Grande parte das campanhas de conscientização sobre HIV e aids tem os jovens como público-alvo, o que criou a impressão de que somente eles estão expostos ao risco de contrair o vírus. Mas pessoas mais velhas também estão vulneráveis: a cada ano, cresce o número de idosos soropositivos no Brasil, e isso não acontece apenas pelo envelhecimento dos pacientes. É preciso falar abertamente sobre o tema e alertar esse grupo sobre a importância de se prevenir.

“O HIV não tem idade e atinge todas as faixas etárias. Tanto idosos como jovens correm riscos e os dados mostram isso”, afirma a dra. Anita Campos, infectologista e diretora médica da Gilead Sciences. De acordo com o último Boletim Epidemiológico do Ministério da Saúde, em 2007 foram registrados 161 casos de pacientes com mais de 60 anos. Em 2017, esse número foi mais de três vezes maior: foram 528 registros no primeiro semestre do ano.

Os avanços da ciência já são capazes de manter a qualidade de vida das pessoas infectadas. Contudo, não se discute sexualidade entre os mais velhos e o uso da camisinha nessa fase ainda é um tabu, o que contribui para aumentar o risco de infecção pelas ISTs (infecções sexualmente transmissíveis).

 

Por que aumentou?

 

Para os especialistas ouvidos pelo Portal Drauzio Varella, a alta se deve em parte ao envelhecimento daqueles que foram infectados quando ainda eram jovens ou adultos. “Com os medicamentos e tratamentos atuais, pessoas com HIV têm uma expectativa de vida tão longa quanto qualquer um. Por isso, é esperado que os pacientes que tenham o vírus desde jovens se tornem idosos”, explica a dra. Vivian Avelino-Silva, infectologista do Departamento de Moléstias Infecciosas e Parasitárias da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP).

Por outro lado, esse aumento também é resultado das novas infecções nas pessoas já em idade mais avançada. A dra. Vivian acredita que estamos passando por fenômenos sociais que facilitam novas parcerias sexuais, o que vale para todas as idades. Já a dra. Anita Campos destaca que os avanços tecnológicos na área de saúde, os tratamentos de reposição hormonal e as medicações para impotência têm permitido o redescobrimento do sexo entre idosos. “Mas ainda há grande ocorrência de práticas sexuais inseguras, já que os idosos não têm o costume de usar camisinha. Isso contribui para que essa população se torne mais vulnerável à infecção pelo HIV e outras ISTs”, afirma.

 

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Riscos mais específicos

 

Segundo a dra. Vivian, pessoas em idade avançada que vivem com HIV podem ter mais dificuldade para recuperar as defesas do organismo após iniciar o tratamento, já que nesse grupo as reservas do sistema imune tendem a ser naturalmente menores.

Outro ponto importante são as doenças crônicas, como diabetes, hipertensão, alterações no nível de colesterol e problemas nos rins, que são mais comuns em idosos. De acordo com o dr. Jean Gorinchteyn, infectologista do Instituto de Infectologia Emílio Ribas, as enfermidades podem se tornar um complicador para o tratamento, dificultando o uso de medicações contra o vírus. Portanto, é preciso escolher muito bem os medicamentos que serão utilizados. “A aids no idoso tem um impacto muito maior do que no jovem do ponto de vista físico, já que ele pode ter outras doenças em associação e, por isso, correr o risco de desenvolver formas muito mais graves de infecções e não ter a mesma resistência de um paciente mais novo”, afirma o médico.

É preciso ainda ficar atento a doenças secundárias relacionadas à aids, como insuficiência renal, perda óssea, problemas cardiovasculares e no fígado, alterações metabólicas e declínio cognitivo. Mas a principal causa de morte relacionada à infecção é a tuberculose, responsável por mais de um terço dos óbitos. Segundo o Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/Aids (UNAIDS), uma em cada cinco mortes por tuberculose ocorre entre soropositivos.

 

Diagnóstico tardio

 

Um problema importante sobre esse tema que precisa ser solucionado é a demora no diagnóstico. Segundo o dr. Jean, mesmo quando um idoso com pneumonia, complicação recorrente da aids, chega ao hospital, sua condição sorológica frequentemente não é investigada. “É comum que mesmo entre os exames de rotina o teste de HIV não seja solicitado, fazendo com que esses indivíduos só sejam diagnosticados no momento em que eles têm aids, ou seja, quando ocorrem as doenças oportunistas.”

