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DrauzioCast #152 | Memória e excesso de estímulos



Atualmente, o que consideramos problemas de memória podem ser, na verdade, reflexo de um mundo moderno e cada vez mais acelerado.

 

 

 

Uma das queixas mais frequentes que os médicos ouvem atualmente é a falta de memória. Antes, você via pessoas de idade se queixando: “Minha memória não é mais como no passado”. Hoje, você vê jovens, mulheres e homens de 30 e poucos anos se queixando de que a memória anda péssima, que não conseguem se lembrar das coisas, que não conseguem guardar mais o número de nenhum telefone.

Isso é um fenômeno moderno. Não havia gente assim que se queixasse de problemas de memória. Por outro lado, também não havia tantos estímulos como nós percebemos hoje. E eu, muitas vezes, fico com a dúvida: será que esse é um problema de memória mesmo ou de atenção?

No mundo moderno, a gente tem a atenção chamada o tempo todo para os mais diferentes veículos, não é? É gente que fala, é o celular, é o WhatsApp, são os e-mails que chegam, são os telefonemas que nós temos que dar. E tudo isso, muitas vezes, acontece ao mesmo tempo. Além disso, com o auxílio desses meios de comunicação, nós perdemos certas habilidades. Eu lembro que eu sabia de cor todos os telefones da minha família e dos amigos com os quais eu me comunicava em uma frequência maior. Hoje, eu não guardo número de ninguém, porque eu vou no meu celular, está lá, vai direto.

Nós vamos falar sobre esse problema hoje com um neurologista que é membro da Academia Brasileira de Neurologia (ABN), escritor, tem quatro livros publicados e um  deles é sobre a memória. Nós vamos conversar com o dr. Leandro Telles.

 

Drauzio Varella: Leandro, seja bem-vindo! Eu queria que você começasse pelo básico mesmo: como é que funciona a memória?

Dr. Leandro Telles: É um prazer. Esse tema é importante, moderno, palpitante e a gente tem se debruçado na compreensão justamente da interação entre o cérebro e o novo mundo criado, em parte, por esse mesmo cérebro. A gente vive tempos acelerados, onde o grau de expectativa é bastante alto. Existe, como você muito bem colocou, uma terceirização intelectual. A gente está deixando que outras estruturas façam o papel que antigamente era feito pelo cérebro.

A memória é uma das funções mais nobres, mais complexas, mais diferenciadas do cérebro humano. A memória é a cola do tempo. É o que cria a condição de passado, presente e futuro. É o que dá sentido às atividades vigentes. O cérebro reserva um terço da sua massa encefálica para poder criar essa pequena cicatriz neuronal e fazer a gente sentir de novo, na ausência do estímulo que deu origem. A gente é capaz de ter uma biografia. No fundo, é um grande patrimônio de vida.

Eu sempre falo que a memória não é uma função, é uma sequência de funções. Você precisa de uma boa vivência. Essa vivência precisa ser profunda, complexa, com tempo. Você tem que ter uma boa atenção, uma capacidade de perceber aquele estímulo e atribuir um grau de relevância e depois consolidar essa informação para que ela possa ser carregada por anos, por décadas ou por uma vida inteira. É como se fosse uma corrida de obstáculos, onde você tem várias subfunções. 

No fundo, todo mundo fala: “Eu esqueço”. Mas cada um tem um problema em uma área desta cadeia. Às vezes, realmente, a vivência está pobre. Às vezes, o cérebro não está saudável, descansado ou emocionalmente estável. Às vezes, é a atenção que foi sobrecarregada ao extremo. E, às vezes, o problema está, sim, no próprio mecanismo da fixação, como a gente vê nas demências e nas doenças cerebrais mais graves. Mas compreendê-la como uma cadeia de eventos ajuda a entender o tipo de disfunção daquele caso.

Veja também: Memória e esquecimento | Entrevista

 

Drauzio: Você falou do esquecimento e o esquecimento é importante para a memória também, né?

