O diagnóstico de transtornos do espectro autista no Brasil em geral é feito tardiamente. Profissionais de saúde nem sempre sabem identificá-los.

 

“Muitos pediatras ainda não conseguem perceber os sinais de alerta quando se trata de autismo. Às vezes, os pais relatam algum comportamento que consideram estranho na criança numa determinada faixa etária, como, por exemplo, o atraso para falar, se comunicar. Mas daí o médico diz: ‘Espera mais um pouco, é normal’. E com isso o diagnóstico demora e só é feito quando a criança tem cerca de 4, 5 anos de idade.”  No Dia Mundial de Conscientização do Autismo, comemorado hoje (2/4), Carla Gruber Gikovate, neurologista infantil pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), explica um pouco sobre esse transtorno, mais comum no sexo masculino  – quatro homens para cada mulher – e que no Brasil ainda demora muito tempo para ser diagnosticado.

 

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“Os profissionais de saúde deveriam receber um treinamento específico em relação ao transtorno. Quando os pais levam as crianças ao pediatra para acompanhar o crescimento do bebê, ele já deveria ficar atento aos sinais e também às observações da mãe. Essa demora influencia posteriormente na evolução da criança”, completa a médica.

Os transtornos de espectro autista (TEA) são definidos por um conjunto de comportamentos que variam em grau e gravidade. Indivíduos com dificuldade de socialização, de comunicação, com certa tendência à repetição e a ser metódico podem apresentar o transtorno.

Segundo nota da Organização Mundial da Saúde (OMS) de 2017 traduzida pela Associação de Amigos do Autista, os TEAs são um grupo de condições caracterizadas por algum grau de alteração do comportamento social, comunicação e linguagem, e por um repertório restrito, estereotipado e repetitivo de interesses e atividades.

Na maioria dos casos, eles se manifestam nos primeiros 5 anos de vida. As pessoas afetadas frequentemente têm condições comórbidas, como epilepsia, depressão, ansiedade e transtorno de déficit de atenção e hiperatividade.

O nível intelectual varia muito de um caso para outro, e pode ir da deterioração profunda a casos com altas habilidades cognitivas.

Relatório do Centers for Disease Control and Prevention (CDC), divulgado em 2018 e feito com base na análise de históricos médicos de crianças de 8 anos em 2014, relata que nos Estados Unidos há a estimativa de uma criança afetada por alguma forma de autismo a cada 59. O Brasil ainda não dispõe de estatísticas oficiais, mas a Lei Berenice Piana, sancionada em dezembro de 2012 e que garante que portadores do transtorno do espectro autista devem ser considerados deficientes para fins legais, também propõe a realização de um censo para saber o número de indivíduos com o transtorno no país.

 

Sintomas e diagnóstico de TEA

 

De acordo com a neurologista, as crianças que nascem com o TEA já começam, na maioria dos casos, a demonstrar sinais ao redor dos nove meses. “Elas não mantêm  contato visual efetivo e não olham quando você chama. A partir dos 12 meses, por exemplo, elas também não apontam com o dedinho. No primeiro ano de vida, demonstram mais interesse nos objetos do que nas pessoas. Quando os pais fazem brincadeiras de esconder e sorrir, também não demonstram muita reação”, explica ela.

Não existe um exame para detectar o transtorno, e seu diagnóstico é baseado no histórico do indivíduo. As causas, ainda de acordo com a especialista, são variadas e podem incluir fatores genéticos, infecções durante a gravidez da mãe e má-formação cerebral.

 

Tratamento do TEA

 

Em relação ao tratamento, também não há um modelo padrão, pois cada pessoa necessita de um acompanhamento individual com profissionais como fonoaudiólogos, psicólogos e terapeutas ocupacionais. Algumas precisam tomar medicamentos, especialmente quando há comorbidades associadas. Crianças convenientemente tratadas podem desenvolver habilidades fundamentais para sua reabilitação.

Embora exista preconceito em relação ao transtorno, muitos das pessoas com TEA, de acordo com a médica, conseguem se desenvolver e ser incluídas na sociedade. Para isso, ela reforça que o apoio da família é de extrema importância. “Um estudo populacional americano demonstrou que 30% dos autistas com certo nível intelectual e tratamento precoce se tornam independentes, 30% se tornam parcialmente dependentes e 40% são dependentes”, diz Carla Gikovate.