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Crianças e adolescentes devem se vacinar contra a covid-19 | Coluna

menino recebe vacinação contra covid-19. Adolescentes devem ser vacinados contra a covid

A suspensão da vacinação de adolescentes contra a covid-19, ocorrida na semana passada, lança dúvidas nos pais acerca da segurança e da necessidade da vacina.

 

Uma coletiva de imprensa em que houve abuso de informações falsas sobre a vacinação de crianças e adolescentes contra a covid-19. Não há outro meio de descrever o anúncio da suspensão da campanha de vacinação desse grupo feito pelo Ministério da Saúde em 16/9/21.

O ministro da Saúde Marcelo Queiroga começou o evento informando que houve erros de imunização em diversos estados e municípios que teriam aplicado, em mais de 1500 adolescentes, imunizantes cujo uso não foi autorizado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para esse grupo. Um equívoco grave, que não pode acontecer e deve ser apurado, sem dúvida, mas que não justifica de forma nenhuma a suspensão da vacinação.

Veja também: Covid, as crianças e os adolescentes

De acordo com o ministro, os benefícios da vacinação de jovens entre 12 e 17 anos ainda não estão claros. No entanto, o próprio MS havia recomendado a vacina para esse grupo etário na Nota Técnica Nº 36/2021– SECOVID/GAB/SECOVID/MS, de 02 de setembro de 2021. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) autorizou, em junho deste ano, o uso do imunizante da Pfizer para adolescentes.

A infectologista e epidemiologista Denise Garrett, vice-presidente do Sabin Institute, nos Estados Unidos, afirmou, em entrevista a este Portal, que há ampla evidência da segurança e da eficácia da vacina da Pfizer para adolescentes. “Casos de miocardite e pericardite foram identificados em jovens que receberam a vacina, mas todos foram casos leves, que se resolveram em poucos dias. O risco de desenvolver miocardite e pericardite por covid-19 é muito maior.”

De fato, de acordo com o Centro de Prevenção e Controle de Doenças (CDC)dos Estados Unidos, até 11 de junho deste ano, 52 milhões de doses de vacinas de RNAm (Moderna e Pfizer) foram aplicadas em pessoas de 12 a 29 anos nos EUA. Desse total, 323 desenvolveram miocardite/pericardite após a vacinação, a maioria casos leves. Não houve nenhuma morte entre esses pacientes.

Um estudo realizado pelo CDC americano revelou que o risco de uma criança com menos de 16 anos não vacinada contra a covid-19 desenvolver miocardite é 37 vezes maior do que o de uma criança vacinada.

O ministro também afirmou que o Serviço Nacional de Saúde do Reino Unido (NHS) suspendeu a vacinação de adolescentes. No entanto, a vacina contra a covid continua a ser aplicada nesse grupo, embora o serviço recomende apenas uma dose para crianças de 12 a 15 anos.

Em maio de 2021, a Agência Europeia de Medicamentos (EMA) passou a indicar a vacinação de jovens de 12 a 15 anos (maiores de 15 já estavam autorizados a receber a vacina) com o imunizante da Pfizer. França, Espanha, Dinamarca, Noruega, entre outros países europeus estão vacinando os jovens, principalmente depois do surgimento da variante Delta, mais contagiosa.

O órgão que regula medicamentos nos EUA, o FDA, recomendou o uso da vacina da Pfizer em adolescentes em maio deste ano. O Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) também: “O CDC recomenda que todos com 12 anos ou mais tomem a vacina para ajudar na proteção contra a covid-19. A ampla vacinação é uma ferramenta essencial para frear a pandemia”, diz órgão americano em sua página na internet.

Várias sociedades médicas brasileiras emitiram notas contrariando as afirmações do ministro da Saúde e reafirmando a recomendação da vacinação para jovens: Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm), Sociedade Brasileira de Pediatria (ABP) e Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI).

A SBIm afirma: “Não há evidências científicas que embasem a decisão de interromper a vacinação de adolescentes, com ou sem comorbidades. A SBIm, portanto, entende que o processo deve ser retomado, de acordo com o que já foi avaliado, liberado e indicado pela Anvisa”.

 

Prioridade

 

A Organização Mundial da Saúde (OMS) também indica a vacinação de jovens com a vacina da Pfizer, mas salienta a importância de se vacinar primeiramente os grupos com mais risco de desenvolver quadros graves de covid-19.

A OMS, que tem pressionado países desenvolvidos para que se empenhem em tornar a vacinação mais igualitária no mundo, tem demonstrado uma preocupação social e com a saúde pública mundial em relação à vacinação contra a covid-19 que está de acordo com suas atribuições. Para a organização, o mundo deve priorizar a vacinação de profissionais da linha de frente e de grupos mais vulneráveis a internações e morte pela doença em escala mundial.

Nenhum especialista com quem conversei discorda dessa orientação. O infectologista e pesquisador da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) Julio Croda ressaltou, em entrevista a este Portal, a importância de garantirmos a vacinação completa dos adultos com mais de 18 anos e a dose de reforço aos idosos antes de começarmos a vacinar os adolescentes sem comorbidades.

Se esse tivesse sido o argumento do ministro, aposto que os especialistas não se oporiam. No entanto, o que o ministro e sua equipe fizeram foi colocar em descrédito a segurança e a necessidade de se vacinar crianças e adolescentes em meio a uma pandemia que já matou quase 600 mil brasileiros.

Ao citar a morte de uma adolescente de 16 anos ocorrida em São Bernardo do Campo (SP) dias após a vacinação, mesmo sem que o caso tivesse relação causal comprovada e ainda estivesse sob investigação, o ministro gerou medo desnecessário em pais e responsáveis. Como se soube dias depois, a adolescente morreu de uma doença rara e grave chamada púrpura trombocitopênica trombótica (PPT), que causa anemia e queda de plaquetas, entre outros sintomas, e nada tem a ver com a vacina.

Qual o sentido de se levantar dúvidas acerca de uma recomendação já feita por especialistas e pelas principais organizações de saúde do mundo todo? O que se quer acobertar, que não há vacina disponível para todos os brasileiros que devem se vacinar? Por que não afirmar isso com clareza, estabelecer prioridades com base em evidências, como sempre fez o Plano Nacional de Imunizações (PNI), em vez de desinformar? Há outra motivação por detrás da suspensão da campanha?

Essas, meus caros, são as pergunta que devemos fazer.

 

Sobre o autor: Mariana Varella

Mariana Varella é editora-chefe do Portal Drauzio Varella. Jornalista de saúde, é formada em Ciências Sociais e pós-graduanda na Faculdade de Saúde Pública da USP. Interessa-se por saúde pública e saúde da mulher. @marivarella

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