É o caso do aposentado José Armando de Gouveia, de 70 anos. Ele foi diagnosticado aos 62, mas os médicos informaram que ele provavelmente já estava infectado pelo HIV havia aproximadamente dez anos. Contudo, só lhe solicitaram o teste quando ele passou a desenvolver os sintomas da aids. “Fiquei viúvo em 1995, aos 47 anos. Para não entrar em depressão, comecei a sair muito e me relacionei com várias mulheres, mas nunca me preocupei em usar preservativo. Eu achava que nunca ia acontecer comigo.” Mas o dr. Jean alerta que mesmo a pessoa que teve uma única relação sexual desprotegida deve fazer o teste para descobrir se foi infectada.

Existe uma preocupação maior em envelhecer com conforto e com boa saúde. Mas falar abertamente sobre o sexo ainda é um problema. É importante alertar essa população sobre a necessidade do uso da camisinha para que eles tenham uma vida sexual com mais segurança e longe das infecções sexualmente transmissíveis.

Vivendo com o vírus

 

O quadro que fez José Armando procurar ajuda em 2010 incluía fraqueza, tontura, diarreia e falta de apetite, além de sintomas semelhantes aos da gripe. “No caso da aids, esses sintomas são contínuos. Enquanto você não começa o tratamento, eles não passam”, diz. Ele ficou muito debilitado e teve perda de peso repentina, o que chamou a atenção de um amigo, que resolveu falar com a filha de José. Juntos, eles procuraram um hospital, onde o aposentado foi internado e teve de permanecer por dois meses. Quando teve alta, já bem melhor, ainda pesava 63 quilos, bem distante do seu peso habitual de cerca de 80 quilos.

Apesar do diagnóstico difícil, ele nunca encarou a doença como uma “sentença de morte”. Depois do que aconteceu, entendeu a importância de cuidar da saúde. Hoje, recomenda que os amigos façam exames regularmente, pois no caso do HIV, se a pessoa foi infectada recentemente, pode ser que ela ainda seja assintomática (não apresente sintomas). Assim, ela começa o tratamento rapidamente e, muitas vezes, nem desenvolve a doença. “Se eu tivesse feito um exame no começo, já teria corrido para me tratar e não precisaria passar pelo que passei”, afirma.

José Armando conta que, na época em que esteve internado, muitas pessoas que apareciam para visitá-lo sentiam pena. “Para todo mundo que ia me ver dessa forma, eu tentava passar alegria, porque eu estava doente – não restava dúvida –, mas estava vivo. Eu não me deixava levar, tinha sempre o pensamento de que iria melhorar.”

O apoio da família, principalmente dos filhos, foi essencial para que ele não se sentisse sozinho. Sua filha ia visitá-lo e levar comida no hospital todos os dias. O médico liberou o almoço e o jantar de fora porque como ele já estava sem apetite, comer a comida caseira já conhecida era mais fácil. Todos os dias, ela chegava alegre nas visitas, ao passo que colegas que dividiam o mesmo quarto não tinham a mesma sorte de receber visitas. “Acho que a pior coisa é ver todo mundo recebendo visita e ninguém aparecer para te ver, para falar uma palavra amiga, perguntar se você está bem. O paciente já está debilitado; se ele se sente abandonado, é muito ruim, ele se entrega”, opina.

Além disso, é fundamental que se fale sobre o HIV e a aids. Muitos sentem receio de contar que são soropositivos, mas José reforça que não há motivo para isso. “Não é vergonha. Não tenho problema nenhum em falar sobre o assunto. E quando você conversa com pessoas que estão na mesma situação, você passa confiança. Quando eu vou à clínica, falo com alguns pacientes, passo algumas coisas para eles e também ouço o que eles têm a me dizer. A gente percebe quem são as pessoas que têm vontade de viver, de vencer a doença. Isso faz toda a diferença”, afirma.

Precisamos falar abertamente sobre a prevenção e oferecer mais opções para que a pessoa possa usar as que mais se encaixem no seu estilo de vida e nas suas escolhas de felicidade. O Ministério da Saúde hoje fala em uma “mandala” da prevenção, e não mais apenas na camisinha.

Qualidade de vida

 

Mas como é o dia a dia de um soropositivo? Não é penoso viver com o vírus? Esse é o pensamento de muitas pessoas que não conhecem pacientes com HIV. Cada organismo tem suas particularidades e, por isso, pode reagir de forma diferente ao tratamento, mas é fato que hoje é possível viver bem com o vírus. Como afirmou a dra. Vivian, atualmente as pessoas com o HIV têm expectativa de vida semelhante à de quem não o contraiu.

