença transmitida pela picada do mosquito Aedes aegypti. Um dos principais desafios no enfrentamento da enfermidade é o fato de o vírus apresentar quatro sorotipos diferentes — DENV-1, DENV-2, DENV-3 e DENV-4 —, o que exige que uma vacina eficaz seja capaz de proteger contra todos eles.

Atualmente, o Brasil conta com duas vacinas aprovadas, ambas tetravalentes, com esquemas vacinais distintos e incorporação progressiva ao Sistema Único de Saúde (SUS).

 

Quais vacinas contra a dengue estão disponíveis

A primeira é a Qdenga, desenvolvida pela farmacêutica japonesa Takeda. Ela já foi incorporada ao SUS em 2023 e é administrada em duas doses, com intervalo de três meses entre elas. A vacina está indicada para pessoas de 4 a 60 anos de idade. 

A segunda é a vacina 100% nacional desenvolvida pelo Instituto Butantan, conhecida como Butantan-DV. Produzida com a mesma tecnologia de vírus vivo atenuado, é a primeira vacina contra a dengue em dose única no mundo e está em fase de implementação gradual na rede pública, com aplicação inicial em municípios-piloto, sendo um deles o de Botucatu, no interior de São Paulo.

 

Como a vacina age no organismo

As duas vacinas utilizam a tecnologia de vírus vivo atenuado, na qual o vírus da dengue é enfraquecido em laboratório. Dessa forma, ele não causa a doença, mas mantém a capacidade de estimular o sistema imunológico. Além disso, por serem vacinas tetravalentes, protegem contra os quatro tipos de vírus da dengue identificados.

Ao receber a vacina, o sistema imunológico entra em contato com o vírus enfraquecido e passa a produzir anticorpos e células de memória capazes de reconhecer os quatro sorotipos da doença.

“Isso permite que, uma vez que eu coloque este antígeno dentro do organismo, que eu tome essa vacina e apresente para o meu sistema imune o vírus enfraquecido, ele consiga estimular o meu sistema imune a produzir anticorpos, ou seja, células de defesa contra os quatro tipos, e também células de memória. Assim, mesmo depois de algum tempo, quando eu entrar em contato com esse agente, com esse vírus, ou qualquer um dos quatro tipos [do vírus da dengue], o meu sistema imune consegue combater e reduzir a replicação do vírus no organismo”, explica Rosana Richtmann, infectologista do Grupo Santa Joana.

Fernanda Boulos, diretora médica do Instituto Butantan, endossa a explicação: “A Butantan-DV é uma vacina tetravalente, de vírus vivo atenuado que é capaz de causar replicação viral, que leva à produção de anticorpos no organismo, gerando imunidade”. Segundo ela, estudos clínicos de fase 2 e fase 3 demonstraram viremia (presença do vírus atenuado no sangue) e aumento dos títulos de anticorpos contra os diferentes tipos de dengue.

Veja também: 15 dúvidas sobre a vacina contra a dengue

 

Um avanço da ciência no combate à dengue

O desenvolvimento de uma vacina contra a dengue é considerado um desafio científico global, justamente por envolver vírus diferentes. “Nós estamos falando de uma doença e quatro vírus. Na realidade, é como se fosse preciso fazer quatro vacinas ao mesmo tempo para combater essa doença”, comenta a dra. Rosana.

Ela ainda destaca que a chegada da vacina nacional representa um avanço importante da ciência e uma ferramenta estratégica de saúde pública, especialmente em países tropicais como o Brasil. “É um grande progresso, ainda mais por que ela pode conferir uma proteção de praticamente 80% para você não ter a doença.”

Ao reduzir casos sintomáticos, hospitalizações e mortes, a imunização contribui para aliviar a pressão sobre o sistema de saúde, especialmente durante períodos de surto.

 

Eficácia da vacina brasileira

De acordo com a dra. Fernanda, a eficácia da vacina Butantan-DV foi avaliada em estudos clínicos de fase 3. “A eficácia foi comprovada para os tipos DENV-1 e DENV-2, pois não houve casos de DENV-3 e DEN-4 capturados no estudo, o que é compatível com a epidemiologia do Brasil, que teve baixa circulação desses sorotipos durante os anos do estudo”, explica.

Após cinco anos da aplicação da dose única, a eficácia geral da vacina foi de 74,7%, considerando a população de 12 a 59 anos. Nesse mesmo período, a proteção contra dengue grave ou com sinais de alarme chegou a 91,6%.

 

Quem pode se vacinar e quais as contraindicações

A vacina Butantan-DV está aprovada para a população de 12 a 59 anos, com esquema em dose única. As contraindicações incluem mulheres gestantes e que estejam amamentando, indivíduos com imunodeficiência primária ou secundária e pessoas em condição de imunossupressão.

O imunizante foi incorporado ao Programa Nacional de Imunizações (PNI) e será ofertado à população pelo SUS, conforme a estratégia definida pelo Ministério da Saúde.

Já para o público mais jovem, de 10 a 14 anos, o sistema de saúde seguirá ofertando a vacina japonesa Qdenga, com esquema de duas doses. As contraindicações são basicamente as mesmas da vacina brasileira. 

Veja também: Por que a vacina contra a dengue não é recomendada para idosos?

 

A experiência de quem se vacinou

Moradora de Botucatu, a fotógrafa Mariana Lopes participou da vacinação em massa realizada no município e destacou a importância de viver em uma cidade que integra estratégias nacionais de imunização. “Sou muito grata de morar em um lugar que fez parte desse esquema vacinal inicial, porque Botucatu também foi uma das primeiras cidades que tomou a primeira dose da vacina contra a covid”, afirma.

Embora esteja vacinada, Mariana sabe que a imunização não substitui os cuidados cotidianos para prevenir a doença. “A vacina não isenta a responsabilidade de continuar evitando a proliferação do mosquito.”

 

Como prevenir a proliferação do mosquito da dengue

Apesar do avanço representado pela vacinação, o combate ao Aedes aegypti segue sendo essencial para reduzir a transmissão da dengue. Entre as principais medidas de prevenção, estão:

  • Eliminar recipientes que possam acumular água parada, como pratos de plantas, garrafas, latas e pneus;
  • Manter caixas d’água, tonéis e reservatórios sempre bem vedados;
  • Limpar calhas e ralos regularmente;
  • Usar telas em portas e janelas, especialmente em áreas com maior circulação do mosquito;
  • Aplicar repelente, principalmente durante o dia, período de maior atividade do Aedes aegypti.

Essas ações reduzem a proliferação do mosquito e complementam o efeito da vacinação na proteção da população.

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