Dr. Leandro Telles: É importante. Essa colocação faz a gente pensar. Memorizar bem não é memorizar tudo. As pessoas acham que é só uma questão quantitativa, mas não é. É uma questão qualitativa. O cérebro precisa editar as memórias, precisa mais esquecer do que lembrar. Na minha vida como médico neurologista e imagino que na sua também, a gente se deparou com muitas pessoas que têm dificuldade de esquecer, de superar, de seguir em frente. Muitas doenças são fruto de estresse pós-traumático, de memórias mal esquecidas, de rancor e ressentimento e também podem trazer problemas emocionais.

O cérebro precisa lembrar o que é importante e esquecer ou, pelo menos, tirar da frente da consciência, questões traumáticas ou irrelevantes. Por isso que o sistema tem que ser tão afinado, e por isso que ele está suscetível a bugs e a imperfeições. As pessoas hoje em dia não toleram essas imperfeições. Atualmente, é cobrado rendimento de robô, não se pode esquecer de nada. A sociedade não tolera o erro, é hipercrítica. Isso acaba levando uma multidão de pessoas que acham que padecem de falta de memória, mas simplesmente têm um cérebro normal colocado em um mundo um pouco anormal, um pouco inquieto demais.

 

Drauzio: Esse excesso de informações pode sobrecarregar a memória e explicar o “esquecimento” do qual as pessoas se queixam hoje?

Dr. Leandro Telles: É a maior explicação para queixas de esquecimento em jovens. “Nossa, eu esqueci minha carteira”, “Eu esqueci meu celular”, “Por pouco eu não esqueci a criança na escola”. O cérebro tem uma certa inércia. Se você oferece guerra, estresse, muito estímulo, ele fica mais acelerado e perde um pouco da capacidade de separar o “joio do trigo”. 

A concentração e a atenção têm limite. Eu consigo lidar com um número finito de atividades. Se eu levar mais atividades para esse filtro, para esse funil, eu vou perder rendimento. O cérebro que está com quatro, cinco coisas, é como se estivesse girando pratos naquela analogia do malabarista. Quanto mais pratos e maior distância entre eles, haverá de uma hora um prato cair. Esse é o esquecimento por desatenção. Depois eu lembro o que eu esqueci, eu falo: “Nossa, realmente, eu tinha aquela atividade”. Mas eu atrapalho pelo excesso. Hoje em dia, se você não filtrar o universo, ele virá atropelando. O marketing, o entretenimento e as vendas já aprenderam que o cérebro se seduz por coisas intensas, feedbacks rápidos, informações com roupagem diferente, então está todo mundo querendo um pedacinho da nossa concentração. E ficamos depois fatigados, cansados e com baixo rendimento.

 

Drauzio: E que mecanismos o cérebro usa para dizer: “Olha, essa memória é importante guardar” ou “Essa outra eu quero esquecer depressa”. Por exemplo, com o celular aqui, eu coloco o celular do lado direito. Não interessa ao cérebro conservar essa lembrança, essa memória, e daqui a uma semana eu lembrar de que lado eu coloquei o celular. Que mecanismos o cérebro utiliza para separar o “joio do trigo”?

Dr. Leandro Telles: É uma pergunta extremamente interessante. O cérebro tem critérios um pouco automáticos e você pode incrementar critérios mais conscientes. Os critérios automáticos se encantam por aquilo que destoa do normal, do ambiente, e o cérebro diz: “Opa, tem uma informação relevante ali”. Se essa informação também se repete, volta a ocorrer, o cérebro diz: “Opa, isso é uma coisa importante”. 

Outra coisa que se valoriza é a intensidade do estímulo e o vínculo com algum aspecto emocional, bom ou ruim. O marketing já aprendeu isso e eles falam que ou você diverte ou você emociona, senão não vai capturar aquela informação. O professor usa isso de alguma forma, transformando o dado em algo mais palatável como vetor de uma regra chamada de mnemônica, a qual facilita a memória. A gente pode fazê-lo no dia a dia: transformar um estímulo que aparentemente é importante, mas que não seduz, em algo mais sedutor.  

O cérebro vai fixar por um longo prazo aquilo que tem vínculo com memórias antigas, nexo afetivo e tempo. Por isso que as vivências mais rápidas se perdem mais facilmente. Hoje em dia, a gente está vivendo em um mundo muito efêmero. Por isso que eu sempre falo: para lembrar melhor, é preciso viver melhor. Se você entrar no monotarefa, no emocional multissensorial e com tempo para o cérebro processar, você vai conseguir uma memória mais robusta.