Na época em que a aids foi descoberta, o cenário era bem diferente do atual. Os tratamentos antigos utilizavam medicamentos de alto custo e que causavam efeitos colaterais intensos, o controle da doença era muito mais difícil e poucos conseguiam sobreviver por muito tempo, o que compôs o imaginário de muita gente. Mas o tratamento evoluiu muito no Brasil e no mundo, e hoje existem antirretrovirais muito mais potentes, menos tóxicos e de fácil acesso à população.

José Armando é o exemplo perfeito de tratamento bem-sucedido. Com mais de 60 anos, ele conseguiu se recuperar dos efeitos da aids e hoje, aos 70, é uma pessoa saudável, que vive tão bem quanto antes do diagnóstico. Durante os primeiros anos de tratamento, sentiu os efeitos colaterais dos medicamentos, mas depois seu organismo foi se adaptando. Já com a vida normalizada, chegou a descobrir um início de câncer na próstata. Com o diagnóstico precoce, não precisou fazer quimioterapia nem radioterapia, apenas cirurgia. Ele destaca a importância do acompanhamento médico e da realização de exames periódicos em homens mais velhos.

José não tem nenhuma doença crônica e procura manter bons hábitos. Mora sozinho, mas sempre encontra os familiares e amigos e busca aproveitar os momentos de lazer. “A minha vida é normal. Eu vou ao bar, bato papo com os amigos, jogo bilhar, faço a minha comida, limpo a minha casa, cuido do meu cachorro. Assim vou levando a vida. E pretendo levar por mais um bom tempo”, conta.

 

Sexo na terceira idade

 

Os idosos de hoje em dia ainda vêm de uma geração com dificuldade para conversar abertamente sobre sexualidade. Muitos iniciaram a vida sexual em uma época em que pouco se falava sobre aids e, por isso, nunca tiveram o hábito de usar preservativo nem se consideram um grupo vulnerável ao vírus. Muitos também viveram uma época em que as dificuldades de ereção e os efeitos da menopausa eram quase intransponíveis, o que os afastava ainda mais do sexo. Mas o dr. Jean destaca que as medicações corretoras desses problemas fazem com que os idosos se sintam mais encorajados a ter relações sexuais. “Precisamos falar abertamente sobre a prevenção e oferecer mais opções para que a pessoa possa usar as que mais se encaixem no seu estilo de vida e nas suas escolhas de felicidade. O Ministério da Saúde hoje fala em uma “mandala” da prevenção, e não mais apenas na camisinha”, afirma a dra. Vivian.

A mandala da prevenção é o esquema que representa a prevenção combinada, uma estratégia que associa vários métodos de prevenção de forma simultânea. Entre os métodos estão o teste regular para HIV e outras ISTs, a profilaxia pré-exposição (PrEP) e a profilaxia pós-exposição (PEP), a prevenção da transmissão vertical (quando o vírus é passado para o bebê durante a gestação), a imunização para hepatites A e B e para o HPV, programas de redução de danos, uso dos preservativos masculino e feminino e o tratamento de pessoas que já vivem com o HIV.

Na visão da dra. Anita Campos, a sociedade ainda enxerga a sexualidade como algo reservado aos mais jovens e muitos acreditam que pessoas idosas não são mais capazes de sentir prazer ao fazer sexo. “Esse pensamento é errado. As pessoas estão se preparando melhor para esta fase da vida. Existe uma preocupação maior em envelhecer com qualidade e com boa saúde. Mas falar abertamente sobre o sexo ainda é um problema. É importante alertar essa população sobre a necessidade do uso da camisinha para que eles tenham uma vida sexual com mais segurança e longe das infecções sexualmente transmissíveis. Com isso, vamos quebrar esse tabu aos poucos.”

Mas para que os idosos sejam vistos como indivíduos que têm desejos sexuais, é necessário que haja diálogo em casa e nos consultórios médicos. Também é preciso criar estratégias educativas através da adoção de políticas de saúde pública que concentrem a atenção na população mais velha e na realização de programas de prevenção. “Assim, vamos conseguir promover uma mudança no comportamento dos idosos, principalmente quanto às formas de prevenção do HIV. É preciso fazer com que percebam sua vulnerabilidade e entendam a necessidade de se fazer sexo seguro”, reforça a médica.