Agora o cérebro tem um truque. Ele guarda algumas memórias irrelevantes por um prazo, de algumas horas a poucos dias. Eu sei o que eu tomei café ontem, eu sei o meu jantar de ontem, eu sei as conversas que tive ontem, mesmo que sejam irrelevantes. O cérebro dá uma chance para que essas informações rápidas convençam ele. Isso é muito importante para o aluno, porque ele vê uma informação na aula e, se ele não entrar em contato no primeiro, no segundo ou no terceiro dia, não mudar a roupagem, vai cair no decaimento. O cérebro dá uma chance para o vínculo pela distância temporal e pelo tipo e feição da informação.

Veja também: Memória e linguagem | Entrevista

 

Drauzio: Por outro lado, você tem acontecimentos no geral, carregados de emoção, que basta um estímulo único para nunca mais ser esquecido. Por exemplo, eu lembro onde eu estava quando eu recebi a notícia de que o presidente Kennedy foi assassinado, do acidente que vitimou Ayrton Senna ou das Torres Gêmeas. Por que nessas situações um único acontecimento provoca uma memória imorredoura?

Dr. Leandro Telles: Verdade. Você pode ter um evento único, às vezes até fugaz, e isso se aprofunda na mente de forma absolutamente eterna (pensando na eternidade do cérebro humano). Isso acontece, primeiro, pelo anedótico, pelo que confronta. Se o cérebro encontrar algo que nunca viu, aberrante, ele fixará mais. Isso é até uma das explicações para a gente entender a passagem do tempo e a memória no mundo da criança. Ela explora um mundo novo, diferente e se encanta com cores, sabores e vivências. 

Outra noção é a profundidade emocional. É muito difícil você esquecer o nascimento de um filho, uma forma pura. A roupagem emocional é redundante com a informação. O ser humano desenvolveu as áreas do sistema límbico no mesmo local das áreas da memória, mostrando que a roupagem da vivência é a emoção. Por isso que quando a emoção vai mal, a memória também deteriora. Na depressão, as memórias se perdem. Na ansiedade, a roupagem é diferente. Eu chamo isso no livro de “duas janelas de oportunidade”: a primeira janela é a vivência. Se ela for pesada, intensa e clara,  você nem precisa rememorá-la. Agora, se aquela vivência foi mais ou menos, você vai precisar trabalhar a informação nos dias subsequentes ou revisitar de forma recorrente para que se consolide. 

Eu brinco no livro que é como um show de calouros: tem calouro que chega, canta e em 10 segundos, você diz: “Esse cara está aprovado, vai para a final, ele é muito bom”. Essa é a memória emocionalmente intensa. Isso pode fazer mal, porque pode ser uma memória traumática também, como surge no estresse pós-traumático. 

E alguns calouros você fala: “Ele não é ruim o suficiente para ser desclassificado”. Eu peço para ele cantar outra música, eu dou outra chance dele mudar o enredo e ter uma oportunidade de ser fixado nas próximas horas. O cérebro guarda essas informações a curto prazo, mesmo com baixa relevância, mas fixa com prioridade aquilo que ele julga ser de alta relevância.

O difícil é que, hoje, tudo vem com uma roupagem de urgência. É muito difícil avisar o cérebro se aquilo é ou não importante, uma vez que tudo vez com roupa de coisa importante.

 

Drauzio: O psicólogo britânico David Lewis criou um termo: síndrome da fadiga informativa. É exatamente isso que você está falando?

Dr. Leandro Telles: Esse termo é muito interessante. É isso que eu estou falando. O cérebro é limitado e gasta muita energia. Não é uma energia espiritual, é orgânica. O cérebro é uma usina, equivale a 2% do nosso peso, mas consome um quinto do sangue, do oxigênio e da glicose. Então, ele gasta isso cuidando do corpo e dos pensamentos. Se você sobrecarregar o sistema de triagem e estiver com múltiplos afazeres, você vai desorganizar outras funções: ritmo de sono, grau de irritabilidade, risco de Burnout, risco de piora da ansiedade. O cérebro vai tentar dar conta, porque ele tem uma reserva, só que, hoje em dia, a gente já trabalha com essa reserva. A gente já roda no “cheque especial”, porque estamos empanturrados de informação.

E aí é curioso: informação é importante. Tirar o cérebro da zona de conforto é importante. Mas tem um limite. A partir desse limite, existe um desgaste. Eu odeio a comparação do cérebro com o músculo, mas, nesse caso, é possível. O cérebro é um músculo: se você para, ele perde massa magra, perde estrutura e fica fraco. Se você exagera, ele dói, cansa, estira e lesa. Então, você tem que trabalhar no equilíbrio para que haja renovação do órgão.

 

Drauzio: Eu citei no início que eu sabia o número de telefone de todas as pessoas que me interessavam. E hoje, não sei mais. Atualmente, uma criança de 10 anos tem muito mais informação do que, sei lá, um imperador romano no passado. Esse excesso de informações está deixando a gente mais inteligente ou mais limitado intelectualmente?

Dr. Leandro Telles: Uma ponderação bastante complexa de responder. O excesso de informação da forma que a gente tem visto atualmente não ajuda no rendimento intelectual. O excesso de informação de baixa relevância, redundante e de má qualidade não ajuda. A gente tem hoje uma captação com informação de feedback rápido, de prazer efêmero, que muitas vezes só leva a polarização, principalmente quando ela é filtrada por algoritmos externos. Então, hoje, o que a gente tem não é um aumento da inteligência. Temos um conteudismo, uma polarização e justamente uma dificuldade no que chamamos de inteligência. 

E não é só na questão do QI (Quoeficiente de Inteligência), que é um conjunto de testes de matemática e de lógica. A inteligência se vê na capacidade de cuidar de si, do outro e do mundo, de se equilibrar emocionalmente, de lidar com frustrações, de ter aspectos criativos de inovação e de ter perfil de liderança interpessoal. Então, esse excesso de informação não joga a favor, muito pelo contrário: como a gente consegue buscá-la com facilidade, precisamos desocupar o nosso cérebro para que ele possa pensar. E tem que pensar. 

Você falou uma coisa que é muito importante: a terceirização cognitiva. O que a gente tem hoje não é mais inteligência, é uma precocidade. As crianças são mais precoces, espertas e aprendem a delegar para os aparelhos muito antes de aprender a realizar. Elas aprendem a digitar antes de escrever, aprendem a utilizar a calculadora antes de dominar os números, aprendem a buscar na agenda antes de tentar. Isso gera uma intolerância ao ócio, um poder falso, onde você fica perdido quando a bateria ou a luz acaba e percebe que seu cérebro está limitado e não ampliado pela terceirização intelectual.

Veja também: Como funciona a memória | Entrevista

 

Drauzio: Quando uma pessoa se queixa de falta de memória e a gente tem que valorizar? Quando se preocupar com a falta de memória?

Dr. Leandro Telles: Uma dica bem simples é quantidade e impacto na qualidade de vida. Todo mundo vai esquecer. Se você não se esquece de nada, normal não é, ser humano você não é, porque o ser humano esquece e faz parte do processo. Então, você tem que levar na esportiva, tentar melhorar nesse rendimento. Agora, se o esquecimento é recorrente, frequente e começa a atrapalhar sua habilidade social, profissional e escolar e se, mesmo dormindo bem, comendo bem e estudando bem, você não está rendendo, é hora de procurar ajuda. E não necessariamente você vai encontrar uma doença cerebral – pode ser que encontre um distúrbio hormonal, distúrbio do sono, quadro depressivo ou ansioso, uma dica de ambiente, diagnóstico de transtorno de déficit de atenção… 

Uma coisa é eu esquecer algo irrelevante que passou na minha frente de forma fugaz, outra é esquecer algo de alta relevância, como um comunicado, uma conta, o gás ligado. Para separar um pouco das formas mais graves de esquecimento, observe os demais sintomas. Se existem, por exemplo, mudanças de humor, de sono, se você se perde em lugares conhecidos, se tem dificuldade de executar ou tomar decisões, isso também é um sinal de que a queixa de memória pode fazer parte de um amplo espectro de possibilidades.

Outra questão é: “Eu esqueci, mas depois eu lembrei. Eu lembrei que eu esqueci?”. Isso é bom, significa que a dificuldade foi no acesso à informação, no rastreamento. “Eu esqueci e a informação desapareceu da minha mente, nunca mais lembrei”. Opa! Isso denota maior gravidade.

 

Drauzio: Quando você tem uma crise como essa que estamos vivendo, com um elevado número de mortes, em que a pessoa fica ansiosa e tem medo de pegar a doença, de que algum parente pegue ou de transmiti-la para uma pessoa querida, há um quadro de estresse do qual muitos se queixam atualmente. Isso pode ter repercussão nas funções duradouras sobre a memória?

Dr. Leandro Telles: Com certeza pode. O estresse demasiado – e a gente está passando hoje uma fase de estresse – levará muitas pessoas a terem algum grau de resposta alterada ao estresse ou resposta aguda ao estresse. Alguns terão até síndrome do estresse pós-traumático, principalmente profissionais de saúde da linha de frente, pessoas que tiveram a doença e possam também evoluir para um quadro de ansiedade. 

E mesmo para quem não teve a doença ou não está na linha de frente, existe um conceito de estresse por compaixão, por contexto ou por procuração, porque você acaba sofrendo por ver pessoas sofrendo, por ver o luto e pelo próprio medo sanitário, econômico e social. Isso, quando você projeta para um ano, um ano e meio, dois anos, já cria mudanças cerebrais. Pode levar, sim, as pessoas a ficarem com certo centrismo e a terem dificuldade de sono. Vai embolando, levando a ruminações mentais, pensamentos cíclicos e mal gerenciados, a neuroses. Tem pessoas que desenvolvem fenômenos de TOC, fobias. E tudo isso prejudica a memória. Pode fazer com que a pessoa fique um pouco aérea, desatenta, relapsa, pode baixar o rendimento. 

A gente tem índices, hoje, muito preocupantes com relação a abuso de substâncias, ansiedade e depressão. Inclusive, um trabalho recente aponta o risco de alterações neurológicas pós-covid e, quando você vai esmiuçar o trabalho, você vê que grande parte são doenças emocionais atribuídas à covid, mas com manifestações intelectuais. Hoje, essa cisão entre o cérebro cognitivo e o cérebro emocional se perdeu. Ela é contínua: quando você não vai bem emocionalmente, você vai ter fenômenos intelectuais, sem dúvida. E alguns autores consideram a depressão longa e a ansiedade longa, inclusive, como fator de risco para demências do futuro. Algo que carece ainda de plausibilidade e de nexo de causalidade, mas já aponta para essa possibilidade da saúde mental estruturalmente ser um fenômeno preventivo para demência na terceira idade. 

 

Drauzio: Leandro, às vezes, a gente tem uns lapsos de memória, pessoal diz “perder o fio da meada”. Você está contando um caso e, de repente, você fala: “O que que eu estava falando mesmo?”. Se você tem 30 anos quando isso acontece, você dá um valor relativo. Se você tem 70 anos, você fala: “Nossa, será que eu estou começando a ter Alzheimer?”. Como é que a gente faz essa diferença? 

Dr. Leandro Telles: É uma coisa muito comum de acontecer. A gente sabe que o pico intelectual no ser humano acontece ao redor dos 30, 35 anos. A partir dali, você vai tendo um acúmulo de experiência, conhece alguns atalhos, mas vai começar a perceber um pouco mais de lapsos. E essas duas coisas acontecem. Primeiro, porque elas ocorrem com mais frequência, principalmente as falhas no sistema de rastreamento. Então, você pode, às vezes, esquecer um nome, um título, e isso não é bem um esquecimento, mas é uma dificuldade de acesso rápido àquela informação, de abrir a gaveta certa. Isso acontece pelo envelhecimento normal e, também, pela quantidade absurda de informações que a gente fica e as coisas são muito parecidas para o cérebro. 

Mas acontece também esse fenômeno do excesso de vigilância. As pessoas mais idosas, por receio e experiência, elas temem e hiper valorizam alguns lapsos normais de memória. Se você consegue perceber, respirar fundo e voltar pro encadeamento da conversa, isso é de baixa intensidade. Se você esquece alguma coisa e, ao perceber que esqueceu: “Puts, a informação está lá!”. Ou, se alguém der uma dica e você se lembrou com a dica, isso é um bom sinal. 

Agora, se o fenômeno da memória é progressivo e começa a fazer você perder autonomia – as pessoas têm medo de te deixar sozinho, você não está conseguindo fazer coisas que antigamente fazia, se a cada semana parece pior, se você está perdendo segurança -, é melhor buscar ajuda e tentar entender o que está acontecendo. 

Então, os lapsos de memória vão aumentar. Você pode lutar contra isso fazendo uma coisa de cada vez, anotando, interagindo ativamente com aquela informação, avisando o seu cérebro que aquilo é importante (ou seja, desligando um pouco do piloto automático), mas vai ter que levar um pouco na esportiva, porque lapsos serão mais frequentes, principalmente com a longevidade atual onde a gente vê pessoas chegando aos 90, 100 anos com uma excelente produtividade. E essas adequações fazem parte de um envelhecimento normal. Passou do limite, tem que discutir se não está tendo um DCL (distúrbio cognitivo leve), que já é patológico. Passou desse limite, é uma outra quantidade de dificuldade, a gente já fala em demência e aí existem várias causas. 

Veja também: Excesso de estímulos sobrecarrega o cérebro e prejudica a memória

 

Drauzio: E, para encerrar, Leandro, o que eu posso fazer pra melhorar a minha memória? Algum tipo de exercício ajuda? 

Dr. Leandro Telles: Do ponto de vista prático, eu acho que a gente podia falar em curto e longo prazo. Se você quer melhorar a memória a partir de hoje, a primeira coisa é investir na vivência. Viva bem e você lembrará bem. A memória é uma versão da vivência. Se você vivenciar aquilo que é importante, de forma mais lenta, entrar na atividade não dividido (por exemplo: vai jantar, vai conversar? Desligue o celular. Vai trabalhar? Desligue o televisor ou o fone de ouvido), oferecer o cérebro todo para aquelas atividades que você quer recordar, isso já é um ótimo começo. Ofereça tempo, ofereça um cérebro descansado. 

Procure dormir bem. Quando você dorme bem, você ganha em concentração e rendimento e organiza as memórias do dia anterior. É importante. 

Cuidado com o abuso de medicamentos sem receita médica, álcool. Isso é um veneno para nossa memória. 

Encontrou alguma coisa importante? Avise o seu cérebro. Nosso cérebro é pelo menos dois: o consciente e o não consciente. Isso é importante. “Vamos interagir? Vamos perder dois segundinhos e criar alguma coisa afetiva, cômica? Porque essa informação é importante ser rememorada”. Crie pistas na sua vida para você tropeçar com essa informação de novo no mesmo dia ou no dia seguinte. Olhe álbuns de fotos, recrie imagens. 

Saia da inércia mental. A inércia mental é muito ruim. Aí entram jogos e a atividade que mais fortalece a memória e é mais estudada: a leitura. A leitura é um hábito que tem que ser cultivado e realmente previne quadros cognitivos. 

A longo prazo, eu vou citar rapidamente algumas coisas: vida social ativa, alta escolaridade, controle de peso, atividade física, cuidado com doenças que minam o cérebro ou doenças que possam machucar o cérebro, como traumatismo na cabeça seriado, hipertensão descontrolada, diabetes descontrolado, dietas inadequadas. Com isso, você consegue diminuir seu risco perto dos 50%. 

A gente sabe que a idade progride e a genética não muda. Então, vamos ter que trabalhar com essas variáveis que são modificáveis e tentar navegar com a melhor memória possível na nossa vida. 

 

Drauzio: Leandro, muito obrigado pelas explicações todas, que aliás, foram muito didáticas. Muito obrigado. 

Dr. Leandro Telles: Gratidão a minha. 

 

Se você gostou dessa conversa, que nós tivemos com o doutor Leandro Telles, você pode encontrar no nosso site mais de 100 episódios do Drauziocast que versam sobre os temas mais variados. Conheça também nossos outros podcasts: Entrementes, Por quê dói?, Saúde sem Tabu e Outras Histórias, todos disponíveis nos principais agregadores. 

 

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Sobre o autor: Drauzio Varella

Drauzio Varella é médico cancerologista e escritor. Foi um dos pioneiros no tratamento da aids no Brasil. Entre seus livros de maior sucesso estão Estação Carandiru, Por um Fio e O Médico Doente.

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